Comecemos este texto com um panorama de 2020. O número de pessoas mortas em ações policiais no Brasil contabilizou 6.375 . Desse total, 78% eram negros. 237 pessoas LGBTQIA+ foram assassinadas de forma violenta. 1.338 mulheres foram vítimas de feminicídio, sendo esses assassinatos praticados, em sua maioria, por companheiros, ex-companheiros ou pretensos companheiros. Para deixar esses crimes mais “palpáveis” e tornar sua incidência apenas uma questão meramente estatística, temos um discurso extremamente misógino, racista e LGBTfóbico enraizado nos mais diversos setores da população, inclusive em líderes de Estado.
No entanto, não é de hoje a violência e a perseguição que grupos minoritários sofrem mundo afora. Questões raciais, de gênero e de orientação sexual sempre foram tratadas com divergência, causando uma crescente discriminação sofrida por àqueles que, de uma forma ou de outra, não se enquadravam nos padrões tidos como socialmente aceitáveis. Foi em uma brilhante sacada que, em 1963, Stan Lee e Jack Kirby criaram os X-Men, uma equipe de jovens com habilidades especiais adquiridas através de uma mutação genética. Diferentemente dos demais heróis dos quadrinhos, os mutantes já nasciam com seus poderes, estes que se manifestavam geralmente a partir da puberdade.

Durante toda a sua trajetória nos quadrinhos, os mutantes sempre representaram o preconceito sofrido pelas minorias, bem como todo e qualquer grupo hostilizado e oprimido em decorrência de características inerentes à sua própria humanidade. Mesmo sofrendo constantes ataques e discursos de ódio, os X-Men seguiam firmes em sua batalha pelos direitos dos mutantes, combatendo a violência que recebiam com o incansável sonho de uma convivência pacífica e harmoniosa com os demais humanos.
Dentre todas as histórias da equipe, sinto que uma se destaca de forma primorosa. Publicada 1982, “Deus Ama, o Homem Mata” é uma graphic novel escrita por Chris Claremont e ilustrada por Eric Anderson. Aqui, vemos como a fé pode ser utilizada para embasar, mesmo sem nenhum fundamento coerente, um discurso extremamente cruel e preconceituoso. Dotado de fala e postura convincentes, o reverendo William Stryker é a legítima representação da ignorância mascarada por dizeres religiosos. Responsável por um movimento anti mutante, Stryker dissemina uma ideologia de medo e ódio, onde os portadores do gene X são uma ameaça profundamente perigosa que deve ser exterminada.
Os responsáveis pelo extermínio mutante são os chamados “Purificadores“. Empregando métodos altamente violentos, estes não têm nenhum critério quando a questão é matar: nem mesmo crianças escapam de seu ideal deturpado. Para os discípulos de Stryker – e obviamente para ele também – a vida mutante não significa nada. Como bem sabemos, no decorrer da nossa própria história, esse pensamento errôneo acabou por “justificar” genocídios, guerras, escravidão e um enorme desprezo pelo que se tinha como “diferente”. No entanto, o que seria de um lunático sem aqueles que o apoiam? Que combustível teria a violência se apenas um a incentivasse?
No decorrer do quadrinho, vemos como os próprios X-Men lidam com a investida do reverendo, e percebemos que além de terem que travar uma luta contra as convicções sórdidas de seu perseguidor, deverão se manter firmes em seus próprios ideais. Em um debate televisionado, vemos Xavier e Stryker apresentando suas respectivas argumentações. Enquanto o professor expõe seu ponto de vista, afirmando que os mutantes não devem ser temidos e que a convivência harmoniosa com o restante da humanidade pode – e deve – ocorrer, o reverendo demonstra sua completa irrefutabilidade.
Uma das cenas que, para mim, melhor define o pensamento fechado e retrógrado do reverendo é a sua simples e cortante justificativa para a violência que emprega. Ao ser questionado por Ororo sobre o porquê de sua perseguição aos mutantes, este responde apenas que:
“Porque vocês existem. E essa existência é uma afronta ao Senhor”.
Eu, como católica, posso afirmar que utilizar da religiosidade para proferir um discurso de ódio é, no mínimo, covarde. Justificar a morte de indivíduos através das palavras de Deus não pode ser tolerado em nenhuma circunstância, e deturpar passagens contidas nos livros sagrados apenas demonstra uma completa desonestidade com aqueles que naquilo acreditam.
O ápice do quadrinho se dá quando Stryker, fazendo seu sermão para milhares de pessoas, começa a ter seus argumentos questionados e seu ódio pelos mutantes criticado. Em um ato de coragem, os X-Men o enfrentam, cara a cara, durante a pregação. Mais do que o temor pelo próprio reverendo, a equipe sabe que precisa temer também os seus fiéis, e que se colocar perante o mestre de toda uma multidão apenas demonstra a força que os mutantes possuem para lutar por aquilo que acreditam. O fim de Stryker, como bem sabem, não significa o fim de sua ideia; o ódio uma vez disseminado através de palavras e ações tiranas não se cessa tão facilmente. Resta aos mutantes o orgulho de sua existência e o anseio mais do que justo por dias melhores.
“O que torna seu elo com o paraíso mais forte do que o meu? Nós temos dons exclusivos… mas nada além disso e nem mais especiais do que os de um médico, um físico, um filósofo ou um atleta. Podem ser devidos a um acidente da natureza ou da providência divina. Quem pode garantir? Rótulos arbitrários são mais importantes do que a maneira como levamos nossa vida? O que supostamente somos é mais importante do que o que realmente somos?!” – Ciclope.
Quando li essa história pela primeira vez, posso dizer que fiquei inicialmente surpresa com a semelhança com os dias atuais. Nossa primeira reação é o choque e a tristeza ao ver o quão cruel é o tratamento que os mutantes recebem, mesmo em agir contra os humanos. Como já dizia o sábio Mestre Yoda, “o medo leva à raiva, a raiva leva ao ódio e o ódio leva ao sofrimento”. Esta frase serve como uma luva em uma sociedade em que os mutantes são realidade. O temor pelo desconhecido desperta, mesmo que de maneira desproporcional, atitudes completamente discrepantes, estas que são friamente aproveitadas por aqueles que, como Stryker, desejam crescer em cima do medo alheio.
O que entristece, e ao mesmo tempo causa uma profunda sensação de impotência, é o fato de que, mesmo após tantos erros, nós seguimos em uma maré de ignorância e preconceito. O papel do reverendo é ocupado por aqueles que deveriam garantir o bem de toda a população, mas que se aproveitam de sua posição de poder para colocar em prática ideologias desumanas e hediondas. Seja em 1982 ou em 2021, o que difere um Stryker de um professor Xavier é justamente a capacidade de enxergar além de si mesmo, tendo a sensibilidade de reconhecer e sentir a dor que o outro carrega.