Comentários

Estimated reading time: 6 minutos

Grande sucesso da Netflix, Emergência Radioativa tem uma história tão apocalíptica que nem parece inspirada em uma catástrofe real. Como a própria série anuncia, sim, o acidente do césio-137 aconteceu. A trama, obviamente, cria eventos e personagens fictícios para aumentar a dramatização, mas emula o clima do Goiânia na época.

Se você nunca ouviu ou leu sobre essa história, este artigo entrega um resumo dos fatos ocorridos setembro de 1987, apenas um ano depois do famoso acidente de Chernobyl.

O acidente do Césio-137 em Goiânia

A capsula de onde saiu o césio 137 (Reprodução/CNEN)

Tudo começou quando um aparelho de radioterapia foi abandonado nas ruínas do antigo Instituto Goiano de Radioterapia (IGR), que havia mudado de sede. O equipamento continha uma cápsula de chumbo e aço com cloreto de césio-137, um material altamente radioativo.

Dois catadores de papel, Roberto dos Santos Alves e Wagner Mota Pereira, encontraram o aparelho e, acreditando que o metal teria alto valor de revenda, levaram para casa. Eles conseguiram abrir a cápsula de proteção a marretadas e, dentro dela, encontraram um pó que emitia um brilho azul intenso no escuro.

Encantados com a luz, eles mostraram o material para familiares e amigos. O dono de um ferro-velho, Devair Alves Ferreira, comprou o equipamento e distribuiu fragmentos do pó para diversas pessoas, incluindo sua sobrinha de apenas 6 anos, Leide das Neves Ferreira, que chegou a ingerir partículas do césio enquanto se alimentava.

Poucos dias depois, várias pessoas apresentaram sintomas como náuseas, vômitos e queimaduras na pele. Inicialmente, os médicos trataram o caso como doença tropical ou intoxicação alimentar. Foi a esposa de Devair, Maria Gabriela Ferreira, quem desconfiou do metal e, em um ato heroico, levou a cápsula até a Vigilância Sanitária em um ônibus comum.

O impacto e o rastro de destruição

Vítimas em quarentena no Estádio Olímpico (Reprodução / Youtube)

O acidente fez quatro vítimas fatais diretas: a pequena Leide das Neves, sua tia Maria Gabriela, e os funcionários do ferro-velho Israel Baptista dos Santos e Admilson Alves de Souza. A Associação de Vítimas do Césio-137, no entanto, aponta outras 60 mortes relacionadas e pelo menos 1.600 pessoas afetadas pela exposição ao material ao longo das décadas.

Embora Roberto e Wagner tenham sobrevivido ao contato inicial, ambos sofreram danos físicos severos — incluindo amputações parciais — e carregaram o estigma social pelo resto da vida. Eles foram vítimas diretas do descaso, já que não tiveram culpa pelo abandono de um equipamento radioativo em um local de fácil acesso.

A dimensão do desastre exigiu uma operação de guerra. Mais de 112.000 pessoas foram submetidas a triagem no Estádio Olímpico de Goiânia para verificar níveis de contaminação. Além do custo humano, o impacto ambiental foi massivo. No total, foram geradas 13,4 toneladas de rejeitos, incluindo roupas, móveis, terra e até casas inteiras que precisaram ser demolidas e transformadas em lixo radioativo para conter a propagação do césio.

Condenações criminais

Prédio abandonado do IGR (Reprodução/CNEN)

Em 1996, a Justiça Federal condenou cinco pessoas por homicídio culposo — quando não há intenção de matar — e lesão corporal culposa em decorrência do acidente. Entre os condenados estavam os três médicos responsáveis IGR, Orlando Alves Teixeira, Criseide Castro Dourado e Carlos de Figueiredo Bezerril; o físico responsável pela clínica, Flamarion Goulart; e o proprietário do prédio onde funcionava o hospital desativado, Amaurillo Monteiro de Oliveira.

Eles receberam penas de 3 anos e 2 meses de prisão em regime aberto. No entanto, por serem réus primários e devido ao tempo das sentenças, as punições foram convertidas em multas e prestação de serviços à comunidade. Em 1999 a ação penal foi arquivada.

Já em 2000, a Justiça Federal condenou a Comissão Nacional de Energia Nuclear (CNEN) a pagar indenizações e garantir assistência médica vitalícia às vítimas, sob o argumento de que o órgão falhou no dever de fiscalizar o material radioativo após o fechamento da clínica. O Estado de Goiás também foi condenado ao pagamento de indenizações por danos morais e materiais, além da manutenção de uma pensão especial aos afetados.

Apesar das decisões, a luta jurídica continua. Muitas vítimas e seus descendentes ainda buscam reconhecimento como vítimas de segunda ou terceira geração, alegando que problemas de saúde crônicos e mutações genéticas foram ignorados pelo poder público nas décadas seguintes ao desastre.

Principais diferenças da série com os eventos reais

Reprodução/Netflix

A produção da Netflix se esforçou para não usar o nome das vítimas. Celeste é inspirada em Leide, a menina de 6 anos que se tornou o símbolo mundial do acidente. Os personagens do núcleo do ferro-velho foram todos renomeados.

O protagonista interpretado por Johnny Massaro não existiu na vida real. Além disso, o contingente de profissionais de saúde envolvidos na operação foi muito superior ao retratado na série.

Por fim, a produção adotou escolhas estéticas que alteraram alguns elementos. O brilho azul do césio, por exemplo, era mais opaco na realidade do que o efeito intenso impresso na tela.

Leia mais sobre Emergência Radioativa:

Vale ressaltar que todos os episódios de Emergência Radioativa estão disponíveis exclusivamente na Netflix. A série é uma criação de Gustavo Lipsztein (Todo Dia a Mesma Noite com direção geral de Fernando Coimbra (Narcos; Os Enforcados; O Lobo Atrás da Porta).

Ramon Vitor, Editor-Chefe do site, engenheiro civil convertido em jornalista, é um apaixonado por cinema, quadrinhos e pelo poder transformador da comunicação. Com um olhar analítico aprimorado por anos de estudo da indústria cinematográfica, ele mergulha em seus artigos para O Vício desde 2021, transformando sua paixão em conteúdo cativante. Descubra uma perspectiva única sobre o universo do cinema e da TV.


Comentários