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Stephen King é um daqueles autores que praticamente redefiniram o horror moderno. Com 65 romances, mais de 200 contos e 19 roteiros, ele consolidou sua posição como mestre do terror e do suspense. Não é à toa que ganhou o apelido de “rei do terror”.

Todas as histórias de King, de alguma forma, se passam dentro de um multiverso que fãs mais dedicados costumam chamar de “macroverso”. Mas o que exatamente é esse macroverso? Como obras tão diferentes quanto It: A Coisa e Carrie se encaixam dentro dessa estrutura maior? É disso que vamos falar no vídeo de hoje.

O Macroverso

A principal chave para entender o macroverso é A Torre Negra. A série de livros começou em 1982 com o romance O Pistoleiro e hoje conta com oito romances e uma série prelúdio em quadrinhos. Segundo os livros, tudo surgiu do chamado Prim: um vazio caótico e sem limites, de onde tudo emerge. Desse caos, ergue-se Gan, uma entidade divina que nasce das “águas” do Prim, e seis feixes gigantescos despontam de seu umbigo.

Esses feixes são imensos, poderosíssimos e sustentam a própria Torre Negra, que fica no centro de toda a criação. A Torre Negra mantém em equilíbrio o “Mundo Completo” e todos os universos infinitos e realidades alternativas que Gan cria. No último volume da saga, também chamado A Torre Negra, o protagonista Roland Deschain especula que a Torre poderia ser a manifestação física de Gan em si, o que colocaria essa entidade, em qualquer definição prática, como o Deus desse universo.

Maturin vomitando o universo

A Torre Negra pode ser vista no Mundo-Completo sustentada por seis feixes. Cada feixe é protegido por dois Guardiões, somando doze no total. O Guardião tartaruga se chama Maturin, apresentado primeiro no romance It: A Coisa e citado também em Mago e Vidro, de 1997, o quarto livro da série A Torre Negra.

Maturin é retratado como um guardião bondoso, benevolente, compassivo e sábio. Em certo ponto, ele sente uma dor de estômago terrível que não passa até que ele vomita. O que ele “vomita” é justamente o universo principal em que a maior parte das histórias de King acontece. Esse universo é cercado por um vazio, e é justamente sobre esse vazio que nós vamos falar agora.

O Toadash

Só que as coisas ficam mais complicadas quando entra em cena o chamado “espaço toadash”. O toadash é um lugar por onde se viaja quando se salta de um universo para outro – ou seja, o vazio entre mundos. Na série A Torre Negra, “ir de toadash” significa viajar rapidamente entre universos, um tipo de transporte extremamente perigoso.

Atravessar mundos é correr o risco de cair no vazio do Toadash

Se um viajante não completa a travessia de uma realidade para outra, ele termina preso nessa escuridão. É no espaço toadash que nascem quase todos os monstros de Stephen King, criaturas que vagueiam nesse vazio à espera de viajantes descuidados dos quais possam se alimentar. A única forma de escapar do espaço toadash é encontrar uma fissura na realidade, um lugar onde o tecido do universo se desgastou.

O papel de Pennywise

Nós aprendemos ainda mais sobre o macroverso em It: A Coisa, o romance de horror de 1986. A trama se passa na cidade de Derry, no Maine, onde vive uma criatura alienígena com poderes de mudança de forma.

Esse ser acorda a cada 27 anos, se alimenta por um ano inteiro e, em seguida, volta a dormir. Durante seus ciclos de caça, a criatura costuma assumir a forma de Pennywise, o palhaço dançarino.

Pennywise tem bilhões de anos, e sua forma verdadeira é impossível de compreender com a mente humana. Ele vem de uma espécie alienígena chamada “glamours”, cuja principal fonte de sustento é o medo. No entanto, a verdadeira essência do ser que conhecemos como Pennywise são as Luzes da Morte, uma forma de energia sobrenatural que vem diretamente do toadash – ou seja, do lugar de origem da criatura.

As Luzes da Morte, a verdadeira forma de Pennywise

As Luzes da Morte são descritas como um turbilhão de luzes radiantes em tons alaranjados, algo tão intenso que, se uma pessoa olhar diretamente para elas, enlouquece. Essa mesma energia é usada pelo Rei Rubro, que a manipula como se fosse magia na série A Torre Negra. Assim, King conecta a origem de Pennywise, o macroverso e um dos maiores vilões da sua mitologia em um mesmo conceito energético.

Um detalhe importante que os filmes deixam de fora é o papel direto de Maturin na queda de Pennywise. Nos livros, Bill implora para que Maturin intervenha, ajude o grupo e se encarregue de enfrentar a criatura. Maturin, porém, diz que não pode interferir diretamente nessas questões. Ainda assim, ele chama Pennywise de seu “irmão” e, quando percebe que as ações da criatura estão passando de qualquer limite, orienta o Clube dos Otários até o Ritual de Chüd, que é o que finalmente lhes permite confrontar A Coisa de forma definitiva.

As Criaturas do Macroverso

Existem ainda muito mais criaturas perigosas no toadash. Um bom exemplo vem de O Nevoeiro (The Mist), um conto de ficção científica e horror psicológico publicada em 1980. A história fala de uma espécie de invasão alienígena decorrente de um experimento ultrassecreto do governo chamado Projeto Ponta de Flecha.

Nesse projeto, um grupo de cientistas tenta abrir e acessar uma dimensão diferente. O experimento, obviamente, dá muito errado, e criaturas de um novo e desconhecido reino começam a invadir a Terra, começando pela pequena cidade de Bridgton, no Maine.

As criaturas de O Nevoeiro

Para facilitar a caça dessas criaturas, um nevoeiro denso se espalha pela região. Ali dentro, elas usam o cheiro para localizar suas presas.

Leitores mais atentos de Stephen King notaram que a descrição desses monstros lembra muito as criaturas associadas ao espaço toadash. Daí surge a teoria de que o Projeto Ponta de Flecha, na verdade, abriu uma fissura na realidade, conectando o mundo de O Nevoeiro a esse espaço entre universos – e, por extensão, ao próprio toadash.

O macroverso segue se expandindo a cada nova história, e cabe aos fãs conectar os pontos, criar hipóteses e explorar cada canto desse multiverso sombrio, fascinante e cheio de criaturas.

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