Muita gente se engana, achando que foi Frank Miller quem “salvou” o Batman, devolvendo-lhe as trevas que lhe caem tão bem. Na verdade, os pais da “Era das Trevas” dos quadrinhos foram o roteirista Dennis O’Neil e o artista Neal Adams, que ainda na década de 1970 surpreenderam ao inserir em sua série Lanterna Verde/Arqueiro Verde temáticas adultas e assuntos extremamente importantes da época, como racismo e drogas.
E quando esse dois chegaram ao Batman, a reação dos leitores foi imediata: o Cavaleiro das Trevas de outrora estava de volta. Batman voltou a ser um detetive, seu visual com os chifres mais longos desenhados por Adams passou a ser mais demoníaco, e aliado ao roteiro de O’Neil carregava uma arte que deixava a história densa, sombria e gótica como o personagem originalmente havia sido concebido.
“O sucesso do seriado de TV do Batman havia deixado o público mainstream com uma visão hilária dominante do Batman, mas os ajustes simples e eficientes de Adams trouxeram o Ser Noturno de volta, estabelecendo um visual e um tom que reconstruiriam Batman para uma geração.” – Grant Morrison

Foi somente nos anos 80 que um Frank Miller que já havia feito seu nome com o Demolidor na Marvel, ofereceu à DC a ideia de uma história do Batman que deveria ser vendida como formato de luxo para um novo público de quadrinhos que começava a surgir: os colecionadores dispostos a pagar altas quantias para ver a sua subvalorizada mídia tendo destaque ao lado de grandes obras da literatura dentro das livrarias.
Com uma abordagem violenta, adulta e cinematográfica, Miller trouxe ao mundo O Cavaleiro das Trevas (The Dark Knight Returns), uma história que mostrava um Bruce Wayne aposentado há anos, de repente voltando à ativa em uma Gotham que estava afundando cada vez mais sem o seu paladino vingativo.
O ápice da história trazia um confronto há anos esperado: Superman vs Batman. Os dois opostos desde sua criação, digladiando-se pela divergência política com a qual Miller os enxergava. Batman um pragmatista antiestablishment, e Superman como um fantoche do governo.
Miller ainda lideraria a reformulação do Batman quando a DC resolveu limpar a casa após a série Crise nas Infinitas Terras. Aliado ao artista David Mazzucchelli, Miller fez em Batman: Ano Um a origem definitiva do Homem-Morcego. Definindo não apenas a origem, mas também um possível futuro do personagem, Miller deixou estipulada uma caracterização para o Batman que faria com que nunca mais ele fosse tratado como nos anos 60. O Cavaleiro das Trevas estava de volta para ficar.

Essa caracterização do Batman dali em diante apenas ganharia mais força, alimentada por obras como Batman: A Piada Mortal, de Alan Moore e Brian Bolland, e Asilo Arkham, de Grant Morrison e David McKean. A chegada do primeiro filme do personagem por Tim Burton (falaremos mais disso adiante), ajudou a construir sua imagem definitiva no imaginário popular, alimentando sua mitologia com elementos que logo se tornariam intrínsecos ao personagem, como uma Gotham City infernal, sombria, ultra gótica e Art Déco.
Inegavelmente, independente de sua opinião sobre a qualidade dos filmes, Burton é responsável por muito da representação do Batman até hoje, algo que foi potencializado pela aclamada série animada dos anos 90, por Bruce Timm e Paul Dini.
Batman: The Animated Series pegou tudo que os quadrinhos faziam de melhor, juntou com o visual marcante trazido por Burton e embrulhou isso em uma animação impecável com uma narrativa absurdamente envolvente que ao longo de 85 episódios tornaram o personagem ainda mais relevante e foram cruciais para deixar a imagem do Batman dançarino de Adam West no passado.
Nunca mais o Cavaleiro das Trevas seria colorido e motivo de piada novamente, certo? Certo?
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