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Escrever sobre Sandman sempre foi um sonho. E uma responsabilidade. Quando uma obra nos toca de maneira inexplicável, parece impossível transmitir a magnitude daquilo que tanto nos marcou em apenas meras palavras. E é aí que entra em ação o maior trunfo da obra prima de Neil Gaiman: não precisamos explicar Sandman. Não precisamos traduzir ipsis litteris seus metafóricos significados e nem procurar uma literalidade única nos pensamentos existenciais de Morpheus, o Mestre Moldador. Nós apenas sentimos. Nós sonhamos.

Ao ter a ideia de escrita deste artigo, achei que seria mais proveitoso, ao invés de abordar a obra como um todo, falar individualmente sobre cada arco para que, ao final deste especial, consigamos, mesmo que em uma pequena fração, discorrer sobre a complexidade e importância que as 75 edições de Sandman tiveram não apenas no mundo dos quadrinhos, mas também na literatura mundial em si. Comecemos, então, com o arco que deu início à todo universo dos sonhos e da realidade: Prelúdios e Noturnos. Escrito por Gaiman e ilustrado por Sam Kieth, Mike Dringenberg e Malcolm Jones III, o arco engloba as edições de números 1 à 8, publicadas entre janeiro e agosto de 1989 pelo antigo selo Vertigo, da DC.

Antes de adentrarmos na trama principal, é importante pontuar quem – ou o que é – Sandman. Morpheus (um de seus muitos nomes), é o Perpétuo responsável por todos os sonhos de todas as criaturas vivas existentes. Sua existência, como o próprio nome já diz, é perpétua, e teve início quando o primeiro ser foi capaz de sonhar. Governante do Reino dos Sonhos, Morpheus não é um “Deus”, mas sim uma entidade, algo muito além do que nós, humanos, somos capazes de entender. Junto com seus seis irmãos – Morte, Delírio, Desejo, Destruição, Desespero e Destino – os Perpétuos têm como responsabilidade a ordem do universo, cada um representando um aspecto da existência e da realidade, como seus nomes já deixam claro.

Tendo sua aparência principal fortemente inspirada no vocalista da banda The Cure, Robert Smith, o Sonho na verdade pode assumir a forma que quiser: tanto humana, animal ou seja lá o que a sua criatividade permitir. Sempre com um ar melancólico e contemplativo, Gaiman acertou em cheio ao nos apresentar um personagem diferente de tudo que já havíamos visto; afinal, existe algo mais misterioso e único do que os nossos próprios sonhos?

Mas, muito além de uma história sobre entidades sobre-humanas, Sandman é sobre pessoas, sentimentos, esperanças. É sobre os encontros que Morpheus, ao longo de seus incontáveis anos de vida, presenciou, e como eles fizeram com que até mesmo o Sonho amadurecesse; e é sobre a brevidade da vida, sobre como a mudança é necessária e sobre como todos, sem exceção, buscam pela felicidade, mesmo que não a compreendam.

Considerações iniciais feitas, é hora de entrarmos de cabeça na história deste primeiro arco. Tudo começa em 1916, na Inglaterra, onde uma ordem ritualística realiza um culto com a intenção de capturar e aprisionar a Morte. Porém, mesmo empenhados na magia, acabam capturando um Perpétuo diferente daquele que queriam: o encarcerado acaba sendo Morpheus, o Sonho. Este, que além de ficar preso em uma redoma de vidro, teve também todos os itens de poder – um rubi, um elmo e uma algibeira, que falaremos melhor no decorrer deste artigo – furtados pelo grupo de ocultistas. Fraco demais para se libertar e impossibilitado de escapar do mundo mortal, Morpheus permanece 70 anos confinado, e acompanhamos as consequências que a ausência do Senhor dos Sonhos em seus reinos causa no mundo desperto.

Pessoas adormecem e não acordam mais. Outras, são incapazes de pegar no sono e de sonhar. A privação de Morpheus à seus domínios e o terrível efeito que isso causa às pessoas é apenas mais um exemplo da genialidade de Gaiman. Não foi por acaso que o Sonho ficou preso justamente durante as duas grandes guerras mundiais e a guerra do Vietnã. Em uma metáfora muito auto explicativa, o autor literalmente nos remete a tempos em que a esperança (aqui representada pela capacidade de sonhar e até mesmo de conseguir ser capaz de acordar dos próprios pesadelos) era substituída pelo medo (o temor de acabar caindo em sono eterno e ser incapaz de voltar à realidade).

Quando, por um deslize de seus algozes, Morpheus finalmente consegue escapar de seu confinamento, este ainda o faz por meio dos sonhos: ao adentrar a mente de um dos capangas que adormeceu, vaga pelo mundo sonhar e atinge a tão esperada liberdade. Contudo, Sandman ainda continua muito, mas muito fraco. Suas décadas de cárcere lhe custaram muito, sem contar que não está mais na posse de seus influentes itens de poder. Seu reino está desmoronando, em ruínas; alguns de seus moradores – sonhos que o próprio Morpheus criou para serem personagens das mentes adormecidas – simplesmente fugiram, e outros apenas desapareceram.

Agora que está de volta a suas responsabilidades, o Mestre dos Sonhos precisa governar seu reino e reaver sua hegemonia e poder. Para isso, contudo, precisa recuperar seus artefatos que há décadas foram tirados de si: sua algibeira, seu elmo e seu rubi, tendo que viver uma jornada tanto pelo mundo mortal como também pelo inferno. Aqui, não pretendo abordar necessariamente os acontecimentos como um todo, mas sim os principais tópicos referentes à evolução de Morpheus, tanto pessoal como também como um Perpétuo.

Logo após recuperar sua algibeira – que estava com uma antiga namorada de John Constantine – Sonho parte para o próximo destino: os reinos de Lúcifer Estrela da Manhã. Ouso afirmar que esta edição, juntamente com a número 8, são as que melhor conseguem transmitir a essência e a beleza da obra, pelo menos aqui neste primeiro arco. Ao chegar no inferno, Morpheus sabe que não será fácil conseguir de volta aquilo que lhe foi tirado. E é, justamente ao disputar uma das melhores batalhas da história dos quadrinhos, que Sandman nos mostra que os sonhos estão sempre presentes, independentemente de onde você esteja.

A batalha não é física nem violenta, o que de cara surpreende o leitor (afinal, estamos no inferno). Um mero embate físico não teria graça nem para o mais sanguinário dos demônios; mas uma batalha de realidade… essa sim é um desafio a altura. O objetivo é que, a cada rodada, o lance do adversário seja subjugado pela ideia do oponente, esta sempre no campo real. Um lobo medonho que acaba sendo morto por um caçador à cavalo, que por sua vez é derrubado por uma mosca… em uma crescente de criatividade, o demônio sempre segue a linha mortal, usando de suas ideias para literalmente exterminar os pensamentos de seu desafiante. No entanto, Morpheus aborda uma perspectiva, no mínimo, interessante. Enquanto seu rival destrói a vida, o Sonho a gera, e, em sua cartada final, contra um lance praticamente invencível, Morpheus fala: “Eu sou a esperança“.

Mesmo ganhando a batalha, Sonho ainda não ganhou a guerra. Sair ileso dos domínios de Lúcifer não é uma tarefa fácil nem mesmo para um Perpétuo, ainda mais para um Perpétuo que se encontra enfraquecido. Ameaçado de que, mesmo com seu recém recuperado elmo, não teria poder nos reinos infernais, Gaiman nos traz o que eu considero como a máxima de toda a obra. O poder que os sonhos possuem vai muito, mas muito além de qualquer outro: apenas quando sonhamos somos capazes de transpor nossos medos, nossas inseguranças, nossas mazelas. São os sonhos os responsáveis pelo nosso próprio crescimento.

“Indague-se… Na verdade, indaguem-se todos vocês… Que poder o inferno teria se aqueles aqui confinados não fossem capazes de sonhar com o paraíso?”

Já tendo em sua posse a algibeira, o elmo e o rubi – que conseguiu após um embate com o completamente desequilibrado John Dee, na edição mais violenta de todo o arco – entramos em uma edição totalmente diferente das anteriores. Denominada “O Som de Suas Asas“, a história serve como uma espécie de conclusão não apenas da primeira jornada do Senhor dos Sonhos após a sua libertação, mas também da experiência de Neil Gaiman ao escrever a obra.

Sonho está se sentindo… sem propósito. Já que cumpriu sua missão, não consegue enxergar além daquilo que, por décadas, estava tão obstinado a alcançar. Alimentando pombos em uma praça, Morpheus – e nós, leitores – é surpreendido pela visita de sua irmã mais velha, a Morte. Em um diálogo digno de irmãos, somos inseridos em uma conversa rica em ensinamentos que vão muito, mas muito além de um simples encontro de família.

A relação de Sonho e Morte não é uma coincidência. O fato de se entenderem, de serem os mais próximos dentre os Perpétuos não foi um mero artifício de roteiro proposto por Gaiman. A Morte, mesmo sendo a encarregada de levar os seres vivos à outro plano quando chega a sua hora, é tão alegre e feliz que nos faz repensar nosso próprio conceito sobre o fim da vida. Sua chegada é apenas uma parte de toda uma história, de toda uma construção, um momento de milhares que compõe a existência de alguém. Sua vinda, embora temida por muitos, é breve. Suas palavras, proferidas não como um aviso, mas como uma forma de conforto, nos mostram que sua tarefa é apenas mais uma peça de um complexo quebra-cabeças, e que sua vinda não significa exatamente o fim – talvez apenas o fim como o conhecemos-.

E é justamente a Morte quem injeta esperança no Sonho. É a Morte quem faz com que Sonho perceba como a sua própria vida ainda tem um caminho enorme a ser percorrido, e que o cumprimento dessa tarefa foi apenas uma de muitas que virão. Morte e Sonho caminham juntos, afinal, o que seria de nós se não pudéssemos sonhar com a vida?