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Recentemente, todos os fãs foram pegos de surpresa pela bombástica revelação de que Watchmen está agregado ao universo DC. Orquestrado por Geoff Johns, Rebirth veio com a proposta de recuperar uma outra época das HQs, em que o foco era o otimismo, e em que os heróis eram usados para dar esperança às pessoas. 
Sem dúvida é uma proposta ousada, que para alguns pode parecer desnecessária, para outros uma grande heresia, mas no geral a ideia foi muito bem recebida pelos fãs. No entanto, mesmo esses que curtiram a ideia, talvez não tenham percebido o que isso realmente significa, e o quanto a sacada de Geoff Johns foi genial.

Para analisarmos o feito, temos que voltar para os anos 80, onde até então os quadrinhos não eram levados a sério como arte, principalmente os de heróis. Ainda que na época, muitos artistas tenham feito histórias com teor extremamente ácido e crítico, como a dupla Dennis O´Neal e Neal Adams em sua passagem por Lanterna Verde & Arqueiro Verde, em que discutiam temas como a intolerância religiosa, o uso de drogas na adolescência, o abuso sexual infantil, e o racismo em plenos anos 70. Mesmo assim não era o suficiente para que a indústria de quadrinhos fosse levada a sério, algo que se tornava cada vez mais necessário, pois as vendas estavam diminuindo gradativamente. Muitos adultos e jovens tinham uma certa relutância em admitir a paixão pelos gibis, além do fato da maioria das livrarias não venderem quadrinhos por não os considerarem literatura.

Era necessário um grande choque na indústria do entretenimento, e na própria sociedade como um todo, para que houvesse uma mudança de rumo na relação do mercado com os quadrinhos. E foi então que em 1986 a DC decidiu dar carta branca a dois jovens escritores em ascensão, mal sabiam eles, que seriam os responsáveis pela maior reviravolta da história das HQs. Watchmen e Cavaleiro das Trevas não só se tornaram duas das HQs mais vendidas de todos os tempos, como foram extremamente bem recebidas pela crítica literária especializada, mudando para sempre a indústria, e finalmente batizando este nicho da ficção a alcunha de “Nona Arte”, adquirindo respeito do grande público e colocando mais uma vez os super-heróis no topo. A experiência da DC foi tão surpreendente, que os incentivou a criar um novo selo editorial apenas para histórias alternativas, para que os autores tivessem mais liberdade com seus personagens e ideias, a ElseWorlds, que foi responsável por mais tarde nos brindar com clássicos como “Entre a Foice e o Martelo” e “Reino do Amanhã”.

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Porém, nem tudo são flores, e com o sucesso vem a fórmula: tudo que se sobressai na indústria se torna regra, levando assim a banalização e saturação de ideias. Logo, todas as HQs foram dominadas pela violência e temática adulta, tudo isso feito de maneira gratuita, apenas para tentar repetir o sucesso dos antecessores, algo que foi crescendo gradualmente ao longo dos anos, e apesar termos de vez em quando histórias que recuperam o otimismo e esperança dos antigos quadrinhos, são exceções, já que no geral os quadrinhos atuais tem uma tendência em focar na estilização e violência.

Agora chegamos ao que Geoff Johns têm dito com fervor nos últimos meses: não é nisso que os quadrinhos de heróis se baseiam. Não que quadrinhos não possam tratar de temas mais adultos como violência, escatologia e etc, visto que temos selos focados nisso como a Vertigo e até mesmo os títulos da editora Image. No entanto, não é nisso que o gênero está fundado, algo defendido pelos próprios responsáveis por esta conturbação na indústria; Alan Moore por exemplo, diz até hoje que sua intenção nunca foi deturpar a essência dos super-heróis em Watchmen, e a mesma coisa foi criticada por Frank Miller em seu Cavaleiro das Trevas II, onde utiliza a inconsequência dos leitores contra eles mesmos ao produzir uma sátira de sua própria obra.

Geoff Johns acima de tudo, é um expert em super-heróis, provavelmente um dos maiores em ativa atualmente, e em todas suas histórias ele tem como objetivo justamente passar aos leitores o que os heróis de fato significam, e o que eles representam. Se você analisar, nenhuma das HQs de Johns tem o peso de um A Piada Mortal, ou os plot twists da fase do Batman por Scott Snyder por exemplo, são todas extremamente lineares, com estrutura episódica e narrativa simples, sem nenhuma ideia absurda por trás, nada que reinvente os personagens como a fase de Monstro do Pântano por Alan Moore ou o Homem-Animal de Grant Morrison, mas mesmo assim, são fases extremamente cultuadas pelos fãs, elogiadas pela crítica, e que figuram entre os grandes clássicos de cada personagem.

Aquaman, Lanterna Verde, Flash, Superman, Shazam… todos foram marcados por Geoff Johns, e trazem o verdadeiro espírito por trás dos super-heróis, e é isso que está se perdendo cada vez mais na indústria, uma essência mantida por poucos, sendo ele, o mais bem-sucedido de todos. E creio que o próprio Johns saiba disso, e com sua aposentadoria das páginas para salvar o rumo da DC nos cinemas, o pouco da essência que ainda resta, iria acabar. Então, em sua despedida, como forma de dar adeus ao ramo – pelo menos temporariamente – Johns decidiu fazer uma última cartada, para que de uma vez por todas, a indústria compreendesse a verdadeira natureza e fundamento do gênero. E assim surgiu o Rebirth.  A iniciativa nada mais é que uma crítica de Johns a este rumo que foi tomado pelas editoras, onde por mais que a década de 90 seja extremamente criticada por seu foco no estilo e na (pseudo) maturidade, de certa forma, nunca saímos dela. E além disso, é o escritor demonstrando que nunca concordou com o reboot completo idealizado por Dan Didio.

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Pensando nisso, vemos que a participação dos personagens de Watchmen na atual saga não é gratuita, mas sim parte da alegoria, pense, ao colocar o Dr. Manhattan como um potencial antagonista e criador desse universo pessimista e falho, vemos que na verdade, o que está sendo representado ali é o próprio Watchmen, que foi o maior percussor desse existencialismo generalizado que alterou a base prima da nona arte e seu significado. Confesso que inicialmente olhei com muito mal gosto esta ideia de juntar Watchmen à cronologia regular, mas vemos aqui que na verdade trata-se de uma das sacadas mais geniais dos quadrinhos dos últimos anos, e Johns de certa forma está preservando o legado da obra de Alan Moore, fazendo com que o “criador do mal original” se torne o herói salvador dos tempos em que nos encontramos, a obra de Moore foi importante para os anos 80, e mais uma vez veio para abalar a indústria.

Para entender ainda mais a questão do espírito dos quadrinhos, o último vídeo de nosso canal trata justamente disso, confira abaixo:

https://www.youtube.com/watch?v=EdKBBnvzYfQ



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