Comentários

Fazer uma nova IP é sempre difícil, e essa é uma das muitas razões pelas quais franquias e sequências são tão grandes na indústria dos games. Para os desenvolvedores, a perspectiva de criar histórias, mundos, personagens e mecanismos inteiramente novos e, então, realmente trazê-los à vida por meio de um trabalho de desenvolvimento é uma perspectiva assustadora, especialmente quando a alternativa – construir sobre ideias pré-existentes e trabalhar com possíveis sequências – pode ser potencialmente muito mais bem-sucedida, pelo menos do ponto de vista comercial.

Mas muitas vezes, correr o risco de criar uma nova IP pode valer a pena, e é algo que já aconteceu com a Sony mais de uma vez. Na verdade, é algo que acontece com a empresa desde sua entrada na indústria de jogos, mas durante a geração PS4, tem sido particularmente recompensador – começando com o aclamado com Bloodborne, indo para o bem-sucedido Horizon Zero Dawn, continuando com Days Gone, que conquistou sua parcela de fãs, e agora, finalmente, culminando com Ghost of Tsushima.

Ghost of Tsushima, de cara, foi um sucesso sem precedentes para a Sony. Com uma pontuação sólida de 83 no Metacritic e extremamente bem recebido pelos jogadores, está claro que a Sucker Punch alcançou algo que nunca conseguiu em suas tentativas anteriores, com Sly Cooper e inFamous. Comercialmente, o jogo é um sucesso ainda maior. Ele estreou no topo das vendas no Reino Unido e no Japão (onde teve o melhor lançamento de um exclusivo first-party para PS4), enquanto no mundo todo vendeu incríveis 2,4 milhões de unidades em apenas três dias, o que o torna não apenas um dos jogos com melhor desempenho da Sony, mas simplesmente a maior estreia de uma nova propriedade PlayStation de todos os tempos.

Para se ter uma ideia de como esses números são ridiculamente bons, os únicos jogos exclusivos da Sony que tiveram um lançamento melhor do que Ghost of Tsushima nesta geração foram The Last of Us Parte 2, Marvel’s Spider-Man e God of War, o que significa que Ghost of Tsushima está confortavelmente ultrapassando as vendas de outras novas IPs como Horizon Zero Dawn e Days Gone, e até mesmo pesos pesados como Uncharted 4: A Thief’s End.

Se há uma coisa que aprendemos após anos observando e consumindo essa indústria, é que a Sony vai querer transformar a mais nova propriedade da Sucker Punch em uma franquia. Sucesso crítico e comercial neste nível é difícil de obter – o último especialmente – e a Sony vai querer capitalizar esse sucesso. E se eles fizerem isso, existem algumas perguntas interessantes que devem fazer para Sucker Punch. Que direção Ghost of Tsushima poderia tomar em uma sequência?

O caminho mais óbvio seria uma sequência direta, um Ghost of Tsushima 2 que segue diretamente os fios narrativos e personagens retratados no primeiro jogo. E isso, é claro, seria uma coisa inteligente a se fazer. Os esforços iniciais da Sony colocam personagens e história acima de tudo, e Ghost of Tsushima coloca seu cenário ao lado desses dois, então a oportunidade de pegar essa trinca de elementos e desenvolvê-la ainda mais deve, é claro, ser atraente para a empresa. Mas existem outras coisas muito mais interessantes que eles podem fazer com esta série.

Porque a maior força do Ghost of Tsushima não é sua história, ou qualquer personagem único, ou mesmo a ilha de Tsushima. A maior força do jogo é sua filosofia, a linha central de condução com a qual a Sucker Punch se compromete de forma tão completa que cada centímetro de cada aspecto do jogo funciona a serviço de dar vida a isso. Essa ideia é aquela que aspira a mergulhar os jogadores no mundo do samurais, que homenageia os conceitos romantizados desses guerreiros lendários, e Ghost of Tsushima trabalha sem parar para trazer essa ideia à vida. E a Sucker Punch tem uma grande oportunidade de pegar ainda mais ideias, ramificar e olhar para outros conceitos, e trazê-los à vida em histórias completamente novas, com personagens completamente novos.

No papel, isso pode soar muito como Assassin’s Creed – e não seria a primeira vez que Ghost of Tsushima é comparado à franquia da Ubisoft. Os jogos de Assassin’s Creed sempre têm um novo conjunto de personagens, um novo cenário e uma nova história (com exceção da trilogia Ezio), com cada nova parcela procurando trazer uma era completamente nova da história à vida, e a ideia de uma antologia da série Ghost soa semelhante.

Durante o desenvolvimento, o jogo que mais inspirou Sucker Punch foi Red Dead Redemption, devido à eficácia com que trouxe à vida a fantasia de ser um fora-da-lei no velho oeste americano e como a Sucker Punch queria fazer um jogo que fizesse a mesma coisa para os samurais. Talvez com seu próximo jogo, eles pudessem avançar algumas centenas de anos e fazer algo sobre ninjas.

Porém, existe um perigo nessa decisão, que reflete algo que citei no início. Cada novo jogo em uma série de antologia seria efetivamente uma nova IP – novas mecânicas, novo mundo, nova história, novos personagens. Isso não é uma coisa fácil de se trabalhar, e seria uma perspectiva assustadora para qualquer desenvolvedor do setor. Mas dada a eficácia com que Ghost of Tsushima mergulha seus jogadores em seu ambiente e mundo samurai, talvez não seja tão complicado assim conjecturar um formato antologia.

Murilo Oliveira, também conhecido como Muriloverso, é jornalista e redator-chefe do site O Vício. Comandando o canal homônimo no YouTube, ele compartilha sua paixão por cultura pop, trazendo análises, curiosidades e conteúdo geek com uma abordagem única e carismática.

Veja também:


Comentários