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Guitar Hero – Começo e fim


Com o recente anúncio da Activision da descontinuação da série musical Guitar Hero, muito tem se comentado sobre a decisão da produtora, que vai deixar milhões de jogadores órfãos da mega franquia que fez marmanjos se ajoelharem no tapete da sala metralhando suas guitarras de plástico. Vamos recapitular a história desse fantástico game que fez a alegria dos fãs de rock por mais de meia década.

Para quem não conhece ou nunca jogou (?!), Guitar Hero é um jogo musical onde o jogador tem que executar sequências de botões (notas) que aparecem na tela, seguindo o tempo e ritmo da música, e assim reproduzindo a melodia. O game acompanha um controle em forma de guitarra, que conta com botões coloridos no braço de plástico, que devem ser apertados na ordem e tempo indicados pela pista do jogo. O game também pode ser jogado com o joystick do console (apenas nas primeiras versões), o que tira significantemente a imersão proposta pelo jogo. O game conta com modos de jogo básicos: um single player, onde o ”guitarrista” deve terminar músicas ordenadas por dificuldade; um multi player, que pode ser jogado por mais de um jogador; e modos de jogo rápido e treinamento.

A primeira versão foi lançada em 2005, exclusivamente para Playstation 2 e, a princípio, foi vista com desconfiança pelos jogadores, principalmente os amantes do rock. O jogo contava com cerca de 30 músicas de artistas diferentes, em versões (muitas vezes bizarras) regravadas por bandas contratadas pela produtora, e algumas faixas bônus, desbloqueadas conforme o avanço na campanha (Carreira). Um fator que dificultou a popularização da primeira versão do jogo por aqui foram os altos custos. Na época um kit do jogo com o controle guitarra custava uma fortuna, logo os jogadores (somente verdadeiros amantes do rock internacional) optavam por jogar versões ”alternativas”, usando o DualShock do Playstation 2, o que diminuía bastante a diversão proporcionada.

No ano seguinte foi lançada a já aguardada continuação do game musical, que viria a se tornar um fenômeno em poucos meses, e mais do que um jogo, um ícone da cultura pop. Guitar Hero 2 veio ao mundo em novembro de 2006, e conta com uma quantidade de faixas significantemente maior que do seu antecessor, além de grandes sucessos do rock, como o (já quase insuportável) hit, Sweet Child O’ Mine, da banda californiana Guns n’ Roses e a genial YYZ da virtuosa banda Rush. O jogo traz um modo cooperativo, onde dois jogadores podem iniciar uma campanha juntos, tocando as partes de guitarra e baixo dos sucessos do jogo. A mudança gráfica foi leve, mas bem vinda, tornando tudo mais fluído. O jogo ganhou em 2007 uma versão para Xbox 360, que traz algumas faixas adicionais em versões originais (master rec) de bandas como My Chemical Romance e Toadies. O jogo é tido até hoje como um dos melhores já lançados.

No meio tempo entre o segundo e terceiro jogo da franquia foi lançada uma ”expansão” baseada no motor de Guitar Hero 2, nomeada Guitar Hero Encore: Rocks The 80’s, que como o nome sugere, apresenta faixas dos literalmente brilhantes anos 80, e dispõe de músicas de bandas renomadas como Twisted Sisters, Dio, The Police e Scorpions. Esse foi infelizmente o ultimo jogo produzido em parceria com a Harmonix.

Nesse ponto já eram lançados bonecos que reproduziam os personagens do game e pipocavam comunidades e fóruns do Guitar Hero. Hackers começavam a editar o jogo, lançando versões modificadas, com músicas não disponíveis nas versões oficiais. Bandas que se negaram a participar das primeiras versões, agora aceitavam de bom grado as propostas. Já eram anunciadas versões para consoles portáteis, como o Nintendo DS. Guitar Hero atingiu o seu ápice e o status de intocável no mundo dos games.

Rigorosamente, em 2007 foi anunciada a terceira versão do já idolatrado jogo. Guitar Hero 3 veio como super produção, lançado para Playstation 2, Xbox 360, Nintendo Wii e PC’s. Com a saída da produtora principal, Harmonix, o jogo agora estava nas mãos da NeverSoft, da série Tony Hawk. Foi aí que o problema começou. A Harmonix se juntou a EA Games para a produção de um concorrente a altura, e assim foi anunciado o ”inovador” Rock Band.

Guitar Hero 3 trouxe muitas inovações para a franquia, como a adição de chefes, alguns deles figuras reais do mundo do rock, como o talentoso guitarrista das bandas Rage Against the Machine e Audioslave, Tom Morello e um dos ícones da ultima década, Slash do Guns n’ Roses. O jogo conta com suporte para download de músicas, que são compradas pelas redes dos consoles da geração atual (Live, PSN). As atualizações de gráficos e jogabilidade foram substanciais nessa versão, e dividiram a opinião dos jogadores. Essa é sem dúvidas a versão mais difícil de Guitar Hero.

Mais uma vez, a Activision não perdeu a chance de ganhar alguns ”trocados”, e aproveitou o meio tempo entre os ”carros-chefe” da franquia para lançar uma versão dedicada ao Aerosmith, banda formada em Boston nos anos 70, que conta com fora de série Joe Perry. Guitar Hero: Aerosmith traz personagens estilizados, idênticos aos músicos, e os grandes sucessos da lendária banda, junto de faixas de bandas que influenciaram e foram influenciados por Steven Tyler e o seu bando.

No ano em que atingiu o auge, Guitar Hero recebeu o mais duro golpe em sua existência, a chegada de o seu maior (e único até então) concorrente, o premiado Rock Band, da Eletronic Arts. O novo jogo contava com sistema refinado, e totalmente baseado no de Guitar Hero, possibilidade de customização dos personagens usados no game, lista de faixas de primeira, e a melhor (pior) parte, a adição de todos os outros instrumentos ”comuns” em bandas de rock, a bateria e os vocais. O kit completo do jogo acompanhava alem do game, uma guitarra (que pode ser usada como baixo), um microfone, e a tão aguardada bateria, sonho dos jogadores hardcore.

O sucesso do game foi tanto, que Guitar Hero 3 foi ”quase” ofuscado. A Activision bem que tentou, mas não resistiu à pressão dos fãs mais xiitas, e agendou o lançamento de Guitar Hero World Tour, que trazia como principal novidade a adição da bateria e microfone, e a criação de personagens, modos ”emprestados” de seu primo mais novo.

Guitar Hero World Tour apresenta 84 músicas que passam por todas as vertentes possíveis do rock, desde o até então popular gênero emo, até o mais pesado e sombrio heavy metal. A novidade em relação ao gênero foi a implantação do sistema de criação de músicas.

Tudo muito bom, tudo muito bonito, mas quer saber? Não deu certo… O sistema do microfone parece ter sido feito às pressas, e não consegue responder com precisão; a bateria, apesar de mais moderna, terminou não funcionando muito bem; a criação de personagens deu um ar genérico ao jogo; os gráficos ficaram ligeiramente achatados. Mesmo com a participação de superstars como Ozzy Ousborne, Jimi Hendrix, Zakk Wylde, Travis Barker, Sting e até a ruiva vocalista da banda Paramore, Hayley Williams, o jogo não demonstrou metade do brilho de seus antecessores. E assim, pela primeira vez, a Activision e a NeverSoft erraram FEIO. A versão para Playstation 2 já apresentava acentuados sinais da velhice do console, que dispõe de uma versão bastante modesta, se comparada as dos robustos Playstation 3 e Xbox 360.

Depois dessa versão, veio a queda. Com o gritante crescimento de Rock Band, que lançou versões dedicadas a bandas como The Beatles e Green Day, Guitar Hero foi ficando para trás. O desespero da Activision foi ficando cada vez mais claro, na medida que jogos mal acabados eram lançados aos montes. Um ótimo exemplo disso foi o ano de 2009, que teve nada menos do que quatro lançamentos, todos amontoados entre os meses. Os jogos foram Guitar Hero: Metallica, que é uma versão com faixas da idolatrada banda de trash metal; Guitar Hero: Smash Hits, que traz uma coletânea com as melhores músicas das versões anteriores, mas agora podendo ser tocadas em todos os instrumentos, e em faixas originais das bandas; Guitar Hero: Van Halen, um dos piores da franquia, ”homenageando” a banda norte-americana; e, por fim, o principal lançamento do ano, Guitar Hero 5, que trouxe como inovação o modo Party Play, que permite a entrada, saída, mudança de instrumentos e dificuldade no meio da música, sem a necessidade de voltar ao menu principal do jogo. O jogo dispõe de pouco mais de 80 músicas, e figuras famosas como o finado guitarrista e vocalista do Nirvana, Kurt Cobain.

Não que todos tenham sido um desastre total, mas a produtora pecou pelo exagero, e explorou demais a fama da franquia, lançando jogos que, além de caros por contar sempre com acessórios, não atingiam a qualidade de seus antecessores. Muitas versões terminaram encalhadas nas lojas, e os jogadores começaram a pressionar os desenvolvedores por alguma inovação.

Um dos grandes ”erros” da série foi tirar o foco das linhas de guitarra. Com a adição de vários instrumentos, músicas cada vez mais variadas foram selecionadas, o que tornou tudo mais morno e casual, coisa que irritou profundamente os jogadores hardcore da franquia, que queriam novamente canções do calibre de Beast and the Harlot do grupo de metalcore Avenged Sevenfold, e Through the Fire and Flames, a quase-impossível musica da banda Dragonforce. A Activision e a NeverSoft ouviram os jogadores, e decidiram escolher uma setlist mais baseada no rock n’ roll, com mais foco nas guitarras.

Depois de muita promessa finalmente foi lançado Guitar Hero: Warriors of Rock, mas infelizmente o jogo não foi bem recebido pela crítica especializada, e muito menos pelos jogadores. E eles bem que tentaram, mais nada conseguiu trazer a sensação de ”novidade” dos três primeiros títulos. O jogo também não apresentou nada significantemente novo, e terminou não vendendo bem, inclusive, muito longe do esperado.

Assim se seguiram meses de silêncio, até o anúncio, a bomba. A Activision anuncia a descontinuação da série Guitar Hero, devido aos custos de licenciamento de músicas, e as baixas vendas nas últimas versões. A notícia repercutiu em sites, fóruns e comunidades, e causou tristeza e revolta nos antigos jogadores.

Guitar Hero sem dúvidas vai fazer falta no mundo dos games. Foi triste ver uma série com enorme potencial começar tão bem, e terminar tão cedo, por motivos que poderiam ter sido evitados com tanta facilidade.

Fica a esperança de que um dia Guitar Hero volte com força total, e que todos nós possamos tirar as guitarras de plástico do armário e brincar de rockstar mais uma vez.



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