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Hoje não é dia dos namorados. Na verdade, hoje é o nosso primeiro aniversário. Porém, mesmo que fosse apenas mais um dia ao teu lado, Peter me mostrou que não precisamos de um momento específico para dizer o quanto amamos alguém, ou de uma justificativa para sentir aquilo que sentimos. Assim como essa história é dedicada a seu grande amor, Gwen Stacy, dedico este texto ao meu.

Em 1973, ninguém esperava que a namorada de um dos heróis mais queridos da Marvel simplesmente fosse morta. Surpreendendo a todos, a edição #121 de The Amazing Spider-Man trouxe uma das cenas mais marcantes e que certamente ficou na cabeça de todo leitor de quadrinhos: a morte de Gwen Stacy. Ao nos colocar um falecimento definitivo, a Marvel conseguiu, de certa forma, pôr um “fim” na ingenuidade que as HQ’s de super heróis continham. Desolado pela perda de sua amada, Peter Parker precisou juntar todas as suas forças para se reerguer e, posteriormente, se permitir amar novamente.

Porém, em 2002, a consagrada dupla Jeph Loeb (argumento) e Tim Sale (ilustração), nos presenteou com uma das histórias mais sensíveis e emocionantes que o teioso já teve – e, na minha opinião, a melhor -. Fazendo parte da quadrilogia das cores da Marvel, “Homem-Aranha: Azul” conta com 6 edições e foi publicada aqui no Brasil em formato de encadernado tanto pela Salvat como pela Panini.

Posso começar dizendo que escrever este artigo foi uma tarefa difícil. Além da responsabilidade que é escrever sobre algo tão bonito e singelo, é ainda mais difícil colocar nossos próprios sentimentos em palavras. Assim como Peter quando decide pegar um antigo gravador para deixar mensagens para Gwen, me peguei muitas vezes tentando achar a definição correta do que eu mesma sentia. “Azul” é uma história de amor, e eu definitivamente só poderia escrever este texto estando apaixonada – assim como Peter -.

Nossa trama tem início em um dia dos namorados. Essa data, contudo, acaba tendo um peso diferente para Parker. Em uma tentativa de aliviar a dor que sente e de se expressar, mesmo que apenas para si mesmo, o rapaz decide pegar um antigo gravador e contar a história de como ele e Gwen se conheceram e se apaixonaram. Ao fazê-lo gravar as mensagens para sua antiga amada, Loeb consegue nos inserir de forma orgânica na narrativa e, juntamente com o heroi, (re)vivemos momentos que entrelaçaram o destino dos dois amantes.

Nosso primeiro flashback é de uma luta do Aranha com seu arqui-inimigo: o Duende Verde. Após vencer o vilão, este simplesmente se esquece de seu alter ego maligno e apenas se reconhece como sendo Norman Osborne. Mesmo podendo escolher deixar o homem morrer nos destroços da luta, Peter o resgata e busca por ajuda. E é, justamente ao visitar Norman no hospital que nosso herói tem a primeira troca de olhares com a garota que roubaria o seu coração para sempre.

Nosso narrador – e também protagonista – cumpre com maestria a função de nos inserir até mesmo em seus mais profundos sentimentos. Suas inseguranças e medos, seus anseios e sonhos, tudo nos é passado da forma mais sincera possível. Conciliar a vida de Homem-Aranha com a rotina de Peter Parker obviamente não é uma tarefa fácil, e conseguimos acompanhar as manobras que o herói tem de fazer para que sua identidade secreta seja mantida e que sua vida civil seja preservada. É válido dizer que “Azul” consegue fazer uma uma breve retrospectiva por pontos cruciais da juventude do cabeça de teia, traçando magnificamente bem os acontecimentos de sua vida de vigilante com o início de seu romance com Gwen.

No decorrer da trama, somos apresentados também a outros clássicos vilões das histórias do Aranha: Rino, Abutre, Lagarto e até mesmo Kraven – o Caçador. Mesmo sendo um excelente combatente do crime, Peter Parker definitivamente ainda está aprendendo a lidar com o amor. Ao enfrentar vilões que destroem cidades, sequestram pessoas e roubam bancos, o Aranha é um exímio lutador; mas ao lidar com Gwen… o rapaz fica completamente desarmado. Sua admiração pela garota é definitivamente correspondida, mas não julgamos o temor de Peter: sabemos como pode ser difícil para duas pessoas que se gostam criar a coragem necessária para tomar uma atitude.

A evolução da convivência dos dois, que passou de uma simples troca de olhares até a permanência em um mesmo grupo de amigos, é construída de maneira eximia. Vemos como Peter lamenta não ter todo o tempo que gostaria para passar com a garota, ao passo que se esforça – e muito – para conseguir dar conta de todas as tarefas que ocupam suas curtas 24 horas do dia. Apesar dos pesares, é em uma noite que, após Peter voltar de uma luta contra Kraven, que os jovens dão o passo mais importante em sua relação: Gwen o pede em namoro.

Quando amamos alguém, geralmente não pensamos especificamente em um momento de início. Digo, mesmo que a paixão se inicie em determinado instante, o amor é uma construção… uma construção de momentos, de conversas, de entregas. Quando uma história de amor desperta, o sentimento que carregamos conosco começa a ficar ainda mais difícil de se traduzir em meras palavras, e ainda mais difícil de ser colocado em uma linha do tempo. Buscamos – sem êxito – materializar algo que jamais poderá sair do campo das ideias (e da alma). Mesmo que o relacionamento dos dois não tenha durado para sempre, Peter e Gwen se amaram, se amaram muito; e é isso que importa para o herói. O tempo que passaram juntos, pouco importa se breve ou longo, sempre se manterá eternizado em seu coração.

E, parafraseando a última frase desta história… obrigada por me mostrar que a vida pode ser maravilhosa.