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Agora que Jessica Jones já chegou ao Netflix, é um bom momento para revisitar seu material de inspiração:


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Alias é uma revista publicada entre 2001 e 2004, escrita por Brian Michael Bendis e desenhada por Michael Gaydos. Ela narra as desventuras de Jessica Jones, uma ex-super-heroína de passado turbulento que abandonou o collant e se tornou investigadora particular. Alcoolatra e instável, Jessica resolve alguns dos casos mais peculiares do Universo Marvel. Parece familiar, certo?

Mas, apesar de ter basicamente a mesma premissa, Jessica Jones também não é uma adaptação literal de Alias. Elas são inclusive bem diferentes. E Isso é normal, afinal, a maioria das adaptações de quadrinhos para a TV e para cinema geralmente tem décadas de material para se inspirar e costumam selecionar dali alguns apenas elementos para amarrar em uma trama sucinta e coesa. Mas nesse caso, Alias é uma série de apenas 28 edições com um estilo narrativo inspirado em séries de TV como The Wire então a tentação de comparar HQ e série é grande demais.

Eu não pretendo destrinchar cada detalhe da trama de nenhuma das duas, mas ainda assim haverá alguns spoilers.

No que se trata da própria Jessica, sua personalidade é essencialmente a mesma em ambas as mídias. As diferenças são sutilezas nas sensibilidades de cada autor com a Jessica da série mais próxima do arquétipo de detetive hardboiled, enquanto eu acho a Jessica de Bendis um pouco mais humana e cheia de idiossincrasias (sua especialidade como roteirista).

Talvez a mudança mais importante na premissa é que a Jessica da série nunca foi efetivamente uma super-heroína. Enquanto em Alias, ela de fato assumiu a identidade de Safira por um tempo, junto com o uniforme collant e todas as outras convenções de super-herói, na série ela apenas vagamente decide ajudar pessoas, mas não é claro o quanto ela chega a atuar como vigilante.

O que é uma pena, uma vez que seu status de ex-super-heroína também é utilizado de forma muito interessante:

Jessica é uma semi-celebridade que caiu na obscuridade, meio que uma ex-BBB, vagamente reconhecível pelos mais interessados no assunto e tem uma foto sua junto aos Vingadores em seu escritório.

quadro

O que nos leva a talvez a característica mais importante da HQ:

Ela se passa no Universo Marvel.

Alias é como uma mistura de Marvels, de Kurt Busiek, e Powers, do próprio Bendis, na qual Universo 616 é visto de uma perspectiva marginalizada, com Jessica como uma uma observadora pouco convencional que transita pelo lado desagradável de lugares e personagens já estabelecidos.

Isso causa algumas dificuldades para a série de TV. Alias foi publicada com o Universo Marvel já amplo e estabelecido há décadas. O cinema e TV tem como contraparte o MCU. O problema é que ele só existe desde 2008 e, mesmo com um progresso impressionante para tão pouco tempo, ainda não é nem de longe tão rico quanto a sua versão dos quadrinhos. Como resultado, enquanto Alias é toda sobre a organicidade do Universo Marvel, Jessica Jones se mantém a referências sutis. O fato que ela se passa no mesmo universo que os Vingadores é um detalhe menor. A cena em que Jessica confronta um casal revoltado com super-heróis e que a culpa pela destruição que tem ocorrido é talvez a mais próxima do espírito da HQ.

Outro ponto superior de Alias é que ela não tem não tem vergonha dos elementos típicos de super-heróis. Inclusive, a HQ os abraça e os usa deliberadamente para contrastar com o realismo policial pesado.

Por exemplo, em um flashback dos tempos dos tempos de Jessica como Safira, o estilo do quadrinho muda para emular a prosa divertida e engraçadinha de Stan Lee e as outras revistas da Marvel nos anos 60 (incluindo os trocadilhos infames nos créditos). Quando Jessica cai abruptamente sob o controle de Killgrave, toda essa inocência da Era de Prata é quebrada.

safira flashback

Em contrapartida, se as conexões da HQ com o universo Marvel são muito inteligentes, a série é bem mais acessível para aqueles que já não são fanáticos por quadrinhos.

No geral, Jessica Jones tem um elenco fixo maior e mais estável e, com quase doze horas de série para gastar, todos eles são bem desenvolvidos. Os personagens coadjuvantes de Alias aparecem de forma bem mais esporádica. Até o próprio Luke Cage não é tão presente tanto quanto se esperaria.

malcolm

Malcolm, um dos poucos personagens recorrentes originais de Alias, tem apenas o nome em comum na sua contraparte da TV. Na série, ele é um viciado em drogas, ex-assistente social e perdido na vida na vida, mas que desesperadamente quer fazer a coisa certa. Na HQ, ele é um nerd de uns dezessete anos fissurado em super-heróis e que cola na Jessica querendo virar seu estagiário. Ambos os personagens são ótimos, no entanto, e depende da opinião pessoal qual é o melhor.

Trish Walker nos quadrinhos é a personagem Felina. Na série não há nenhuma indicação concreta da personagem seguir esse caminho e, mais importante, ela é a irmã adotiva e melhor amiga de Jessica. Não há nenhuma menção à Trish em Alias, Jessica é adotada por uma família qualquer e a personagem que serve a função de melhor amiga é ninguém menos que Carol Denvers, a Miss Marvel (e atual Capitã Marvel)!

trish carol

Ótimas adições como Jeri Hogarth (originalmente um homem e relacionado ao universo do Punho de Ferro) e Frank Simpson (já sendo estabelecido como o Bazuca, com sorte, para aparecer numa futura temporada de Demolidor) também ajudam a tornar o elenco mais robusto.

Os personagens da série também parecem ter mais propósito para a narrativa. Todos os diálogos entre Jessica e Malcolm na HQ são hilários e bem escritos, mas no final, sua importância para o avanço da trama é quase nula.

Durante a HQ, o relacionamento de Jessica com Luke Cage é instável, assim como na série, mas quem ela também namora por boa parte das 28 edições é Scott Lang, que o cinema recentemente conheceu como o Homem-Formiga.

Como ele já foi propriamente introduzido no MCU esse ano, é tentador imaginá-lo como parte da série, mas a verdade é que isso é um caso perdido:

Mesmo se que a série fosse capaz de convencer Paul Rudd a reprisar seu papel, duvido muito que a Disney gostaria de ver a estrela de seu divertido filme família em uma série adulta e de conteúdo pra lá de inapropriado para os filmes da Marvel. É a natureza mais nichada dos quadrinhos que permite que personagens considerados mais leves também possam aparecer tranquilamente em séries adultas do selo Marvel Max e ainda sem depender da disponibilidade ou cachê de nenhum ator famoso.

Um personagem recorrente na HQ muito mais acessível é Matt Murdock, que contrata Jessica e Luke como guarda-costas quando sua identidade de Demolidor é exposta (a HQ foi publicada simultaneamente a run de Bendis do Demolidor). Apesar de eu achar um disperdício Charlie Cox não ter aparecido em nenhum momento, ainda mais com a necessidade de Jessica em achar um advogado de defesa de maior confiança, é de se esperar que a Netflix esteja poupando o inevitável encontro entre os dois para o futuro, talvez para a série dos Defensores.

murdock

Pode se dividir a run de Alias em seis arcos diferentes com uma média de cinco edições cada um e que se encaixariam perfeitamente em um episódio de 45 minutos (caso fosse possível). Entretanto, pode se dizer que a série é mais uma adaptação dos dois últimos arcos, “A Origem Secreta de Jessica Jones”, cuja premissa é autoexplicativa, e “Púrpura”, que finalmente traz à tona o passado da protagonista com Zebediah Killgrave, assim como o seu retorno.

Pois é, o confronto contra Kilgrave, a trama principal de todos os treze episódios da série, tem como contraparte apenas as cinco derradeiras edições da HQ.

Por um lado, eu sinto falta da estrutura do procedural e como isso permite explorar diversos elementos do Universo Marvel. Ainda mais quando a trama de Kilgrave acaba dando algumas voltas a mais que o necessário para poder cubrir todos os episódios.

Um arco envolve o sidekick de quase todo mundo na Marvel, Rick Jones, outro, uma cidade pequena e conservadora com preconceito contra mutantes e outro, uma conspiração contra o Capitão América.

Mas é claro, como previamente mencionado, isso não seria possível para a série. O MCU ignorou Rick Jones solenemente, contractualmente não se pode nem pensar em mutantes e o Capitão América está lá, mas cai no mesmo problema de Scott Lang.

Mas por outro lado, expandir a plotline com o Homem-Púrpura definitivamente foi uma decisão acertada. Essa é talvez a parte mais interessante da HQ, tocando no lado mais pessoal de Jessica e com vilão mais ameaçador, mas se encerra rápido demais e ainda graças a um deus ex machina, cortesia de Jean Grey.

A série enfatiza a dinâmica entre os dois como uma semi-metáfora para relacionamentos abusivos, um assunto extremamente difícil e que tem ganhado cada vez mais espaço, e que a série lida de forma excelente.

O Killgrave dos quadrinhos não tem a obsessão pela Jessica que o Kilgrave da série tem. Ele é um antigo vilão que existe desde 1964, está muito mais preocupado com outros heróis como o Demolidor e mantém Jessica por perto mais pela diversão doentia.

Da mesma forma, mesmo que o abuso físico, psicológico e emocional ainda seja parte de Alias, a HQ deixa bem claro que Killgrave nunca se aproveitou sexualmente de Jessica. Me parece compreensível que Bendis quisesse evitar tratar de um tópico tão delicado quanto o estupro de forma desnecessária, ainda mais visto que, poucos meses depois, quadrinhos como Crise de Identidade seriam criticados pelo uso leviano do tema.

Mas a série consegue, com muita sobriedade, bater de frente com o assunto de forma madura. Não há meias palavras, Jessica explicitamente fala a Killgrave que ele a estuprou e a série merece crédito pela a ousadia e fineza com que lida o tema.

Ademais, ele nunca é chamado de Homem-Púrpura, mas a série também faz um ponto que Kilgrave já é um nome ridículo o suficiente. E é claro, ele também não é roxo, o que é uma pena, considerando que essa é uma das características típicas de super-vilão que Alias sabe brincar tão bem, contrastando com tom realista. Mas dá pra entender que, para os propósitos da série, ele não seria tão simples de ficar no anonimato se parecesse a versão maligna do Barney, o dinossauro.

Mas para dar crédito ao Killgrave de Alias, eis uma das coisas mais interessantes que ele faz apenas na HQ:

Ele quebra a quarta parede.

quarta parede

Como uma versão assustadora do Deadpool, ele parece estar ciente de seu status como super-vilão e fala abertamente sobre os clichês do gênero e até sobre a diagramação dos quadros. É claro, uma série de TV não é uma história em quadrinhos, mas bem que ela poderia ter incorporado algumas das sacadas metalinguísticas da HQ.

E finalmente, por mais que isso pareça meio juvenil, faz um pouco falta os palavrões na série. A HQ transforma o linguajar em uma forma de arte desde o seu primeiro quadro e até mesmo estabelece a boca suja de Jessica como um traço chave de sua personalidade. Sem falar que sempre soa um pouco forçado vê-la gritando goddamnit quando um fuck seria muito mais natural.

fuck

Mas afinal, qual das duas é melhor?

Nenhuma! Por mais clichê que essa conclusão pareça, não vejo muito sentido em hierarquizar as duas. Elas tem premissa e tons parecidos, mas seguem caminhos distintos:

Alias é melhor em ser uma quase desconstrução da ficção de detetive misturada com a tradição de quadrinhos de super-heróis e muita metalinguagem.

Jessica Jones é melhor em ser um thriller tenso, casualmente relacionado a super-heróis, e que consegue abordar temas polêmicos com habilidade.

Alias provavelmente é mais esperta e Jessica Jones provavelmente é mais satifatória. Você tem algum motivo para não ler e assistir os dois?



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