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Recentemente, a Comic Con Experience (CCXP) 2023 teve a ilustre presença de Junji Ito, o mangaká conhecido mundialmente como o mestre do terror. Essa foi a sua primeira visita ao Brasil, onde recebeu uma recepção calorosa de vários fãs no painel da editora Pipoca e Nanquim, que é responsável por publicar suas obras de terror por aqui.

Por 35 anos, ele dominou a arte dos mangás contemporâneos de terror, e continua sendo até hoje a maior influência japonesa do gênero. Obras como Uzumaki e Tomie mostraram ao mundo inteiro que os mangás japoneses também se destacam pelo gênero de horror, além das histórias de ação e luta vistas em shonen.

Veja neste artigo a trajetória de Junji Ito e como ele se tornou o mestre que é hoje.

De dentista a mangaká

Trecho de página de Contos Esmagadores (Reprodução/Pipoca & Nanquim)

Nascido em 31 de julho de 1963, na província de Gifu, Junji Ito ficou fascinado por contos de terror entre os seus 4 a 5 anos de idade. A introdução desse mundo veio por meio de suas irmãs, que acompanhavam os mangás de Kazuo Umezu e Shinichi Koga, dois autores japoneses que também são idolatrados pelos seus mangás de terror.

Em suas entrevistas, Ito já mencionou que, depois de se inspirar, começou a utilizar lápis, papel e até mesmo o verso dos anúncios para desenhar seus primeiros rascunhos de mangá. Sua cidade natal, próxima a Nagano, tornou-se uma fonte de inspiração por ter ruas estreitas, labirínticas e prédios assustadores, algo que é bem destacado em seus cenários de mangá.

Apesar de seu interesse precoce pelo terror, o primeiro trabalho de Ito não foi nas páginas de mangás, mas sim na odontologia. Sob a influência de conselhos familiares, ele começou a trabalhar como dentista, mas sua paixão pela arte o fez reconsiderar sua trajetória profissional.

Enquanto trabalhava como dentista, ele tomou como meta lançar sua primeira história autoral para concorrer ao Prêmio Kazuo Umezu. Em 1987, sua carreira começou com o lançamento de Tomie. Quando seu mangá ganhou uma menção honrosa na premiação em 1988, ele ficou ainda mais empolgado em seguir com as suas histórias.

Tomie conseguiu fazer um grande sucesso no Japão, e o autor criou vários contos sobre esse mangá durante 13 anos. O mangá apresenta Tomie Kawakami, uma garota que encanta todos os homens com sua beleza até enlouquecê-los com uma vontade inexplicável de assassiná-la. Não importa quantas vezes ela morra, Tomie sempre ressurge, criando um ciclo perturbador de amor e assassinato.

Quando foi questionado sobre sua inspiração para Tomie, Ito declarou que sua inspiração veio de um colega do ensino médio que faleceu ainda jovem. Ele diz: “Eu tive uma estranha sensação de que ele iria aparecer inocentemente alguma hora. Desde então, eu quis dar expressão a esse sentimento no meu mangá. Foi assim que tive a ideia de uma garota que deveria ter morrido, mas depois aparece como se nada tivesse acontecido.”

Além disso, ele também se inspira em autores e diretores ocidentais, como Mary Shelly, H. P. Lovecraft, Dario Argento e William Friedkin. Ele até fez uma adaptação de mangá de Frankenstein, de Mary Shelley, que recebeu o Prêmio Eisner em 2019.

Ao longo de sua carreira, suas obras ganharam diversas adaptações em live-action e algumas em anime. Gyo Ugomeku Bukimi foi seu primeiro mangá adaptado em anime, produzido pela Ufotable em um OVA de 2012.

Alguns anos depois, o Studio Deen produziu Junji Ito Collection e Junji Ito: Histórias Macabras do Japão (Netflix), dois animes dedicados a adaptar alguns dos contos mais famosos do mangaká em uma animação. O mangá Uzumaki também ganhará um anime, produzido pelo Studio Drive em parceria com o Adult Swim.

No entanto, o anime Uzumaki continua sendo adiado ano após ano pelos produtores, então não há nenhuma previsão sobre quando será sua estreia. O diretor do anime, Hiroshi Nagahama, deixou uma declaração em 2022, alegando que a animação só será exibida quando sua equipe acreditar que o projeto está fiel ao mangá original.

Os outros animes não se tornaram um grande sucesso, mas o nome Junji Ito continuou a crescer no mundo devido a qualidade de suas histórias. Portanto, mesmo sem um anime que marcou gerações, ele virou um dos maiores mangakás da história.

Mudando para os live-actions, Tomie foi sua primeira história adaptada para o meio cinematográfico, com 9 filmes ao total. Após o lançamento de Tomie, Uzumaki e outros dos seus contos também ganharam adaptações live-actions para o cinema japonês.

O sucesso de Uzumaki, Tomie outras obras de Junji Ito

Trecho da capa de Tomie (Reprodução/Pipoca & Nanquim)

Uzumaki é uma das séries mais notáveis de Ito, o conto que explora a vida de um casal de adolescentes e sua pequena cidade, que é assombrada por eventos paranormais que sempre terminam em símbolos e referências de espirais. Ao longo do mangá, a representação visual da espiral torna-se cada vez mais onipresente e sinistra.

Além de Uzumaki e Tomie, o mestre do horror já criou diversas histórias diferentes que fizeram sucesso. Até hoje, ele continua na carreira, planejando novas ideias de sequências e contos originais para os seus mangás.

Seu trabalho repercutiu até chegar nos Estados Unidos, onde conquistou grandes figuras do meio artístico, como Guilhermo del Toro. O renomado cineasta é uma influência significativa para Ito, e Del Toro também virou um admirador dos seus mangás. Os dois até planejaram uma colaboração de trabalho para Silent Hills, mas eles não conseguiram seguir com o projeto.

No Brasil, Ito alcançou notoriedade graças à editora Pipoca e Nanquim especialmente, que trouxe Tomie e várias outras obras do autor para nós. Essa parceria contribuiu para que os fãs brasileiros de mangás conhecessem melhor a maestria desse autor.

Sua vinda ao Brasil

Junji Ito na CCXP 2023 (Reprodução/Pipoca & Nanquim)

Para a alegria de diversos fãs, Junji Ito compareceu ao Brasil como um dos maiores convidados da CCXP. Durante a sua estadia, ele deu autógrafos e fez apresentações ao vivo para falar da sua história. Ao mesmo tempo, ele pode aproveitar o passeio para conhecer a cultura brasileira.

Bruno Zago, Daniel Lopes e Alexandre Callari (fundadores do Pipoca e Nanquim) foram os guias de Ito no evento com muita empolgação, já que esse foi o primeiro encontro pessoal dos editores com o mangaká. Os editores também proporcionaram um encontro lendário entre Ito e a figura icônica da Turma da Mônica, Mauricio de Sousa.

Em sua apresentação ao vivo, o mestre do horror conheceu as lendas do folclore brasileiro, como a Mula Sem Cabeça e a Grávida de Taubaté, ele até fez uma brincadeira dizendo que talvez poderia criar uma história de terror sobre a Grávida de Taubaté. Essa visita o aproximou ainda mais dos seus fãs brasileiros e provou que diversas pessoas, além do Japão, foram impactadas pelas suas obras.

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