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Hollywood é um lugar muito misterioso. Pessoas desenvolvem roteiros, oferecem aos produtores que, com sua influência, tentam convencer os estúdios para receber algum financiamento. É um processo bastante longo para refletir sobre o que será produzido, mas ainda assim muita coisa estranha é aprovada. É o caso de Lanterna Verde. Sim, “estranho” é uma boa palavra para descrever o longa-metragem protagonizado por Ryan Reynolds, mas não estou me referindo a este. Me refiro à comédia que entrou em desenvolvimento na década passada, e que traria Jack Black (!) como protagonista.

Em 2004, muitas adaptações de obras da DC Comics estavam sendo trabalhadas, mas poucas realmente saíram do papel – e apenas uma delas, Batman Begins, deu verdadeiramente certo. Era uma investida da Warner Bros. em reviver o sucesso de seus super-heróis, cujo subgênero havia sido completamente manchado pelo lançamento do tenebroso Batman & Robin em 1997. Já que os personagens bombavam na TV com os desenhos, era o momento certo para um triunfante retorno aos cinemas. 

Com isto, o estúdio resolveu produzir algo relacionado ao Lanterna Verde… Uma sátira! Black estava em alta na época em função do sucesso de Escola de Rock, então parecia uma ideia muito boa escalá-lo no papel principal, que não era Hal Jordan, mas um sujeito chamado Jud. Black, que não estava interessado em participar, mudou de ideia após ler o roteiro escrito por Robert Smigel – que mais tarde ficou mais conhecido por escrever comédias do Adam Sandler.

A reformulação pela qual o Hal Jordan passou na época, pelas mãos do roteirista Geoff Johns, deu uma boa guinada em sua popularidade, e com o Lanterna Verde se destacando na venda de histórias em quadrinhos, é claro que a notícia sobre um longa-metragem baseado em sua mitologia não seria ignorada. Houve uma óbvia resposta negativa, que criticava dois pontos essenciais em particular: humor e Jack Black. Os mais irritados pediam por uma aventura espacial mais tradicional, e suponho que eles ficaram mais felizes quando anunciaram o filme com Ryan Reynolds. Pobres coitados.

Segundo Smigel, o roteiro que ele desenvolveu tinha algumas inspirações em Lanterna Verde: Amanhecer Esmeralda, minissérie que modernizou as origens de Hal Jordan. Só que, em vez de presenciar as tragédias pessoais de Jordan, nós acompanharíamos o desastrado Jud tendo problemas e “causando confusões do barulho” para usar o poderoso anel. “O que me atraiu em nível cômico era que ele não precisava de talento ou habilidades físicas para ser um super-herói”, destacou o escritor em uma entrevista. Tá bom, então.

A esta altura, você provavelmente está pensando: “Puxa vida, isto não teria um pingo da mitologia do Lanterna Verde. Por que associar o projeto ao super-herói, então?”. Se acertei, tenho o desprazer de dizer que você está comicamente enganado. O roteiro trazia Sinestro como grande antagonista, e você certamente sabe quem é Sinestro. Nesta versão, ele ainda era parte da Tropa dos Lanternas Verdes, e servia como espécie de sátira ao então presidente dos Estados Unidos, George W. Bush, de acordo com Smigel. Ele era o autoritário líder da Tropa, que policiava o universo com punho de ferro e muita intimidação. “Era um debate sobre o patriotismo e a maneira como estávamos respondendo ao terrorismo”, comentou o roteirista.

O mais famoso Pokémon também teria uma excêntrica participação no longa-metragem. Depois de derrotar Sinestro, Jud, o Lanterna Verde, teria que lidar com uma ameaça ainda maior: um asteroide gigante em forma de Pikachu. E o que é mais contraditório é que a catástrofe era recebida com muita ansiedade pelo povo do Japão e dos Estados Unidos, dada a popularidade do personagem nestes dois países. A cena era uma espécie de homenagem ao Homem de Marshmallow Stay Puft, de Caça-Fantasmas.

O roteiro também traria uma conclusão, no mínimo, incomum: para impedir que o asteroide entrasse em choque com a Terra e a destruísse completamente, o Lanterna Verde tirava o planeta do lugar – sabe-se lá como. Entretanto, o movimento causava grande catástrofe no planeta (não diga!). Para reverter este caos, ele girava a Terra para o lado contrário, retornando no tempo – de novo, sabe-se lá como. Sacou a a referência a Superman: O Filme?

Anos depois de o longa ser cancelado, Jack Black deu uma entrevista na qual comentou que a Warner Bros. só resolveu não produzi-lo porque não queria fazer mudanças na tradicional fórmula de super-heróis. O estúdio até tentou manter a ideia, tirando dela tudo o que dizia respeito ao Lanterna Verde, mas Smigel não gostou da proposta. O roteirista explicou que o que ele queria fazer era uma paródia especificamente sobre quadrinhos; eliminando este aspecto, seria uma comédia como outra qualquer. Os dois lados não chegaram em um consenso, e o projeto virou uma lenda.

Sou o Fundador do site Ovicio, Overplay e Muramasa. Fui idealizador e Game Designer do jogo Vencedor da DemoNight no BIG Festival 2014, o Jotunheim Project. Escolhido como Jurado do Anime Awards em 2024 e 2025. Amo games, sou fã de God of War, Dragon Quest, Fire Emblem, The Legend of Zelda e Pokémon. Coleciono livros, quadrinhos e guitarras.