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Desde o seu lançamento em 1999, Matrix deixou de ser apenas um filme de ação e ficção científica para se tornar um fenômeno cultural com vida própria. A obra das irmãs Wachowski gerou inúmeras teses, filosofias e metáforas que permeiam a sociedade até hoje. Recentemente, a codiretora Lilly Wachowski abordou como lida com o fato de que, muitas vezes, o público apropria-se de sua criação para defender pontos de vista que distorcem completamente a mensagem original do longa.
Durante sua participação no podcast So True with Caleb Hearon, a cineasta refletiu sobre a inevitabilidade de perder o controle sobre a arte assim que ela é entregue ao mundo. Segundo ela, tentar controlar como cada pessoa ou grupo interpreta o filme é uma batalha perdida, e o segredo para a saúde mental do criador é saber o momento de se distanciar.
“Você tem que se desapegar do seu trabalho. As pessoas vão interpretá-lo como quiserem”, explicou Wachowski. “Eu olho para todas as teorias malucas e distorcidas em torno dos filmes de Matrix e as ideologias que esses filmes ajudaram a criar e penso: ‘O que vocês estão fazendo? Não! Isso está errado!’ Mas eu tenho que deixar isso para lá até certo ponto… Você nunca vai conseguir fazer com que absolutamente todas as pessoas acreditem no que você inicialmente pretendia.”
A pílula vermelha e a apropriação de narrativas

O exemplo mais notório dessa ressignificação é o conceito da “pílula vermelha”. No filme, a escolha de Neo, vivido por Keanu Reeves, representa o despertar para uma realidade dura, mas verdadeira, libertando-se de uma simulação confortável. Ao longo dos anos, o termo “tomar a pílula vermelha” foi cooptado por diversos grupos sociais e fóruns on-line para simbolizar um “despertar” para supostas verdades ocultas da sociedade, muitas vezes em contextos que nada têm a ver com a visão humanista das diretoras.
Wachowski já confirmou em ocasiões anteriores que a intenção original e o subtexto de Matrix foram concebidos como uma alegoria para a experiência transgênero e a busca por identidade. No entanto, ela reconhece que narrativas populares são frequentemente utilizadas como ferramentas de propaganda, onde o sentido original é obscurecido para servir a outras pautas.
“Eles se apropriam de pontos de vista… e os distorcem para sua própria propaganda, para obscurecer a verdadeira mensagem”, pontuou a diretora, ressaltando que esse fenômeno de distorção é algo esperado quando uma obra atinge tal nível de popularidade global.
O primeiro Matrix, bem como suas sequências, estão disponíveis no catálogo da HBO Max.