Fazia muito tempo que eu não parava para assistir uma série. Dentre todas que ocupam atualmente o catálogo de produções originais Netflix, Maid me chamou a atenção logo de cara me conquistou não apenas pela sua sinopse, mas por deixar bem clara a sua intenção: nos mostrar que agressões nem sempre são físicas. Criada por Molly Smith Metzler para a Netflix, a minissérie foi lançada na plataforma em 1º de outubro de 2021 e já figura no top 10 de produções mais assistidas do streaming.

Nossa história gira em torno de Alex, uma jovem de 25 anos que após ser constantemente vítima de abusos psicológicos por parte de seu companheiro, decide sair de casa com Maddy, sua filha de apenas 3 anos de idade, e buscar uma vida melhor. Ao abordar o passado da relação do casal, vemos como a atual situação foi sendo construída, e como é difícil para Alex se desvencilhar do emaranhado de violência em que se viu envolvida.
Quando falamos em violência doméstica, automaticamente pensamos em agressões físicas. No entanto, essa não é a única forma de agressão que as vítimas são subordinadas. No caso da série, o antigo companheiro da protagonista nunca a agrediu fisicamente, mas cerceava e controlava a sua vida de maneira absurda (e crescente). Indo desde comentários profundamente desmotivadores a fortes acessos de raiva, Sean era um homem profundamente violento, que descontava suas frustações e descontentamentos na parceira, além de sempre colocar a culpa de seu comportamento desproporcional na bebida.

E foi, após um de muitos acessos de raiva de seu parceiro, que Alex decide sair apressada de casa no meio da madrugada. Sem emprego e sem ter para onde ir, começamos a acompanhar a difícil jornada da protagonista, que precisa criar forças para reconstruir sua vida e conseguir dar o melhor para sua filha. Sem poder contar com seu pai e sua mãe (e tendo apenas os amigos de Sean em seu círculo social), Alex precisa buscar ajuda governamental para conseguir uma moradia temporária e suprir suas necessidades básicas. Ao ser questionada pela assistente social de porquê não registrou um boletim de ocorrência contra Sean, vemos que Alex tem um pensamento que está fortemente enraizado até mesmo nas vítimas: ela não consegue enxergar a violência psicológica como uma forma “real” de violência.
Outro ponto muito importante para compreendermos a própria protagonista, é a sua mãe. Logo no início da série vemos que a relação das duas é bem conturbada, e que dificilmente a jovem conseguiria um apoio sólido por parte de sua genitora. Paula é uma mulher que vive em um mundo próprio, e que, durante toda a sua vida, foi uma vítima de relacionamentos abusivos, mesmo que ela mesma não encarasse dessa forma. Aqui, vemos que a personagem acaba por naturalizar relações de violência, deixando de compreender as dificuldades que sua própria filha está enfrentando. Por estar constantemente em envolvimento com homens que não a enxergam como um ser humano, Paula acabou por não conseguir mais enxergar os malefícios que tais comportamentos causam em sua vida – e na vida de sua filha.

A dificuldade que muitas mulheres têm em sair de seus relacionamentos também é um ponto muito bem abordado pela produção. O medo, a insegurança e o sentimento de solidão são fortemente presentes, e isso é claramente mostrado não apenas em Alex, mas em várias outras mulheres do abrigo para vítimas de violência doméstica. Como a própria responsável pelo alojamento explica à protagonista, muitas acabam retornando para seus companheiros, e demoram a perceber que precisam romper a relação de abuso.
Como mulher, posso dizer que já nascemos em uma sociedade que automaticamente naturaliza determinados comportamentos. Somos inseridas em um mundo que nos diz para aceitarmos, de cabeça baixa, condutas totalmente degradantes e que nos ferem das mais diversas formas. Justamente por já estarmos inseridas em um contexto predominantemente machista, muitas vezes acaba sendo difícil que percebamos como tais ações são danosas, que podemos sim ir contra o que julgamos como incorreto. No caso de “Maid”, vemos como várias pessoas ao redor de Alex diminuem as ações violentas de Sean, tratando-a como uma mulher exagerada e sem fundamento para suas indignações.

Mesmo sendo uma série incômoda, “Maid” é completamente necessária. A percepção e o sentimento que homens e mulheres têm ao assistir a minissérie já é um claro sinal de como há, ainda, muita discrepância entre essas duas realidades. Além de servir como um retrato de uma situação vivida diariamente por muitas Alex’s ao redor do mundo, a produção é também uma forma de encorajar as mulheres a buscar por condições dignas, saudáveis, e a não se submeteram a relações que claramente as fazem mal. A coragem para se quebrar o ciclo de violência começa quando nos damos conta de que algo está errado, e que precisamos nos erguer para que isso se encerre. Assim como Alex, somos todas capazes de buscarmos uma vida melhor e de sermos felizes.
Se você está sendo vítima de violência doméstica, procure ajuda! Ao ligar para o número 180, você estará falando com a Central de Atendimento à Mulher. Caso precise de mais informações, pode clicar aqui, aqui e aqui. Você não estará sozinha.






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