Comentários

Ok, precisamos falar sobre algo bem sério a respeito dos fãs de quadrinhos. No desespero de validar sua mídia favorita, eles possuem uma tendência  a menosprezar todo material de adaptação – mesmo quando gostam do resultado. Ignorando o potencial da transmídia, existe uma ilusão de que qualquer inserção de seus personagens em uma mídia que não seja a original já nasce como um subproduto. Algo “menor”.  E a história nos mostra que, na verdade, não é bem assim.

Tomemos como exemplo o Superman. Em seus 80 anos, o personagem foi sendo moldado e transformado, recebendo várias novas camadas e inserções em sua rica mitologia, até se tornar o ícone que conhecemos hoje. E olha só… muitas de suas mais memoráveis características vieram de fora dos quadrinhos, como o fato de… voar. Pois é, quando surgiu em 1938, o Superman não voava, apenas dava grandes saltos. Essa habilidade surgiu apenas em sua primeira série animada, produzida pela Fleisher Studios em 1941. Outras importantes adições vieram do rádio, como a Kryptonita e o fotógrafo Jimmy Olsen.

Já do lado do Batman, um famoso elemento surgiu na série de TV de 1943: a Batcaverna. Um dos mais importantes conceitos do Homem-Morcego, a Batcaverna só viria a aparecer nos quadrinhos no ano seguinte. Isso sem contar que, a Gotham City infernal, sombria, ultra gótica e Art Déco como a conhecemos, passou a ser representada desta forma somente após os filmes do Batman do cineasta Tim Burton. Um visual potencializado pela aclamada série animada do Batman dos anos 90.

E falando na série animada, um outro interessante exemplo é a personagem Arlequina, criação de Paul Dini e Bruce Timm como namorada do Coringa. A personagem fez tanto  sucesso que mais tarde foi inserida aos quadrinhos e hoje brilha nos cinemas na pele da atriz Margot Robbie.

A transmídia é algo que sempre aconteceu, e os quadrinhos sempre se favoreceram da maior abrangência de outros veículos midiáticos, apropriando-se de elementos que eram testados e aprovados por um público muito maior. É algo quase tão antigo quanto os próprios quadrinhos.

E isso, aliás, não acontece só nos quadrinhos. A icônica frase “Elementar, meu caro Watson“, que hoje está no imaginário popular imediatamente atrelada a Sherlock Holmes, jamais foi citada nos contos e romances originais escritos por Arthur Conan Doyle, criador do personagem.  A frase na verdade apareceu pela primeira vez em 1929 no filme O Retorno de Sherlock Holmes, e acabou se tornando popular graças à escritora e atriz Edith Meiser, que escreveu a série The New Adventures of Sherlock Holmes, transmitida no Reino Unido pela rádio BBC entre 1939 e 1947. Apenas mais um exemplo.

O que acontece muito hoje em dia, onde o cinema super-heroico está extremamente em alta, são editoras como Marvel e DC aproveitarem elementos bem sucedidos das telonas para serem inseridos nos quadrinhos.  Uma prática natural, antiga e que, supostamente, o fã de quadrinhos deveria conhecer. Mas que alguns leitores acreditam ser tratar de “uma heresia”, que supostamente está “destruindo a originalidade e a autonomia dos quadrinhos”.

Como comprovado, a  longo prazo, isso é na verdade muito enriquecedor para a mitologia dos personagens. Mas ok, acho que já enrolei demais. Vamos ao Batman.

O melhor Batman

Assim, como  Superman, o Batman é um personagem que foi sendo transformado e moldado várias vezes, pelas mãos de vários artistas, até se tornar o personagem completo que é hoje. E é como grande fã do personagem, tendo crescido lendo suas histórias e inserido às diversas iterações do Homem-Morcego nas mais diversas mídias, que chego à conclusão de que o melhor Batman nos dias de hoje, por incrível que pareça, não se encontra nos quadrinhos.

Batman: Arkham Asylum surgiu em 2009, desenvolvido pela Rocksteady Studios e rapidamente conquistou os fãs, não apenas pelo ótimo gameplay, mas por seu roteiro impecável, que tornou-se ainda melhor em seu sucessor, Batman: Arkham City. Com um amplo uso da galeria de vilões do Cavaleiro das Trevas, os games exploraram sua mitologia até o limite, contando com excelentes caracterizações de personagens e uma Gotham sombria, claustrofóbica e absurdamente imersiva.

Com uma personalidade magnética e um visual arrebatador, Batman era também mais detetive do que nunca. Muito mais do que já visto no cinema, e mais até do que nos quadrinhos, onde a fama existe, mas na prática nem sempre é lembrada pelos roteiristas. Com auxílio de seus gadgets, Batman podia hackear terminais, reconstruir cenas de crimes, analisar os mais diversos tipos de resíduos e, é claro, fazer uso de sua inteligência em puzzles desafiadores.

Esse controle total da mitologia do Batman, sua relação com o ambiente e com seus coadjuvantes, foi possível em grande parte pelo roteiro ter sido entregue nas mãos de Paul Dini, o homem que, juntamente com Bruce Timm, já havia presenteado o mundo anos atrás com Batman: The Animated Series. Outro pequeno tesouro que, assim como os games da Rocksteady, trazia em seu cerne a ideia de misturar tudo de mais funcional do Batman em todas as mídias que ele já havia aparecido.

Aproveitando-se dos melhores elementos do Batman em todas as suas iterações, a série de games Arkham constrói um Batman praticamente perfeito, em um mundo crível e imersivo que consegue equilibrar a fantasia surtada com o realismo dos filmes de Christopher Nolan, como nenhuma outra mídia já conseguiu – incluindo, é claro, os quadrinhos.  A construção do Batman para o universo Arkham, o torna, facilmente, o melhor Batman de todos os tempos. E o ponto aqui, é que não há problema nenhum nisso.

O “Batman Arkham” é o melhor Batman justamente por abraçar a forma como o meio moldou o personagem, potencializando a sua figura e encaixando-o de forma funcional em um mundo altamente tecnológico.

Os quadrinhos continuam sendo mais importantes por serem o seu berço,  e os filmes (e a série de TV dos anos 60) por terem potencializado a sua popularidade no imaginário popular e na cultura de massa como um todo. Mas o nerd precisa perder essa noção de que quadrinhos são intocáveis, sagrados e acima de qualquer adaptação. E que na verdade, vivem até hoje, graças à transmídia.

Ainda nem jogou essas obras de arte? 

Batman Return to Arkham
Compre

Batman Arkham Knight
Compre



Comentários