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Recentemente estreou nos EUA a nova fase do Demolidor nos quadrinhos, agora sob a liderança de Chip Zdarsky, um dos novos talentos da Marvel que vem se destacando, assim como Donny Cates.

E já em sua estreia, o autor decidiu “levar Matt Murdock ao seu limite, fazendo com o que Demolidor passe por uma crise que o levará ao fundo do poço”. Já viu isso antes? Claro que já. É basicamente o que acontece com o Homem Sem Medo desde os anos 80. E essa caracterização tão definidora, que passou a ser replicada em todas as histórias do personagem, tem um “culpado”: Frank Miller.

Todo personagem sempre tem aquele autor que trabalha sua mitologia como nenhum outro, cujos acréscimos são tão importantes e bem recebidos que passam automaticamente a fazer parte do cânone dali em diante, até se tornar algo intrínseco ao personagem no imaginário popular.

Mas ninguém fez isso como Frank Miller em sua passagem pelo Demolidor. O lendário quadrinista fez isso tão bem, que acabou não apenas mudando o personagem para sempre, mas também a própria forma de se fazer quadrinhos. Sua abordagem teve um profundo impacto no Demolidor, tanto narrativa quanto visualmente, marcando-o para sempre.

Quando Miller assumiu o título, em 1979, os quadrinhos procuravam seguir um caminho seguro e pouco ousado. Não havia espaço para experimentação ou ousadia nos quadrinhos de super-heróis. A maioria dos escritores que passaram pelo Demolidor após a saída de Stan Lee, apenas buscaram emular o seu trabalho, tomando o máximo de cuidado para não abalar o status quo da série e dos personagens, o que fez com que o título corresse o risco de cancelamento. Miller decidiu fazer diferente. Ele levou o Demolidor a lugares perigosos. Artisticamente, Miller adicionou uma camada de sombras e perigo em cada painel, e quando teve a chance de também cuidar dos roteiros da revista – já que ninguém se importava mais – teve liberdade para fazer o que quisesse.

Miller pegou um vilão pouco utilizado do Homem-Aranha, o Rei do Crime, e o transformou em um dos personagens mais complexos e perigosos que os leitores da Marvel já haviam visto, além de ter sido o primeiro escritor a adicionar um elemento religioso nas histórias do Demolidor, estipulando que o homem que se vestia como um demônio, era na verdade um fervoroso católico. Mas a maior contribuição de Frank Miller para o Demolidor foi a introdução de uma personagem que transbordava um proibido apelo sexual, agindo como a perigosa femme fatale da vida de Murdock, a ninja Elektra. Com Elektra, Miller trouxe aos quadrinhos de super-heróis uma sexualidade pouco convencional, tornando-a a amante e o grande amor da vida de Matt Murdock. E quando a popularidade da personagem estava no topo, Miller fez o impensável e a matou pelas mãos do Mercenário, que a partir dali se tornaria um dos mais odiosos antagonistas do Demolidor.

Durante sua marcante passagem pelo título, Miller simplesmente redefiniu o universo do personagem, mexendo tanto em seu passado quanto no presente, estipulando conceitos tão icônicos que fazem com que muitos o considerem praticamente um criador moral do Demolidor, como o fato de ter definido a personalidade de Matt como alguém instável e esquizofrênico, sempre andando na linha entre a sanidade e a loucura. O cenário urbano da Marvel, com seus heróis e anti-heróis lidando com a parte suja e baixa da cidade, começou aqui, em histórias que envolviam de tráfico de drogas a exploração infantil. E quando ele finalmente terminou sua passagem pelo título, ninguém imaginava que o melhor ainda estava por vir.

A Queda de Murdock (ou como estipular um padrão)

Em 1986, três anos após já ter saído dos roteiros do personagem, tendo alavancado suas vendas, Frank Miller ainda voltou ao Demolidor mais uma vez, para uma história extra. Acompanhado do artista David Mazzucchelli, Miller entregou aquela que é considerada a melhor história do Demolidor de todos os tempos. O seu clássico absoluto: A Queda de Murdock.

Após ter sua identidade secreta revelada para o Rei do Crime por sua ex-namorada Karen Page – agora uma drogada que se prostitui por uma dose – Matt Murdock vê sua vida pouco a pouco sendo transformada em um inferno. O Demolidor é jogado para um lugar onde nunca esteve antes. Depois de descobrir sua identidade secreta, Wilson Fisk põe em prática suas maquinações para destruir a vida da alma mais pura e decente que ele já encontrou. Como um maligno polvo, os tentáculos do Rei do Crime se estendem, infiltrando-se em cada mínimo aspecto da vida pessoal de Matt Murdock. Fisk suborna Nick Manolis, um policial até então honesto, para que ele faça falsas acusações contra Murdock, que acaba sendo impossibilitado de advogar. Fisk também manipula registros bancários, congela a conta de Murdock, e como toque final, explode sua casa. Esse desejo e conhecimento de causa em infligir tais torturas acaba por estipular ainda mais que o Rei do Crime não é apenas um homem maligno, mas a personificação da própria maldade. Quando aplicado a Wilson Fisk, o mal deixa de ser um adjetivo, tornando-se um substantivo.

O caminho para a salvação do Demolidor o conduz através da misteriosa Irmã Maggie, introduzida de forma sutil como a mãe de Matt Murdock, e que mais tarde realmente se revelaria como tal. Toda a concepção da história é construída em cima da ideia central do Demolidor, de que não importa o quanto apanhe, ele se erguerá novamente. Mesmo com sua vida destruída, o herói consegue forças não apenas para se reconstruir e encarar o seu inimigo, mas também tempo para perdoar. Uma história que começa com Karen Page destruída e prostituída vendendo a identidade do Demolidor por um dose de heroína, termina com a personagem recuperada e reconstruindo sua vida ao lado do homem que ama. Não existe remorso, e sim perdão.

Essa rivalidade entre Demolidor e Rei do Crime (que inclusive foi adaptada de forma belíssima na série da Netflix) ainda ganhou mais um capítulo pelas mãos de Miller na graphic novel Demolidor: Amor e Guerra.  Nunca o Rei do Crime pareceu tão grande e poderoso, e ainda assim tão vulnerável. E nunca o Demolidor pareceu tão iluminado (em contraste com o mundo que o cerca).

A obra se situa cronologicamente em plena fase Miller no titulo do Demolidor, após Wilson Fisk recuperar sua esposa Vanessa. Na trama, Fisk traz a Nova York um médico europeu para curar o quase permanente estado de catatonia em que encontra-se sua esposa, e para motivar o homem de forma que ele considere o caso como algo pessoal e não apenas como mais um paciente, o Rei do Crime sequestra sua esposa Cheryl, uma mulher cega. O ponto alto de Amor e Guerra é que ao contrário de outras obras como A Queda de Murdock, que retratam o Rei do Crime como o mal encarnado, aqui ele é humanizado por um amor quase irracional, tornando-o um personagem extremamente trágico em sua concepção.

Fisk aqui é retratado como alguém bem menos aterrorizante, até mesmo fraco, muito distante da figura intocável que conhecemos outrora. No entanto, a obra demonstra que o vilão ainda assim conduz o seu império com mãos de ferro, recorrendo a todo tipo de abominação para atingir seus objetivos, o que deixa bem claro sobre com quem estamos lidando e aumentando a dificuldade em conseguir empatia pelo personagem. No final das contas, a obra acaba sendo um grande estudo sobre a personalidade do vilão, com o Demolidor agindo apenas como um coadjuvante.

Elektra e um mundo maior

Com Elektra e o Tentáculo, Miller expandiu o mundo do Demolidor. Aquele simples personagem urbano não apenas tinha ganhado relevância, mas agora pertencia a um mundo extremamente reconhecível e rico, capaz de gerar até mesmo alguns spin-offs. E foi o que aconteceu com Elektra.

Pelas mãos de Miller, Elektra ganhou ainda duas obras: Elektra Vive e Elektra Assassina, que aprofundam a personalidade caótica do grande amor de Matt Murdock, tão psicologicamente “quebrada” quanto ele.

Elektra Vive, particularmente, tem ligação direta com a primeira fase de Miller pelo Demolidor, e tem como objetivo esclarecer o confuso destino de Elektra após os acontecimentos da série regular onde, em um final ambíguo, Miller havia deixado em aberto uma possível ressurreição da personagem. O interessante aqui é que, ao que parece, Miller não queria que ninguém mexesse com sua personagem, criando uma história que lhe daria na verdade um fim definitivo. Por esse motivo, muitos fãs ironizam o título da história, apelidando-a de “Elektra Morre”.

Esse mundo maior incluiu ainda o direito de recontar a origem do Demolidor, na minissérie em 5 edições O Homem Sem Medo, onde Miller consegue respeitar o conto original de Lee e Everett, ao mesmo tempo em que trabalha com personagens e tramas estipulados em sua própria fase pelo título do Demolidor, no final de década de 70 e início da década de 80. Assim, vemos finalmente o treinamento do jovem Murdock com seu mestre, o místico Stick, seu romance na faculdade com Elektra, e a ascensão de Wilson Fisk, que evolui de um simples capanga para o posto de Rei do Crime de Nova York.

A tênue linha entre inovação e descaracterização

Algumas pessoas estão considerando a nova fase de Chip Zdarsky (que vale lembrar, só tem um número lançado) uma “reciclagem” do que vem sendo feito com o Demolidor desde a era Miller. O argumento de alguns é que em tantos anos, nenhum escritor conseguiu se desvencilhar do padrão imposto por Miller, e o Demolidor se viu preso a um ciclo eterno e pouco criativo de dor e sofrimento. Mas afinal, até que ponto mudar um status quo tão bem estipulado seria considerado “inovação” ao invés de “descaracterização”?

Em 2011 isso posto à prova, quando o escritor Mark Waid assumiu o título, adaptando conceitos da Era de Prata para um contexto moderno, e criando uma experiência nova e original, que relembra em muito os primórdios do personagem, quando era um herói mais inocente pelas mãos de Stan Lee.

E a fase de Waid é a maior prova de como a linha entre um frescor criativo e descaracterização é realmente tênue. Começando muito bem e inclusive vencendo um Eisner, a fase logo mostrou desgastes, e praticamente implorava para que Matt fosse ao fundo do poço novamente. Era quase como se a criatura tivesse superado a vontade do criador, e o Demolidor simplesmente precisasse afundar novamente. Não demorou para ficar extremamente perceptível para os leitores que Waid simplesmente não sabia mais o que fazer. A depressão e o sofrimento estão tão entranhados no cerne do que é o Demolidor, que ficar muito longe disso começa a soar como descaracterização.

Levar o Demolidor ao seu limite e deixá-lo encarar os seus medo  para que se erga novamente como o boxeador que era seu pai, não é uma reciclagem. Não é estar preso ao passado. É simplesmente o “poder e responsabilidade” do Homem-Aranha, ou o otimismo e a esperança do Superman. Uma caracterização definidora, sem a qual o personagem se torna um estranho.

Ou alguém realmente queria que a próxima fase do Batman nos quadrinhos o trouxesse colorido, sorridente e dançarino como na série de TV dos anos 60?

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