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Demorou até a Netflix finalmente lançar uma produção do Millarworld, editora do autor de quadrinhos Mark Millar, adquirida pela gigante do streaming em 2017. E a primeira obra escolhida foi O Legado de Júpiter, que dentre tudo que Millar escreveu de forma autoral, é a que traz uma visão mais clássica dos quadrinhos de super-heróis – ainda que com aquele velho tom ácido e debochado que os personagens de Millar evocam.
Esse aspecto, na verdade, cai como uma luva para a produção da Netflix. Afinal, ela chega em um momento onde o público se vê ávido por adaptações um pouco mais subversivas e adultas de super-heróis, muito devido ao sucesso de The Boys no Amazon Prime Video, e mais recentemente, a série animada Invencível, no mesmo streaming. Dessa forma, podemos dizer que, embora tenha demorado para chegar, O Legado de Júpiter chegou na hora certa.
Importante deixar claro aqui que essa análise é apenas do primeiro episódio, que nos foi disponibilizado antecipadamente pela Netflix. Ainda faremos uma análise sobre a temporada completa, que por esse motivo pode acabar divergindo das primeiras impressões deste texto.

O que já dá para notar de cara – principalmente quando comparado aos quadrinhos – é na escolha de estrutura da série. O passado dos personagens, por exemplo, que foi mais explorado na HQ derivada O Círculo de Júpiter, é mostrado através de flashbacks intercalados com a trama no presente. Essa é uma jogada interessante e inteligente para conseguir ter aproveitamento na adaptação em live-action de todo o material publicado por Millar nos quadrinhos, além de servir para dar mais consistência e desenvolvimento aos personagens que compõem a União.
Mas calma, vamos contextualizar. Assim como nos quadrinhos, O Legado de Júpiter segue a história de Sheldon Sampson, que durante a Grande Depressão, mais especificamente em 1932, perde tudo na Bolsa de Valores e decide seguir o chamado de uma misteriosa ilha que surge em seus sonhos o convocando. Ao lado de seu irmão Walter e de alguns amigos, ele viaja até a misteriosa ilha no Pacífico, onde acabam recebendo poderes e voltam para casa determinados a restaurar os Estados Unidos à sua antiga glória. Para fazer isso, cada um deles assume alter egos de super-heróis para inspirar o público em geral a seguir seu exemplo.
No primeiro episodio, no que se refere aos flashbacks, não vemos ainda os eventos ilha, mas sim o primeiro impacto da Grande Depressão na família Sampson. No presente, porém, a história é outra. Seguimos os já idosos Sheldon (Josh Duhamel) e seu irmão Walter (Ben Daniels), em uma América acostumada há anos com a presença de super-heróis e super-criminosos. Sheldon é o super-herói conhecido como Utópico, e assim como evidenciado pelo seu nome, é um personagem realmente utópico, o que causa divergências não apenas com seu irmão, mas principalmente com seus filhos.

É nesse ponto que, pelo menos por esse primeiro episódio, a série da Netflix já demonstra algumas consideráveis diferenças em relação aos quadrinhos. O maior ponto de divergência entre Sheldon e Walter na HQ tem a ver com uma obsessão do Utópico em resolver a nova crise na economia norte-americana assim como fez na década de 30. Ele espera resolver os problemas dos Estados Unidos por meio da inspiração e de exemplos positivos, combatendo super-criminosos e salvando o dia da forma mais clássica possível, enquanto Walter é mais pragmático e exige uma interferência dos superpoderosos na Economia.
Na série, ao menos por esse primeiro episódio, Utópico parece ter uma preocupação maior com uma regra que o personagem não parece se importar nos quadrinhos: não matar. Isso acaba gerando também uma grande diferença no que se refere à relação com seu filho mais velho, Brandon.
Na HQ, Brandon e Chloe, os filhos do Utópico, vivem apenas de festas e holofotes por serem filhos de dois dos super-heróis mais famosos do mundo. Seus pontuais atos heroicos são peças de marketing, pouco se importando com o lado altruísta da coisa. Na adaptação, no entanto, existe uma diferença crucial em Brandon, já que ele é um herói, com traje e tudo, que faz de tudo para seguir os passos do pai e ser reconhecido e admirado por ele. O atrito entre os dois na série é mais sobre a questão de matar ou não matar, o que se mostra uma escolha interessante, pois deve dar mais peso para as decisões que Brando virá a tomar posteriormente – considerando que a série seguirá de forma fiel os eventos da HQ.

Mas, se a série parece demonstra um bom ritmo e apresenta boas escolhas narrativas enquanto adaptação, o mesmo não pode ser dito da qualidade técnica da produção. A maquiagem usada para envelhecer Josh Duhamel quando seu personagem está idoso é qualquer coisa, menos convincente. A peruca do ator parece que vai cair a qualquer momento e os efeitos visuais até quase conseguem convencer em algumas cenas, mas sempre ficam entre o aceitável e o galhofa. A sequência final, que tenta impressionar com uma grande batalha entre vários heróis contra um poderoso vilão, é mal coreografada, com uma fotografia extremamente artificial e um perfeito exemplo de uso exagerado e mal feito de CGI. Já considero um excelente exemplo do que não fazer em uma produção live-action de super-heróis.
Dito isso, é preciso lembrar novamente que são apenas primeiras impressões, e que mesmo com os problemas citados, a série tem potencial para conquistar o seu lugar entre o público ávido não apenas por produções de super-heróis, mas pela temática mais adulta e subversiva desses super-seres. No mais, O Legado de Júpiter é uma obra com grande potencial, principalmente pela forma como lida com o choque de diferentes gerações, refletindo sobre a Era de Ouro dos quadrinhos contra a moderna glamourização dos super-poderes. Fica a esperança de que, no decorrer dos episódios (e das temporadas), a Netflix consiga imprimir mais qualidade e identidade na produção.






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