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Houve um tempo em que as discussões cinéfilas e os fóruns de cultura pop eram dominados por um embate de titãs: Leonardo DiCaprio de um lado, Christian Bale do outro. Considerados o principal “sangue novo” de Hollywood na virada do milênio, esses dois atores de mesma geração não necessariamente disputavam os mesmos papéis, mas fagocitavam as atenções e o prestígio da crítica e do grande público com uma voracidade ímpar.

Hoje, já veteranos e consolidados na indústria, ambos inegavelmente alcançaram o topo do Olimpo cinematográfico. Contudo, quer você seja um fã inveterado de DiCaprio ou não, é preciso reconhecer um fato inquestionável da realidade hollywoodiana: nos últimos anos, o astro de Uma Batalha Após a Outra e Assassinos da Lua das Flores manteve uma consistência narrativa e curatorial infinitamente superior à do seu antigo “rival”.

Em termos de momento de carreira, DiCaprio e Bale ocupam polos não apenas opostos, mas de naturezas distintas. Enquanto o primeiro cimenta seu nome entre as lendas intocáveis da atuação trabalhando com os maiores mestres vivos do cinema, o segundo parece ter sido relegado — ou pior, ter se voluntariado — a projetos no mínimo questionáveis. E o mais recente tropeço atende pelo nome de A Noiva!.

A maldição das escolhas ruins

Gorr do Christian Bale
Reprodução/Disney

Se analisarmos o recém-lançado A Noiva! (fracasso retumbante de crítica e de bilheteria), o longa dirigido por Maggie Gyllenhaal expõe uma ferida aberta na carreira de Bale. Apesar da sua habitual dedicação visceral — uma marca registrada que o acompanha desde os tempos de O Operário —, sua versão do Monstro de Frankenstein é, em última análise, um esforço dramaticamente constrangedor, sufocado por uma direção confusa e um roteiro anêmico.

Chega a ser uma ironia cruel que esta iteração do monstro chegue aos cinemas em uma janela de tempo tão próxima ao Frankenstein de Guillermo del Toro. Embora o filme do diretor mexicano não tenha impressionado todo mundo, ele trouxe uma versão infinitamente mais digna, trágica e memorável da Criatura, interpretada pelo mais jovem — e admitamos, tecnicamente menos brilhante que BaleJacob Elordi. As abordagens diretoriais são diametralmente opostas, é verdade, mas o contraste de resultados é brutal para o currículo do veterano.

E o problema não se resume a A Noiva!. O portfólio de Bale nesta década é uma coleção de decepções ou obras rapidamente esquecíveis:

  • O Pálido Olho Azul: Um thriller arrastado para a Netflix que evapora da memória do espectador assim que os créditos sobem.
  • Amsterdam: Um desastre absoluto comandado por David O. Russell — um diretor que há muito perdeu a mão na própria megalomania e com quem Bale já admitiu ter atritos no set, mas a quem continua bizarramente fiel.
  • Thor: Amor e Trovão: Onde Bale entregou o vilão Gorr, o Carniceiro dos Deuses. Embora tenha sido o ponto alto do filme e agradado aos fãs da Marvel, sua performance sufocante foi soterrada pelo tom esquizofrênico e pela comédia autodepreciativa excessiva de Taika Waititi, passando longe do impacto dramático que o personagem exigia.

Não me entenda mal: Bale não fez um trabalho necessariamente ruim em nenhum desses longas. O talento imenso continua lá. A grande tragédia é que nenhum desses filmes estava à altura de sua envergadura como intérprete. Se formos buscar o seu último grande acerto inquestionável de crítica e público, precisaremos voltar sete anos no tempo, até 2019, com o ótimo Ford vs. Ferrari, de James Mangold.

Bale se cansou da indústria, ou a indústria se cansou de Bale?

Reprodução: 20th Century Studios

O que explicaria essa vertiginosa “queda do galho”? Nos bastidores, as teorias se dividem em duas correntes principais.

A primeira sugere que Bale, um ator conhecido pelo Método e por transformações corporais que beiram o masoquismo, simplesmente se esgotou. Ele próprio admitiu recentemente que mal assiste a filmes hoje em dia. Se observarmos de perto as suas escolhas, a curadoria deu lugar ao comodismo: quase todos os projetos nos quais ele embarca são comandados por diretores com quem ele já possui uma relação prévia. É como se a atuação tivesse deixado de ser uma busca artística implacável para se tornar um favor ocasional prestado a amigos próximos em uma zona de conforto.

A segunda corrente argumenta que o movimento foi inverso: Hollywood perdeu a paciência com Christian Bale. O astro construiu ao longo das décadas a reputação de ser um profissional “difícil”, cuja intensidade no set pode ser exaustiva para a equipe ao seu redor. Ninguém na indústria jamais esqueceu o infame vazamento de áudio de 2009, durante as filmagens de O Exterminador do Futuro: A Salvação, em que o ator submete o diretor de fotografia a uma sessão de gritos e humilhações por tê-lo desconcentrado. Na era atual do cinema corporativo, estúdios têm cada vez menos tolerância para temperamentos vulcânicos que não garantem, em contrapartida, lucros bilionários.

A verdade, como de costume, deve flutuar em algum lugar no meio dessas duas hipóteses.

Redenção à vista?

Reprodução: Prime Video

O fato inegável é que o cinema respira melhor quando temos um Christian Bale no topo de sua forma estrelando grandes obras. Felizmente (ou não), o ator já tem o seu futuro traçado nos próximos anos, dividindo-se entre a força do streaming e o peso das telonas:

  • Madden (Prime Video): Com estreia prevista para este ano, a produção traz Bale ao lado de Nicolas Cage. O sinal de alerta? A direção é novamente de David O. Russell. O filme já nasce envolto em controvérsias de bastidores ligadas ao cineasta, o que pode ofuscar qualquer mérito da obra antes mesmo de seu lançamento.
  • Fogo Contra Fogo 2 (Amazon MGM Studios): Aqui reside a verdadeira esperança. O retorno ao comando do mestre Michael Mann (com quem Bale trabalhou no sólido Inimigos Públicos). O longa, que terá distribuição nos cinemas, traz um contorno metalinguístico delicioso: Bale estrelará a obra ao lado de seu antigo “rival”, Leonardo DiCaprio.

Fogo Contra Fogo 2 ainda não tem data de lançamento definida, mas carrega o peso de um épico criminal aguardado há décadas. Talvez seja exatamente o choque de realidade — e a pressão de dividir a tela com DiCaprio sob a batuta de Mann — a fagulha que Christian Bale precisa para despertar de seu letargo e nos lembrar por que ele já foi considerado o (segundo) maior ator de sua geração.

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