Posso começar dizendo que, no momento da escrita deste texto, estou praticamente no 10º semestre do curso de Direito. Assim como Matt, no decorrer desses quase 5 anos de faculdade, me deparei com situações em que, infelizmente, a justiça não cumpriu o seu papel primordial. O sentimento de impotência, mesclado com um forte espectro de raiva, fez com que eu automaticamente pensasse em alternativas, muitas delas nitidamente utópicas e irrealizáveis. Com o passar do tempo, acabei me tornando o tipo de pessoa que mesmo se decepcionando constantemente com o sistema penal, trabalha nele – e tem, bem no fundo, o sentimento de que ainda há solução até para os mais difíceis problemas.
Depois dessa (um tanto quanto longa) introdução, me sinto no dever de corrigir o título do artigo. “Redenção” é, na verdade, a maior e melhor história de Matt Murdock. Nela, vemos o personagem atuando como herói mesmo nos momentos em que está sem o seu uniforme. Lutando dessa vez como advogado, Matt percebe que há situações em que nem o seu alter ego é capaz de fazer com que a justiça seja realizada. Lançada no ano de 2005, a HQ é escrita por David Hine e ilustrada por Michael Gaydos, contando com 6 edições. No Brasil, a editora Panini foi a responsável pela publicação, mas no momento o quadrinho se encontra fora de catálogo.

A história começa com o brutal assassinato de uma criança, na pequena cidade de Redemption, (Redenção, em inglês). Seu corpo foi mutilado, seus genitais cortados e diversas marcas de agressões percorrem sua pele. Os principais suspeitos? Joel, Saul e Adrienne, jovens habitantes da cidadezinha que são tidos como “satanistas“. Os moradores, muito apegados à religião, não aceitavam o comportamento tido como desviante dos três amigos, que escutavam heavy metal, se vestiam de preto e não compartilhavam de crença religiosa. Em decorrência dessas características, logo viraram o foco da investigação, acusados de matar a criança em um ritual demoníaco.
Desesperada, Emily, mãe de Joel, vai até Nova York em busca de Matt, vendo no advogado a chance de provar a inocência do filho. Através da convicção da senhora, somos apresentados a elementos que serão essenciais no decorrer da trama: Emily garante que a polícia está armando para acusar injustamente os três jovens, e que o fato de não serem bem vistos pela comunidade é um fator que agrava ainda mais a situação. Convencido de que a mãe estava falando a verdade e que genuinamente acreditava na bondade do filho, Matt resolve assumir o caso, partindo para Redemption junto com Constance, a estagiária que trabalhava no escritório.
É a partir da chegada de Murdock na cidade que o primoroso desenrolar da trama se inicia. Vemos, através dos olhos do excelente advogado, todos os crassos erros cometidos durante a investigação e o interrogatório dos acusados. Os jovens já são tidos automaticamente como culpados e ninguém além de Matt, Constance e Emily acredita na inocência dos mesmos. A polícia local não está interessada em realmente apurar os fatos e solucionar o assassinato, mas sim em prender e condenar quem eles acham, apenas por puro preconceito, que são os responsáveis pelo crime.
O que torna todo esse enredo ainda mais coeso e incrivelmente bem desenvolvido é, justamente, a forma como os personagens são apresentados e utilizados na história. Podemos iniciar falado sobre Emily: sua aparência demonstra um cansaço e uma tristeza que vêm sendo acumulados há anos. Mesmo diante de um passado muito sofrido e que abalou de forma irreversível o seu psicológico, a senhora ainda mantém uma fé inabalável, lutando até o fim para que seu filho seja absolvido.
Constance, a estagiária no escritório de Foggy e Matt, também é uma personagem muito interessante. É ela, inclusive, quem descobre uma evidência muito importante ao analisar as fotos da autópsia do menino. Vemos que, mesmo não sendo ainda uma advogada, a moça possui um sendo investigativo e argumentativo inerente à profissão. Além disso, ao ser questionada por Murdock a respeito do que pensa sobre o Demolidor, nos proporciona uma reflexão que deveria ser posta em todo quadrinho de herói:
“Acredito no sistema judiciário do país. Justiceiros são antidemocráticos e desnecessários. (…) Se o sistema judiciário é falho, você não deve ignorá-lo, e sim consertá-lo”.
Temos, também, um personagem que poderia ser facilmente previsível se abordado da maneira errada: Howard, o pai do menino assassinado. Desde o início da história, sentimos que algo de muito estranho o cerca, e Matt tem certeza de que o mesmo é o culpado pelo crime. No entanto, mesmo com a forte convicção de Murdock, os fatos só se esclarecem definitivamente no final da trama, mantendo a nossa atenção em todos os detalhes possíveis.
Howard é o típico “cidadão de bem”. Extremamente religioso, o homem é querido pela comunidade e passa longe do radar de suspeitos do homicídio. Porém, quando ninguém está olhando, agride a esposa e o filho, sendo profundamente violento e usando a fé como desculpa para o comportamento abusivo.
O que mais me surpreendeu na HQ foi a (muito) acertada decisão em focar no lado jurídico de Matt Murdock. Em razão de estar trabalhando como advogado em uma cidade que não é a sua, Matt não consegue – e nem pode – fazer do Demolidor o seu recurso principal. Mesmo utilizando seu uniforme em aparições bem específicas, o risco de ser pego ou mesmo das pessoas acabarem fazendo uma ligação entre os dois é enorme e isso só prejudicaria o caso. Quando aparece vestido como o herói, a população de Redemption o escorraça, fazendo ele sentir ainda mais como o caminho para a justiça é intrincado.
Mesmo com todo o seu esforço e habilidade jurídica, Matt encontra uma barreira instransponível no diálogo com os moradores da cidade e com os próprios responsáveis pelo cumprimento da lei. O fanatismo religioso e a intolerância estão tão enraizados na população que ela sequer é capaz de perceber o erro que está cometendo ao, no mínimo, privar os jovens de um processo legal justo. O desespero dos acusados se mistura com a sensação dos personagens estarem correndo contra o tempo para que, até a data do julgamento, tenham encontrado uma maneira de abrir os olhos de pessoas tão estreitas.
No início da história, vemos um importante diálogo entre Matt e Constance. Ao questionar seu chefe sobre o motivo de ter insistido na defesa de um caso em que o réu era nitidamente culpado de um crime financeiro, Matt explica algo que as pessoas tem dificuldade de entender até hoje: há casos e casos, e um delito não é igual ao outro. Ao decidir aceitar o caso de Joel, Foggy lhe faz o mesmo questionamento, não entendendo o que motiva o amigo a escolher uma defesa tão difícil.
“Na maior parte do tempo, um advogado lida com áreas nebulosas. O absolutamente certo contra o absolutamente errado não aparece com muita frequência”. – Matt Murdock
O diferencial do caso de Redemption é que, nessa circunstância, não existe uma zona nebulosa: ou Joel é inocente ou é culpado. Se o jovem realmente tiver cometido o crime, Matt irá perder no tribunal e, segundo suas próprias palavras, poderá viver com isso. Agora, se o rapaz for inocente e, em razão de uma defesa falha e insuficiente, for condenado, Murdock não conseguirá carregar essa culpa consigo. Nesse momento, vemos a essência do Demolidor agindo em sua máxima potência, não aceitando que uma pessoa seja presa por um delito que não cometeu.
Não pretendo contar aqui o final da obra, e vou fazer o possível para evitar qualquer tipo de spoiler que possa estragar a experiência de quem se interessar a ler. No entanto, me vejo obrigada a fazer uma importante consideração: “Redenção” é, acima de tudo, um retrato cirúrgico dos constantes erros cometidos em decisões criminais. No caso em tela, a pena para os jovens seria a “cadeira elétrica”, método utilizado para cumprir a sentença de pena de morte em algumas partes dos Estados Unidos. Posso afirmar, com toda a sinceridade que disponho, que sempre fui veemente contra execução, e esse sentimento só foi ainda mais aflorado durante a leitura do quadrinho Vemos, claramente, o peso que uma decisão dessas carrega consigo, sendo literalmente a responsável por abreviar uma vida humana na ínfima desculpa de ser um “castigo” necessário.
O valor que Matt enxerga na vida humana faz com que ele lute, seja como advogado ou como Demolidor, para que a justiça sempre seja cumprida. Assim como nem sempre conseguimos alcançar aquilo que almejamos, Murdock encara o grande desafio de seguir em frente após lidar com mais uma decepção em sua vida jurídica e, consequentemente, pessoal. Mesmo após anos e anos na profissão, seja a da advocacia ou a de vigilante, Matt ainda possui o mesmo sentimento de esperança que mencionei no primeiro parágrafo deste texto, e tem em mente que só irá conseguir mudar o sistema se continuar tentando.