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Enquanto Pennywise se tornou um dos monstros mais famosos e assustadores do universo criado por Stephen King, existem figuras positivas também. Quem assistiu os primeiros episódios de It: Bem-Vindos a Derry, série que se passa 27 anos antes dos eventos do filme de 2017, deve ter percebido que existem vários elementos visuais que mostram uma tartaruga:

Acontece que esta figura acima representa Maturin, a tartaruga cósmica. Uma personagem que consegue sintetizar a estranheza e a profundidade do Kingverso, mostrando a singularidade desta tapeçaria literária onde o horror, a fantasia e o metafísico convivem num mesmo tabuleiro.
Onde Maturin está presente?

Maturin surge nas obras “IT: A Coisa” e “A Torre Negra”, mas seu alcance é maior. O personagem é uma entidade tão antiga que antecede a própria criação do universo, posicionado por King como parte essencial do “Macroverso”, o espaço infinito onde existiriam todas as forças primordiais do escritor. Na lógica quase mitológica do autor, foi Maturin quem concebeu o nosso universo, não por escolha, mas por acaso: num acesso de enjoo, ele vomitou a criação. É um mito tão absurdo que acaba funcionando, justamente porque King entende que cosmogonias sempre têm um toque de delírio.
A tartaruga representa ordem, compaixão e sabedoria, sendo a contraparte direta de Pennywise, o predador cósmico que incorpora caos, fome e destruição. Na cosmologia de King, o palhaço não é apenas um monstro de Derry; é uma entidade tão antiga quanto Maturin. Eles se tratam como “irmãos”, não por laços familiares, mas por compartilharem a mesma origem pré-existencial. Se Maturin cria, IT destrói. Se uma força estabiliza, a outra corrói. É o tipo de dualidade que King usa para ancorar o absurdo dentro de uma lógica quase religiosa.
Além disso, Maturin e a Coisa teriam sido criadas por uma entidade que já existia no Macroverso, na verdade, o criador supremo do multiverso, uma entidade chamada Gan, que acaba se manifestando como a Torre Negra nas obras de Stephen King.

Apesar de sua natureza divina, Maturin não age com a grandiosidade que se esperaria de um criador. Ele é apresentado como um ser gentil, introspectivo e até recluso, alguém que prefere permanecer dentro de sua concha cósmica, observando mais do que intervindo. Ainda assim, quando o equilíbrio é ameaçado, a tartaruga se mexe. Em “IT”, Maturin orienta Bill Denbrough e o Clube dos Perdedores durante o Ritual de Chüd, permitindo que o garoto tenha um vislumbre do Macroverso. Ele não luta por eles, mas oferece o conhecimento necessário para que enfrentem Pennywise. É mentor, não guerreiro.
A importância da tartaruga cresce ainda mais em “A Torre Negra”, onde King revela que Maturin é um dos Doze Guardiões dos Feixes. Os Feixes são estruturas místicas que sustentam a própria Torre Negra, o eixo central que conecta todas as realidades criadas por King. Cada Feixe tem um guardião animal, e Maturin, ao lado do lendário Urso Shardik, está entre os mais poderosos. Aqui, a tartaruga deixa de ser apenas uma força moral e passa a ocupar posição arquitetônica na sustentação do multiverso. Sem ela, não há Torre. Sem Torre, não há realidade.

Curiosamente, Maturin é muito citado, pouco visto. A criatura tem importância monumental, mas atua quase sempre à distância. Nas versões cinematográficas de “IT”, suas aparições diretas não existem, mas referências simbólicas são abundantes. O público atento encontra tartarugas em brinquedos, diálogos, desenhos, e até o talismã em forma de tartaruga dado a Lilly no primeiro episódio funciona como prenúncio e como metáfora: Maturin é sorte, proteção e lembrança daquilo que resiste ao horror.
No romance, Pennywise afirma que a tartaruga está morta quando os Perdedores voltam para enfrentá-lo como adultos. Bill testemunha o cadáver cósmico, um momento estranho e profundamente melancólico. O criador do universo, silencioso e sábio, teria sucumbido ao próprio peso da eternidade. E, ainda assim, sua presença ecoa, como um mito, como uma força simbólica e como fundamento do multiverso.
Qual a inspiração de Maturin?

De acordo com sites dedicados às obras de Stephen King, o autor teria se inspirado nas culturas indígenas, onde as tartarugas são um símbolo importante que representam identidade, autonomia, conexão cultural e respeito ao meio ambiente. Para outros povos, elas representam longevidade, proteção, cura, transformação e a própria terra. A imagem de uma tartaruga carregando o mundo nas costas aparece em várias tradições indígenas, inclusive na história da Ilha da Tartruga, onde o animal também é visto como o centro da criação, tal como nos livros de King.
Quanto ao nome, acredita-se que seja uma referência ao personagem Stephen Maturin, que aparece nos romances de Aubrey-Maturin, escritos por Patrick O’Brian. Nos livros, ele é um físico, naturalista e espião, que chega a descobrir uma nova espécie de tartaruga, que é batizada de “Testudo Aubreii” em homenagem ao seu amigo Jack Aubrey. Os personagens aparecem no filme “Mestre dos Mares: O Lado Mais Distante do Mundo” de 2003. No Brasil, os livros foram publicados pela editora BestBolso.






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