O Demolidor sempre foi um dos meus personagens favoritos. Quando criança, o fato de Matt Murdock ser cego e mesmo assim conseguir “enxergar” era algo que me fascinava muito, e que até hoje me deslumbra. Conforme fui ficando mais velha e, consequentemente, captando melhor os subtextos que os quadrinhos passavam, comecei a admirar o demônio de Hell’s Kitchen por outras habilidades além de seus super poderes. Como um excelente advogado, Matt possuía um ímpeto de justiça e uma moralidade realmente dignos de um herói, tendo um caráter que servia como bússola para a realização de todas as suas ações.

No âmbito jurídico, percebemos que a linha entre a real aplicação das leis e a completa desigualdade é muito, mas muito tênue. Matt percebe, luta, combate, mas nem sempre vence. Nesse ponto, e não posso negar que em partes acho uma solução válida, o Demolidor entra para suprir as lacunas que a juridicidade falha em preencher.
Antes de entrar de cabeça na história deste texto, me vejo no papel de dizer que foi, graças à Frank Miller, que hoje temos a muito bem construída psicologia do personagem, esta que foi muito bem explorada durante os anos em que o roteirista esteve à frente do título. Além das edições mensais, Miller foi o responsável por grandes clássicos do demônio, tais como “O Homem Sem Medo” (sendo um “Ano Um” do Demolidor) e a magnífica “A Queda de Murdock“. Em uma ótima pedida, a editora Panini trouxe para o Brasil 3 encadernados que compilam todas as histórias do roteirista juntamente com Klaus Janson entre os anos de 1979 e 1983 (Daredevil 158 à 191, com adição de duas edições de Peter Parker: The Spectacular Spider Man e uma What If…), sendo uma leitura obrigatória para aqueles que gostam do personagem.
Publicada inicialmente em Daredevil #191, Miller se encarrega do roteiro e da arte de uma das histórias mais fantásticas que eu já tive o prazer de ler. Nos mostrando um Matt completamente devastado pela morte de sua amada Elektra (ocorrida na edição 181), este vai ao encontro do responsável pelo assassinato, o Mercenário. Fazendo uso de um revólver, o herói nos surpreende ao resolver jogar com o vilão o jogo que dá nome a história: roleta-russa.

Para entendermos melhor a história, é importante lembrarmos que, após assassinar Elektra, Mercenário e Demolidor entram em um árduo combate, este que acaba com o vilão gravemente ferido e paralítico. Em uma cena carregada de significado, vemos Matt segurando o assassino por uma mão, única coisa o impedia de cair do alto de um fio. Nesta hora, somos automaticamente transportados para a edição nº 169 onde, em um súbito momento de clareza, nosso herói resolve resgatar seu sórdido oponente dos trilhos de um trem. Matt soube, no momento em que salvou a vida do Mercenário, que esta decisão acarretaria, mesmo que indiretamente, a morte de muitas outras. O erro, na visão de Murdock, não deveria ser repetido, e o mesmo acaba por soltar a mão daquele que lhe causara tanta dor.

E é, com o Demolidor apontando uma arma para um Mercenário paralisado em uma cama de hospital, que a nossa história começa. Logo de início já somos submetidos a uma afirmação extremamente importante. Ao segurar o revólver em suas mãos, Matt sabe que a única função daquela peça é, embora muitos digam o contrário, matar. A forma como Miller desenha a cena é sublime, nos fazendo sentir o pânico apenas focando nos olhos do vilão. Sem poder falar uma única palavra e nem mexer um único músculo, Mercenário se encontra impotente e a mercê das ações de seu oponente.

Contudo, não é exatamente pela morte de sua amada que Matt resolveu visitar o assassino… Ao contar a real motivação de sua visita, somos apresentados ao que vem a ser a grande discussão que quero trazer com este artigo: até onde o papel auto imposto pelos vigilantes mascarados faz bem à sociedade?
Nosso raciocínio tem início em um caso aceito por Murdock. Ao visitar seu mais novo cliente, o advogado percebe que Chucky, o filho do homem é um enorme admirador do Demolidor. Assistindo diversas vezes uma luta entre o herói e o Mercenário, o garoto vê no defensor uma figura ilibada, um pilar idôneo de virtudes inabaláveis. O enaltecimento da figura do Demolidor por parte do menino se mostra plausível justamente pela relação que o mesmo tem com o pai: um homem muito rígido que não demonstra maiores emoções pelo jovem.

Com o intuito de tentar entender o motivo de ser tão querido pelo menino, o Demolidor resolve lhe fazer uma visita na escola e levá-lo para um breve passeio. No entanto, ao terem uma conversa, acaba descobrindo que não estava sendo exatamente um exemplo de conduta para o jovem. Em decorrência da rigidez com que era tratado pelo pai, Chucky via no herói alguém que, além de se inspirar, era o detentor de suas próprias decisões. O problema, porém, era a ideia de que, ao contrário de si mesmo, o Demolidor não precisaria seguir regras e apenas agia conforme achasse conveniente.
“Você é meu herói! Você é demais! Quando alguém se mete no seu caminho, você vai lá e… pow! Ninguém te diz o que fazer. Você é livre…”
O rumo de tamanha admiração se torna ainda mais tortuoso quando o Demolidor, ao seguir o pai do garoto para descobrir mais informações do caso em que estava trabalhando, descobre que seu cliente não era inocente, sendo responsável por um grande desvio de dinheiro. Para tornar os fatos ainda mais desoladores, Chucky vê o pai encurralado e sendo nocauteando pelo seu herói.

Desolado, sentimos que algo dentro do garoto quebrou. Ver seu próprio pai como um criminoso que deveria ser combatido pelo Demolidor o fez questionar sua própria bondade: afinal, se o pai era malvado, ele como filho deveria ser também. Vendo repetidamente o mesmo vídeo da luta entre o Mercenário e seu herói, o menino está a um passo de entrar em colapso. E não demora. Ao ouvir um comentário maldoso sobre a condenação de seu pai vindo de um colega de aula, o garoto sucumbe à raiva, saca um revólver e atira no menino.

Matt sabe, e neste ponto da história nós também sabemos, que suas ações como Demolidor podem ser facilmente deturpadas. No caso de Chucky, não se trata de uma deturpação por mal ou até mesmo consciente, mas sim em uma visão equivocada do papel que um herói exerce em uma sociedade. Tal papel, cabe destacar, já foi mais de uma vez questionado nas próprias histórias, tanto da Marvel como da DC. Em “Guerra Civil“, vemos a iniciativa de registro dos super heróis pelo governo e a criminalização dos vigilantes que atuavam de madeira clandestina. Em “Watchmen“, temos inclusive a célebre frase “quem vigia os vigilantes?“, nos trazendo à tona que a diferença entre um herói e alguém que utiliza da violência para agir conforme seus ideais é muito subjetiva.
De um lado, temos pessoas como Mercenário, indivíduos que nada se importam com o mal que causam aos outros, e que nem sempre conseguem ser atingidos pelo nosso sistema legal. De outro, temos os heróis como o Demolidor, sujeitos que percebem as injustiças e tentam corrigi-las, mesmo que a seu próprio modo. Talvez o que mais distinga um do outro seja, justamente, aquilo que consideramos como o fundamental para qualquer parâmetro de bondade: o apreço pela vida, de todos. Mesmo tendo o vilão em sua mira e podendo ceifar sua existência no momento que desejasse, Matt para. Há uma linha, e essa definitivamente não é tênue, que Murdock prometeu a si mesmo que jamais cruzaria. Sua arma não têm balas. Nunca terá.







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