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Antigamente, quando se queria assistir algum filme, série ou o que fosse que já estivesse fora do ar ou tirado de cartaz, ia-se até as vídeo-locadoras, dava-se uma olhada nas prateleiras, e locava-se até uns 5 filmes por vez, para dar conta da variedade de gostos da família.

O tempo passou e as locadoras foram oficialmente substituídas pelas locações on-line, mas todos sabem que o real precursor da erradicação das locadoras ao redor do mundo foram os torrents e downloads ilegais, e assim se prevaleceu por muito tempo até a era streaming.

Serviços como o Telecine Play e, principalmente o Netflix, conseguiram proporcionar ao consumidor uma plataforma dinâmica e em conta o suficiente para que deixassem a pirataria de lado, e aproveitassem do enorme catálogo disponível no serviço, porém, são tantas opções simultaneamente que fica difícil escolher um entre tantos. E foi pensando nisso que agora teremos essa nova série de artigos sobre o que há de melhor e mais imperdível na maior rede streaming da atualidade, o Netflix, e para começar com o pé direito, iremos falar de Amadeus.

Lançado em 1984 e dirigido pelo brilhante Milos Forman (Um Estranho no Ninho, O Mundo de Andy), Amadeus narra uma história fictícia baseada em fatos reais a respeito da suposta rixa entre os compositores Wolfgang Amadeus Mozart e Antonio Salieri, que viveram em Viena, na Áustria no mesmo período do século XVIII. Baseado na peça de mesmo nome, o filme usa das figuras históricas e da análise das composições de Mozart para desenvolver uma elegante, “seduzente”, assustadora e engajante história a respeito dos sentimentos humanos, em especial a paixão e a inveja.             

Narrado pelo ponto de vista de Salieri, interpretado brilhantemente por F. Murray Abraham, o acompanhamos desde o início de seu amor e anseio pela arte da música até o momento em que se depara com a figura de Mozart. Interpretado por Tom Hulce, o jovem e extravagante compositor, tem tudo o que Salieri sempre desejou: o total controle e domínio da música,  podendo criar obras extremamente complexas com uma facilidade inimaginável. Tal capacidade faz com que Salieri crie dentro de si um ódio corrosivo pelo jovem, o levando a tentar de tudo para vingar-se de Deus por ter dado tal poder a uma criatura tão banal e imatura quanto Wolfgang.

A começar pelo básico, a fotografia e reconstrução de época são impecáveis. O figurino elegante, as recriações de peças teatrais da época, o cinza escuro do asilo de Saliere do presente contrastado com todo o brilho e exuberância das cenas do passado, que gradualmente vão se tornando mais densas e sombrias com o decorrer da trama, tudo isso é apenas o ponto de partida para que a real genialidade da obra se desenvolva.

Como todo bom filme, Amadeus tem muitas camadas, e como todo excelente filme, todas as camadas não só funcionam como são extremamente bem desenvolvidas.

Na superfície, temos um drama cômico que consegue ser tenso e engraçado de maneira concisa e sem nunca pesar demais para um dos lados, uma história contada de maneira brilhante que consegue entreter ao mesmo tempo que transmite o sentimento de se estar vendo algo único. Mas, além de uma boa história, Amadeus também trata das obsessões humanas, os pequenos sentimentos que podem levar um homem a loucura e ao anseio por vingança.

A versão de Salieri dramatizada em Amadeus, é um dos personagens mais cativantes e complexos da história do audiovisual como um todo, seus sentimentos estão sempre divididos entre o ódio e a admiração que sente pelo concorrente.  Ele considera Mozart o portador da voz de Deus, a divindade em forma de música,  porém, sua frustração está no fato dele não ter sido o escolhido pelo Senhor para tal honra e talento. Todo esse sentimento é passado por Murray Abraham através de um minucioso trabalho de gestos e olhares quando o vemos já idoso no presente, e a imponência elegante que ele encarna no personagem nas cenas do passado, praticamente duas interpretações em uma, que acrescentam ainda mais camadas ao personagem.

Porém, o que eleva a obra a um status ainda maior, sendo que apenas o cinema poderia proporcionar os elementos necessários para que funcionasse como deveria, é a maneira que a música é utilizada. A alma do filme é a música, e isso é sempre ressaltado pelo diretor Milos Forman, que constantemente constrói suas montagens e sequências em cima das peças de Mozart, criando uma atmosfera absolutamente encantadora e que faz o espectador refletir em um outro nível a respeito do que está vendo. As descrições de Salieri a respeito do que está sendo escutado também ajudam na imersão do público na mente do compositor, nenhum outro filme até hoje conseguiu transmitir com tanta minúcia e verdade a beleza da música clássica quanto Amadeus.     

Portanto, se está em dúvida a respeito de qual filme escolher entre tantas opções, não perca mais tempo e escolha Amadeus, caso já tenha assistido, cada revisão traz novos detalhes à tona, deste que é indiscutivelmente, uma das mais brilhantes obras do cinema americano, vencedor de 6 Oscar, incluindo Melhor Filme, Direção e Melhor Ator, Amadeus é um filme obrigatório.

 



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