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Com a chegada de mais um mês, os assinantes da Netflix são tanto presenteados com novo conteúdo, quanto perdem várias outras obras, que são retiradas do catálogo.

Com isso, o “Obrigatórios da Netflix” dessa semana vêm com certa urgência; o clássico “Rocky Horror Picture Show” irá sair da plataforma, e aqui trazemos todos os motivos para que você pare tudo que está fazendo e corra para os braços dessa obra-prima!

Para aqueles que não estão familiarizados com cinema, ai vai uma pequena e interessante história. Em meados dos anos 50 e 60, a indústria cinematográfica estava a todo vapor; com a abrangência absurda do cinema na época, surgia cada vez mais demanda para filmes diferentes voltados para diferentes faixas de público (Tanto em idade, gênero e classe econômica). Por isso, surgiram inúmeros estúdios que se voltavam para a produção em massa e de baixo orçamento de obras genéricas (Principalmente de ficção científica e terror, que tinham um grande apelo na época), assim surgiram então, os famigerados filmes “Trash”.

Esses filmes eram voltados principalmente para o público jovem que ia mais para o cinema com o objetivo de paquerar alguém ou passar o tempo. Pela qualidade extremamente vagabunda das produções, elas eram exibidas em “Double Features”, que mais tarde também ganharam o nome de “Grindhouses”; quem eram cinemas em que se podia assistir dois filmes pelo preço de um ingresso, normalmente um de terror e outro de ficção científica ou exploitations.

Pulamos agora algumas décadas, para chegarmos aos anos de 1970, quando o ainda desconhecido Richard O’ Brien escreveu seu estranho e brilhante musical. Em Rocky Horror Picture Show a história narra a noite de núpcias dos recém-casados Brad Majors e Janet Weiss, que após um problema com seu carro no meio de uma tempestade, decidem procurar ajuda em um castelo assustador. Lá eles se deparam com uma alienígena travesti do planeta “Transsexual” da galáxia de “Transylvania”, Dr.Frank, que acabara de terminar sua mais nova invenção, um androide metrossexual. Brad e Janet são então levados a uma insana viagem de autodescobrimento sexual e bizarrices, tudo ao som de músicas catárticas e personagens excêntricos.

A pequena contextualização aqui dada ajuda bastante a entender todo o conceito do filme e também sua primeira música. “Science Fiction, Double Picture” é a primeira, e também a mais nonsense música do longa; mas é a canção perfeita para estabelecer todo o tom e atmosfera da obra. Nela, são citados inúmeros nomes célebres da cultura pop dos anos 50 e 60, como o título dos filmes “The Day the Earth Stood Still”, “Forbiden Planet” e “King Kong”, entre outras celebridades como “Janet Scott” e “Anne Francis”, tudo seguido pelos versos “In the late night… Double Feature… Picture Show…”.

O filme é um dos percussores do gênero “Nut”, que basicamente se trata de películas propositalmente bizarras, com baixo orçamento ou toscas, isto é, agradavelmente ruins ou desagradavelmente boas, mas há muita coisa genial para se admirar na produção.

Primeiramente, o conceito do filme. Toda aquela questão do “Double Features” é justamente o que dá a base da obra. O filme, de uma maneira irreverente, funciona como uma espécie de junção dos gêneros de “sci-fi trash” e “Terror trash” da época, Seu fator musical também não é gratuito, as décadas de 50-60 foram justamente marcadas pela ascensão do Rock N’ Roll, e o estilo das baladas de Chuck Berry, Elvis, Beatles, Lesley Gore, etc, está perceptível em todas as músicas do filme, com o acréscimo ainda de um tom psicodélico e de temas das músicas da época em que o filme foi feito.

Essa mistura do melhor do rock dos anos 50 e 60 com o melhor do rock dos anos 70 faz da trilha sonora de Rocky Horror uma das mais incríveis e catárticas da história do cinema, e perfeita para aqueles que costumam não gostar de musicais. Na realidade, não é raro encontrar inúmeros cinéfilos que dizem que odiavam musicais até assistirem Rocky Horror, isso porque em momento algum o filme se leva a sério e nem as músicas parecem estar preocupadas em contribuir para a trama, é como ouvir um disco de ópera rock de altíssima qualidade de uma banda como The Who, Beatles ou até Pink Floyd.

Nisso, o filme funciona como uma grande homenagem a cultura da época de 1950 e 1960, que também representou a era dos musicais Hollywoodianos como Mary Poppins e A Noviça Rebelde; isso, misturado ao cinema trash, misturado a ascensão do Rock N’ Roll, e tendo ainda, uma boa carga de ideias dos anos 70, como a filosofia de libertação sexual, que está presente em todo o filme.

Deixando os elementos trash de lado, é necessário apontar também a atuação de praticamente todo o elenco. Susan Saradon talvez tenha tido aqui o papel mais memorável de sua carreira, a atriz consegue, em uma troca de cena, transmitir inocência e fragilidade em um momento, e uma exaltada e estonteante sensualidade. Patricia Quinn também merece destaque, apesar de estar sempre a sombra de Riff Raff (Personagem interpretado pelo próprio Richard O’ Brian), a atriz consegue ter muita presença, e é bem provável que você  se foque nela sempre que a personagem aparece em cena, esquecendo-se de todo o resto. Mas o destaque máximo vai para Tim Curry, em seu papel de estreia no cinema (Apesar de já ter tido interpretado o mesmo personagem nas peças teatrais do musical feitas anteriormente), encarnando magistralmente o cativante Dr. Frank; todos os trejeitos femininos do personagem são interpretados perfeitamente, além de um ser exemplar do timing cômico, ainda consegue transmitir ameaça quando necessário.

O filme ainda mantém o status de “Rei dos filmes Cult”, sendo exibido até hoje nos cinemas underground americanos, onde os fãs do mundo todo vão para a “Double Feature” fantasiados de personagens da obra e cantam e dançam juntos todos os números do musical. Então, se você ainda não conhece essa peça única da sétima arte, não perca mais tempo! Do the time warp!!!



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