Comentários

Tempo estimado de leitura: 11 minutos

Algo que torna os jogos do Homem-Aranha da Insomniac tão interessantes, é como eles conseguem adaptar grandes histórias do escalador de paredes, misturando alguns arcos e reimaginando algumas ideias – dando origem a algo que é extremamente único mas ao mesmo tempo bastante reconhecível e recompensador para os fãs de quadrinhos.

Marvel’s Spider-Man 2 não foi exceção, e a Insomniac foi longe no game, buscando inspiração em vários lugares diferentes e conseguindo costurar essas histórias em uma trama coesa e que fez total sentido. No vídeo de hoje, abordamos quais foram essas histórias e de que forma elas impactaram o jogo.

Venom Ultimate

Para a criação de sua versão de Venom, a Insomniac olhou para várias histórias diferentes do personagem, e uma delas foi a do Venom Ultimate. E é possível encontrar vários resquícios desse quadrinho em Marvel’s Spider-Man 2.

Nas histórias do Homem-Aranha Ultimate, o Simbionte foi criado para curar o câncer e outras doenças, ao invés de ser um alienígena que Peter Parker encontra durante as Guerras Secretas. No game, ele ainda é um alienígena, mas o plot de ser usado como uma forma de tratamento permanece, afinal ele é usado pelo Doutor Curt Connors como uma forma de cura para a doença rara que acomete Harry Osborn.

E por falar em Harry e sua relação com Venom, isso também tem inspiração nos quadrinhos Ultimate. Não, Harry não se transforma em Venom por lá, e sim Eddie Brock. Porém, nessa versão, Peter e Eddie são amigos de infância que se reencontram após um tempo separados, e decidem trabalhar juntos para seguir em frente com o projeto de seus pais, o traje capaz de curar o câncer. Da mesma forma, no game, Peter e Harry trabalham para “curar o mundo”.

Na HQ, Peter acaba utilizando o traje e logo percebe o quanto ele é perigoso, decidindo destruí-lo. Isso deixa seu amigo Eddie com raiva, e ele acaba se expondo propositalmente ao simbionte e se tornando Venom. A Insomniac queria manter essa relação de amizade entre Peter e o hospedeiro de Venom, mas acharam que Harry Osborn cumpriria o papel muito melhor que Eddie. Curiosamente, Harry já havia se tornado Venom na série animada do Homem-Aranha Ultimate.

Carnificina Absoluta

Carnificina Absoluta é uma adição bastante recente à Marvel Comics, mas já vemos uma grande influência dessa história em Marvel’s Spider-Man 2. É claro, temos muitos diferenças óbvias, como o fato de termos Venom como o centro do problema, e não o Carnificiina. No entanto, uma influência é clara: um simbionte criando uma invasão alienígena na cidade de Nova York.

Na história, o Carnificina sombrio infectou Nova York, e qualquer um que entrar em contato com ele será transformado por uma semente de seu simbionte. A cidade está em caos total à medida que os simbiontes crescem em força e número. Nessa saga tempor até mesmo uma ressurreição da Grito, uma personagem simbionte que não aparecia há um bom tempo.

Algo semelhante acontece em Marvel’s Spider-Man 2, mas com Venom. Ao se juntar a Harry Osborn, o simbionte convence o rapaz que juntos podem finalmente “curar o mundo”. Sua ideia para fazer isso é infectar todas as pessoas do planeta com simbiontes, a começar por Nova York. Várias pessoas inocentes começam a se transformar pela cidade, criando um caos generalizado.

Ah, e assim como a HQ trouxe o retorno da simbionte Grito, também temos um aceno a isso no game. Porém, suas origens são um pouco diferentes. Grito surge quando Venom infecta Mary Jane Watson com um simbionte e joga para enfrentar o Homem-Aranha.

Rei das Trevas

A mitologia do Venom mudou para sempre com a introdução de Knull, o Deus dos Simbiontes. A influência de Knull está em toda parte, desde os poderes de Gorr, o Açougueiro de Deuses, até a criação de todos os simbiontes.

O aspecto mais notável de Knull do Marvel’s Spider-Man 2 vem da espiral vista no meteorito que veio com Venom para a Terra e nos rosto dos humanos que foram infectados por outros simbiontes. Knull é o rei da Mente Coletiva, e na saga “Rei das Trevas” ele retorna para promover sua conquista pela destruição e pelas trevas, exigindo a ajuda do Homem-Aranha e outros heróis da Marvel.

Como Marvel’s Spider-Man fez com que Venom tentasse “curar o mundo” com seu meteorito e uma infecção na cidade de Nova York, isso talvez seja a pedido de Knull. O jogo cita várias vezes a Mente Coletiva e foca bastante na espiral. A espiral significa que os simbiontes estão sob o comando de Knull, então será que de alguma forma ele incentivou os atos do Venom no game? De qualquer forma, temos claras inspirações dessa história no jogo da Insomniac.

Rei das Trevas foi o grande clímax nos quadrinhos de toda uma nova mitologia que o escritor Donny Cates criou para o Venom, despertando todo o potencial do simbionte. Inclusive, algumas cenas foram diretamente retiradas dos quadrinhos, como as asas vermelhas de Venom. Aliás, recentemente Donny Cates reagiu em uma rede social por não ter sido sequer creditado no game.

A Última Caçada de Kraven

Uma das referências mais óbvias das histórias em quadrinhos do Homem-Aranha, obviamente, é A Última Caçada de Kraven, de J.M. DeMatteis e Mike Zeck. Na trama, a obsessão de Kraven, o Caçador, toma proporções absurdas quando o vilão consegue abater o Aranha com um dardo tranquilizante e o enterra vivo, enquanto usa o seu uniforme e sai pela cidade caçando os criminosos em seu lugar.

A ideia do vilão é ser um só com sua presa, colocando-se em seu lugar e agindo como ele. Além disso, Kraven quer ser um Aranha muito melhor que o original. A HQ possui um final marcante e surpreendente com a morte de Kraven. Quando finalmente se sente completo por ter vencido o Homem-Aranha, Kraven promete que nunca mais irá caçar novamente e tira a própria vida.

O game da Insomniac adapta essa história de forma brilhante, fazendo com que Kraven também esteja em busca de sua “última caçada”. Porém, os motivos são diferentes: no game, Kraven está doente, acometido por um câncer em estágio terminal, e se recusa a morrer assim. Ele quer encontrar uma presa digna, alguém que o supere e acabe com ele em uma caçada. Após caçar e matar vários dos inimigos do Homem-Aranha, que não se mostram dignos, ele finalmente acaba dando de cara com Venom – e fica obcecado.

A cereja do bolo dessa adaptação é que, na época em que A Última Caçada de Kraven foi publicada nos quadrinhos, o Homem-Aranha estava usando o traje negro – embora fosse uma versão feita de pano, pois ele já havia se livrado do simbionte. Assim mesclar esses dois arcos importantes do herói aracnídeo – Kraven e Simbionte – em apenas uma história, foi simplesmente brilhante.

Anti-Venom

Embora seja apenas uma edição normal nos quadrinhos, Amazing Spider-Man #569 é conhecida por marcar a primeira aparição do Anti-Venom, e está claro como a Insomniac Games usou essa história em seu próprio jogo. As origens do Anti-Venom vem do mesmo homem que durante anos havia formado o anti-herói conhecido como Venom: Eddie Brock. Após descobrir que estava com um câncer terminal, Eddie teve uma certa clareza e decidiu se livrar do simbionte para viver uma vida normal.

Porém, Eddie estava perdendo a batalha para o câncer, e decidiu fazer algo de útil com sua vida no pouco tempo que lhe restava. Ele passa então a servir como voluntário no Centro F.E.S.T.A., um local que ajuda pessoas de rua, oferecendo comida e abrigo. O projeto foi idealizado pelo filantropo Martin Li, que também era, secretamente, o vilão Senhor Negativo.

É no Centro F.E.S.T.A. que Martin Li conhece Eddie Brock e decide usar seus poderes como Sr. Negativo para curá-lo de seu câncer. No entanto, sem o conhecimento de ambos, durante este processo, Martin Li desperta algumas das células de Venom adormecidas no corpo de Eddie e elas começam a se fundir em seus glóbulos brancos. Assim, surge um novo simbionte, o Anti-Venom, que é capaz de purificar e destruir os simbiontes tradicionais.

A Insomniac adaptou essa história em Marvel’s Spider-Man 2, mas usando Peter Parker no lugar de Eddie Brock. Assim como nos quadrinhos, Martin Li usa seus poderes para purificar os resquícios do simbionte que resistiram no corpo do Homem-Aranha, fazendo com que ele se torne o Anti-Venom desse universo.

A Sombra da Aranha

Hoje em dia, está praticamente enraizada na cultura popular a ideia de que quando Peter Parker usa o traje negro, suas emoções são corrompidas pelo simbionte, tornando-o mais violento, agressivo e arrogante. No entanto, o que nem todo mundo pode saber é que na verdade esse é um elemento que não existia na história original nos quadrinhos. A influência negativa do simbionte nos sentimentos de Parker foi algo acrescentado em outras mídias através dos anos, especialmente na série animada dos anos 90, e mais tarde replicada em Homem-Aranha 3, de Sam Raimi.

Sendo assim, na hora de adaptar a Saga do Traje Negro, a Insomniac acabou olhando para alguns quadrinhos que tiveram uma abordagem mais agressiva sobre essa história, como é o caso de “A Sombra da Aranha”, de Chip Zdarsky. Nessa história alternativa, Peter Parker nunca removeu o Simbionte, e ele eventualmente sucumbiria ao seu destino como Venom. A Sombra da Aranha mostra os terrores do Simbionte e o efeito que ele tem no estado mental de Peter Parker, seus poderes e o que isso causa em seus relacionamentos.

A luta contra a dependência desse poder cria uma história em quadrinhos horrível do Homem-Aranha que faz o herói sucumbir à influência de Venom e começar a assassinar seus vilões. Esta história em quadrinhos é claramente um ponto de referência para a Insomniac Games, pois Peter se torna mais agressivo quanto mais usa o Traje Negro, ao ponto de Venom tentar influenciá-lo a começar a matar. Além disso, assim como nessa HQ, o traje começa a sofrer uma variação visual, tornando-se muito mais alienígena e assustador.

Leia mais sobre Homem-Aranha:

Sou o Fundador do site Ovicio, Overplay e Muramasa. Fui idealizador e Game Designer do jogo Vencedor da DemoNight no BIG Festival 2014, o Jotunheim Project. Escolhido como Jurado do Anime Awards em 2024 e 2025. Amo games, sou fã de God of War, Dragon Quest, Fire Emblem, The Legend of Zelda e Pokémon. Coleciono livros, quadrinhos e guitarras.


Comentários