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Mesmo 73 anos após a publicação de Casino Royale e 64 anos desde que Sean Connery enfrentou o Satânico Dr. No, James Bond continua sendo um personagem magnético. Toda vez que o público ou a crítica presumem que o 007 se tornou anacrônico para o mundo moderno, voilà, ele se reinventa, consolidando-se como um dos heróis mais carismáticos e influentes da ficção. Mas por quê? O que faz a sua essência ser tão duradoura?

Para além do agente charmoso que se veste de forma impecável, pilota carros potentes — principalmente seu icônico Aston Martin — e salva o mundo de gênios do crime, James Bond possui algo que até escritores profissionais têm dificuldade de encontrar em suas criações. Assim como o Batman, ele se tornou um mito tão poderoso que provoca respostas fascinantes sempre que surge a pergunta: como o 007 resolveria essa situação?

007 First Light está aí com sua trama sobre IA para provar que o mundo ainda precisa do Sr. Bond, desta vez para compreender uma lição valiosa sobre a nossa própria humanidade.

O que define James Bond?

007 de Sean Connery
Reprodução/Amazon MGM

James Bond está longe de ser um herói infalível. Muito pelo contrário, o planejamento de suas missões quase nunca sai como o esperado. Ele sente medo, comete erros e passa longe do estereótipo de um soldado disciplinado — afinal, apesar de sua formação na Marinha britânica, ele simplesmente não segue ordens. Bond vive testando os limites da paciência de M e causando dores de cabeça ao MI6. Essas insubordinações geram crises profundas e, mais de uma vez, ele acabou afastado do programa 00. Ainda assim, ele sempre volta, frequentemente com mais prestígio e moral do que antes.

A verdade é que, se fôssemos seguir a cartilha à risca, Bond talvez seria considerado um desastre no mundo real. Ele costuma vencer seus confrontos na base do puro improviso e do desespero. Se precisar decolar em um foguete para escapar de uma emboscada, ele sairá apertando todos os botões que ver pela frente, pilotando a máquina sem ter a menor noção de como fará para retornar à Terra — esse é um problema para o Bond do futuro resolver.

Essa imprevisibilidade gera um senso de perigo real, consolidando-se como o arquétipo mais charmoso do personagem. Nunca sabemos o que esperar de uma missão porque nem o próprio Bond sabe. Ele descobre o próximo passo no calor do momento, junto com o público. O espião está sempre no limite, agindo pelo puro instinto da sobrevivência. E não há a menor chance de ele interromper uma investigação só porque M ordenou. Se Bond desconfia de algo, ele vai até o fim, movido por um senso crítico afiado e por suas próprias convicções.

Um instrumento cego, um dinossauro rebelde, uma bala sem alvo. Mesmo sendo o exato oposto do que se espera de um agente secreto ideal, o Reino Unido o mantém por perto por uma razão simples. No fim das contas, só James Bond é capaz de resolver os problemas de James Bond.

Honestamente, é questionável se o verdadeiro propósito de vida de James Bond é proteger os interesses de Sua Majestade. Essa missão parece, na verdade, uma desculpa conveniente para preencher seu vazio existencial no ápice de um caos controlado — uma dinâmica muito próxima à de Heat (Fogo Contra Fogo). O que realmente define o 007 é sua força de vontade de agir, mesmo quando todos os sinais o obrigam a parar. Ele sempre confia no próprio julgamento. Nem sempre está certo e quebra a cara frequentemente por isso, mas seguir os seus instintos é algo inegociável.

O que isso tem a nos falar sobre o mundo de hoje?

Bond de First Light
Reprodução/IO Interactive

Com os avanços da Inteligência Artificial, há um temor generalizado de que o mundo enfrente uma crise criativa e de empregos, já que as grandes corporações não têm compromisso com a verdade ou com a qualidade da arte — apenas com o lucro. Bem, esse cenário já é realidade no jornalismo, especialmente no de nicho. Basta olhar para a quantidade de redações humanas que foram fechadas nos últimos dois anos.

Muito antes de eu pensar em ser jornalista, já ouvia dizer que o jornalismo havia morrido. Essa foi uma frase que li com frequência agora nas críticas de O Diabo Veste Prada 2 (2026), mas, francamente, isso não é verdade. O jornalismo real nunca vai morrer, pois é uma profissão socialmente fundamental que depende, visceralmente, do fator humano para existir.

É o ser humano quem desconfia, quem vai atrás, quem provoca e quem insiste por respostas das fontes. Intuição e força de vontade são pilares indispensáveis para que esse trabalho seja feito. Agora, se o seu objetivo é ficar confortável, passando o expediente apenas reescrevendo releases e copiando notícias de terceiros, tenho uma péssima notícia para lhe dar.

Falo sobre o jornalismo porque é a área em que trabalho, mas isso se aplica a diversas outras profissões. O que define você como indivíduo? Existem problemas que só você é capaz de resolver? Há uma assinatura ou uma voz própria no seu trabalho? Você segue os seus instintos? Como tem exercitado a sua força de vontade?

Há dezenas, talvez centenas de influenciadores hoje promovendo pacotes de Inteligência Artificial. Bem, eles estão na deles, nada contra. No entanto, já tem gente demais oferecendo capacitação nessa nova tecnologia. Por isso, achei mais válido oferecer um empurrão para que você desenvolva o seu próprio lado humano e o seu senso crítico.

Não estou dizendo para você deixar de seguir ordens e viver no limite como James Bond — pelo amor, você não é o 007. Mas você precisa ter a força de vontade de confiar nos seus instintos e transformá-los na sua assinatura.

Hoje, em um mundo saturado de IAs, o mercado precisa do espírito de James Bond. Afinal, só James Bond é capaz de resolver os problemas de James Bond.

Leia mais sobre 007 e James Bond:

007 First Light, vale ressaltar, está disponível para PlayStation 5, Xbox Series X | S e PC. A versão do Nintendo Switch 2 chega mais tarde.

Um novo filme da franquia está em desenvolvimento neste momento. Denis Villeneuve (Duna) será o diretor e Steven Knight (Peaky Blinders) trabalha no roteiro.



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