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Jumper é uma das produções mais subestimadas dos anos 2000, e isso não é exagero. Ela tinha tudo para dar certo: um diretor experiente em ação, um astro recém-saído do universo de Star Wars, e um superpoder com o qual qualquer um sonharia — a habilidade de se teletransportar para qualquer lugar do mundo.
Além disso, trazia uma trama com potencial de se tornar uma grande saga. Mas algo deu errado. A crítica destruiu o filme, as possíveis sequências evaporaram, e Hollywood acabou empurrando tudo para debaixo do tapete. Mas será que Jumper foi realmente tão ruim quanto disseram? Ou será que apenas chegou na hora errada? No vídeo de hoje, analisamos o que deu errado.
Origem Literária
Jumper é um romance de ficção científica de 1992 escrito por Steven Gould, que conta a história de David Rice, um jovem que descobre ser um “Jumper”, pessoas com habilidade de teletransporte. O livro deu origem a três sequências, intituladas: Reflex, Impulse e Exo.

Em novembro de 2005, a New Regency Productions contratou o diretor Doug Liman (de A Identidade Bourne e Sr. e Sra. Smith) para dirigir a adaptação cinematográfica de Jumper. O roteirista Jim Uhls foi contratado para reescrever um roteiro adaptado por David S. Goyer, que escreveu também, dentre outras coisas, a trilogia do Batman de Christopher Nolan. Ou seja, como já deu para notar, a equipe envolvida no filme não era qualquer coisa.
O roteiro, no entanto, contou com algumas mudanças em relação ao livro, que foram aprovadas pelo autor, Steven Gould. A maioria dos personagens é apresentada de forma diferente, e o filme introduz outro Jumper, Griffin O’Conner. Também temos novo grupo, os Paladinos, que caçam e matam Jumpers, por motivos religiosos; o personagem Brian Cox, renomeado para Roland Cox, não é um agente da NSA como no livro, mas sim o líder dos Paladinos.
Elenco

Em abril de 2006, os atores Tom Sturridge, Teresa Palmer e Jamie Bell foram escalados para Jumper, com Sturridge no papel principal. No entanto, o ator só tinha 19 anos na ocasião, e o produtor Tom Rothman pediu ao diretor que escalasse alguém mais velho. Além disso, ele queria que pelo menos um dos três atores principais fosse um astro proeminente, então optou-se pela escalação de Hayden Christensen, que havia acabado de estrelar Star Wars: A Vingança dos Sith.
Curiosamente, o estúdio ainda pressionou para que Doug Liman escalasse o rapper Eminem para o papel principal, mas o diretor insistiu em escalar Christensen. Depois dessa troca no papel principal, Liman também substituiu Teresa Palmer por Rachel Bilson.
A Ideia das Sequências
Como estamos falando de uma série de quatro livros, obviamente sequências para o filme já estavam planejadas. O próprio Hayden Christensen refletiu sobre essa possibilidade em 2008: “Definitivamente, tudo foi planejado de forma a permitir mais filmes, e Doug teve o cuidado de criar personagens que tivessem espaço para crescer.”
O produtor Lucas Foster, durante a produção do filme, afirmou em uma entrevista: “As ideias ficaram tão grandes que realmente não cabiam em um ou dois filmes; elas precisavam se desenvolver ao longo de pelo menos três filmes. Então, planejamos a história para três filmes e a dividimos de forma a deixar espaço para os outros dois filmes.” Ou seja, realmente existia a ideia de uma trilogia.

O diretor Doug Liman falou sobre suas ideias para uma sequência. Entre elas, estavam a possibilidade de os Jumpers alcançarem outros planetas e viajarem no tempo, bem como sua capacidade de espionagem. Ele também afirmou que a personagem de Rachel Bilson aprenderia a saltar, assim como na sequência do livro, Reflex.
Mesmo antes da estreia, Liman tentou fazer do projeto algo maior. Um jogo original foi lançado para PlayStation com uma história expandida, e um quadrinho prelúdio mostrou como David descobriu seus poderes. Havia uma franquia sendo montada. Mas afinal, o que deu errado?
Os Problemas
Embora até aqui, tudo pareça a fórmula de um filme de sucesso, a verdade estava longe disso. O elenco parecia desconexo: Bell vinha de dramas pesados, Rachel da TV, Hayden de uma franquia contestada. E Doug Liman, por sua vez, já tinha fama de ser um diretor caótico. Improvisava no set, não usava storyboards e mudava cenas na hora, o que gerava muita tensão.
Hayden aguentou por um tempo, mas o clima ficou tão ruim que quase chegaram a brigar fisicamente. O diretor queria que ele fizesse todas as cenas de ação sem dublê, o que fez com que o ator ferisse a mão, cortasse a orelha e desenvolvesse uma pupila hiperdilatada que exigiu cuidados hospitalares durante a filmagem de várias cenas.

O caos tomou conta da produção. Liman já tinha fama de problemático desde Identidade Bourne, onde brigou com Matt Damon e foi demitido da sequência. Em Sr. e Sra. Smith, seu comportamento quase afundou o projeto. E com Jumper, ele não decepcionou. Em Roma, tentou filmar um plano aéreo no Coliseu sem permissão, escalando uma grua sem equipamentos de segurança e quase caindo.
Além disso, as filmagens internacionais foram um pesadelo logístico: gravaram no Canadá, Egito, Japão, Roma e Nova York. Em muitos lugares, filmaram clandestinamente, correndo contra o tempo antes de serem expulsos. No Egito, chegaram perto de serem banidos por filmarem perto demais da Esfinge.
O Fracasso
Mas o maior problema foi o coração da história. A obra original de Steven Gould é íntima e emocional, sem perseguições globais. O protagonista é um adolescente abusado pelo pai que, durante uma crise, descobre que pode se teletransportar, quase como uma resposta ao trauma. É uma história sobre fuga, superação e a tentativa de reconstruir a própria vida. A versão cinematográfica transformou esse garoto quebrado em um playboy que rouba bancos e vive como milionário. Em vez de drama psicológico, temos um blockbuster com explosões e perseguições.
Quando estreou em 2008, Jumper parecia ter tudo para ser o novo X-Men, mas os planos deram errado. A crítica detonou o roteiro desorganizado, os personagens sem desenvolvimento e os diálogos pobres. Os títulos de jornais não perdoaram: “Salta muito, mas não chega a lugar nenhum.”

Embora o filme tenha arrecadado mais de 220 milhões de dólares no mundo todo, com um orçamento de 85, a crítica não perdoou, e assim, a Fox não quis continuar. Eles queriam uma vaca leiteira com franquias, brinquedos, spin-offs e videogames. E por falar em marketing, esse foi outro desastre. Apesar da divulgação intensa, não sabiam a quem estavam vendendo o filme. Jovens? Adultos? Fãs de ação? Ficção científica? Romance? O público ficou confuso.
Doug Liman confessou anos depois que não conseguiu fazer o filme que queria. O roteiro foi reescrito 11 vezes pelos executivos. Ele teve que sacrificar seus planos por ordem do estúdio. E no final, Jumper virou um híbrido sem identidade: não era fiel ao livro, não era autoral, e não era uma franquia bem estruturada. Era um mosaico de decisões apressadas tentando agradar a todos — e falhando com todos.
A Série

No entanto, algo inusitado aconteceu. Quase uma década depois, estreou Impulse, uma série produzida por Doug Liman em 2018, exclusiva do YouTube Premium. Embora vendida como algo novo, ela é uma continuação espiritual direta de Jumper.
Ambientada no mesmo universo, com as mesmas regras de teletransporte, Impulse abandona os Paladinos e se aprofunda no drama psicológico. O poder não é libertador — é um peso. Mesmo com orçamento baixo e sem grandes nomes, a série teve duas temporadas e um encerramento digno. O próprio Steven Gould participou da produção e, dessa vez, conseguiu recuperar o tom original da sua obra.






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