Estimated reading time: 25 minutos
Não, a newsletter sem título do O Vício não vai a lugar algum. Você deve ter se espantado com a falta da nossa publicação tradicional de sábado, mas foi por um bom motivo. A décima primeira edição está inteiramente focada em Lanternas, e não poderia ser publicada antes do momento em que está sendo publicada, pois seu conteúdo estava sob embargo.
Esta é mais uma edição escrita e assinada inteiramente por mim (Ramon Vitor), e a primeira dedicada exclusivamente a uma única pauta. Espero que curtam o formato.
Antes de começarmos, gostaria de agradecer publicamente à HBO Max pela oportunidade concedida de participar da coletiva de imprensa de lançamento da série, visto que todo o conteúdo apresentado aqui baseia-se nela.
Além disso, fico feliz em anunciar que a partir de agora você finalmente pode assinar a nossa newsletter para recebê-la em seu e-mail de graça. A publicação ainda vai continuar no site, garantindo que você tenha acesso a todas as novidades onde preferir. Vamos lá:
No fundo, é uma história sobre dois homens

Super-heróis voam, explodem coisas, viajam entre planetas, saltam entre multiversos, mas esse tipo de pirotecnia não é nem de longe o que os torna tão especiais. Veja, o mais legal do Homem-Aranha é que, por trás daquela máscara, há apenas um menino tentando sobreviver a Nova York. Ele tem problemas com dinheiro, não consegue tempo para ter uma relação saudável com a garota de quem gosta, e está sempre atrasado para os compromissos civis porque a responsabilidade que vem com seus poderes exige que ele esteja sempre a postos para cumprir sua missão. De qualquer forma, ele nos inspira porque está sempre tentando ser melhor. É fácil se identificar com o Homem-Aranha.
Em um texto sobre a primeira temporada de X-Men ’97, eu já dizia que o que faz dos super-heróis mitos atemporais não é o que os torna deuses, mas o que os traz para perto de nós. E Lanternas, impulsionado pela filosofia criativa de seu principal roteirista, entende isso desde o dia zero. No fim das contas, é apenas uma história sobre dois homens. Todo o mistério, a atmosfera e a pirotecnia são acessórios para a construção disso.
“É tudo sobre os personagens e a humanidade deles“, declara o roteirista-chefe Damon Lindelof. “Estamos falando sobre anéis, planetas, alienígenas e toda essa coisa. Se você começa e abordar o material a partir desse ponto de vista, você está fazendo errado. O caminho certo é se perguntar: quem são esses caras? De onde eles vêm? O que o Hal quer? O que o John quer? Uma vez que entendemos isso e aplicamos aos elementos buddy cop, descobrimos uma espécie de história de amor e de respeito mútuo, onde um cara precisa do outro cara para avançar em sua história.“
A dualidade desses personagens parte de um conceito simples. É sobre um homem que carrega o peso de uma vida sendo considerado uma lenda e outro que sonha em alcançar esse posto, sendo confrontados em algum momento com o questionamento do propósito de tanta correria. Realmente vale a pena abrir mão da própria vida para ser um Lanterna Verde? O quão justo é quando isso não é uma escolha própria?
Você certamente já viveu uma fase em que questionou o propósito de tudo o que está fazendo. Eu já questionei se ainda valia a pena continuar fazendo o que faço, se estava vivendo um sonho ou destruindo a única vida que tenho. Isso é um conceito complexo para diabo. É uma dúvida que nasce de um medo natural da nossa própria mortalidade.
O grande benefício de Lanternas ser uma série é que a equipe criativa dispõe de um tempo raro para desenvolver a relação desses dois personagens. É tanto tempo que você passa com eles que eles se tornam seus amigos, e você consegue se ver neles em algum nível. Em um filme, por exemplo, seria muito mais difícil criar esse laço devido à necessidade de equilibrar ação e drama em apenas duas horas.
“A HBO nos deu muito tempo e teve muita paciência. Pudemos passar muito tempo com o John e muito tempo com o Hal, e conseguimos sentir a mortalidade do Hal por causa da maneira como o piloto termina. E então, tem essa ideia sobre alguém que está olhando em retrospectiva e se perguntando: Para que serviu tudo o que ele fez?“, detalha Lindelof.
Claro que aplicar esse tipo de drama de forma que a identificação seja global não é algo simples. Lanternas, no entanto, fez valer a vantagem que tinha por contar com uma sala de roteiristas repleta de diversidade. “Cruzamos diferentes pontos de vista da humanidade, de forma que fazia sentido para todo mundo. Todo mundo ouvia e aprendia coisas uns com os outros. É isso que uma sala de roteiristas é: o lugar onde descobrimos perspectivas diferentes e conseguimos compreender melhor as coisas.“, explica o showrunner Chris Mundy.
Enfim, qualquer ficção científica que se preze jamais conseguirá sucesso em suas alegorias se não se apoiar nas pessoas que estão em seu centro. O espetáculo não é nada se não houver uma aposta real dentro dele. Para Tom King, o responsável por criar esse conceito “pé no chão” da série, Lanternas sempre se tratou disso.
“Com os super-heróis vivendo nesse momento da cultura pop por quase 25 anos, os poderes e o espetáculo podem acabar virando apenas ruído em cima de ruído, a ponto de você nem conseguir mais ouvir“, explica Tom King, que divide os créditos de roteirista-chefe com Damon Lindelof. “É como assistir a Lawrence da Arábia. Se você olhar apenas para o deserto, não significa nada, mas se você olhar para o Omar Sharif naquele único camelo cruzando-o, de repente ele se torna vasto, grandioso e incrível.“
Um faroeste cósmico?

O conceito “pé no chão” de Lanternas não surgiu do vácuo. Os criadores buscaram uma série de referências, que vão desde o âmbito pessoal até a experiência na indústria. Tom King, por exemplo, escolheu Rushville, Nebraska, para ser a cidade onde a história se passa porque a avó dele era de uma cidade com esse nome, que também fica no estado.
“Ela me contava histórias dessa cidadezinha. Eu sou de Los Angeles, uma cidade interminável. E, nas histórias, Rushville era um lugar onde ela ia para a escola a cavalo, havia três pessoas na salinha de aula e todo mundo se conhecia. Para mim, aquilo era um planeta alienígena. Minha avó era uma pessoa maravilhosa. Colocar um pouquinho da magia dela na série foi de onde Rushville veio“, declara o co-criador da série.
Para além disso, o que motivou o roteirista a seguir em frente com essa história foi o fato de ter sido um grande amigo pessoal dos saudosos Neal Adams e Dennis O’Neil, os criadores de John Stewart.
“Neal foi um dos maiores artistas de todos os tempos nos quadrinhos, mas, além disso, ele era um verdadeiro rebelde, do tipo que dizia: ‘Precisamos de plano de saúde, precisamos receber’. Ele virou a mesa e falou: ‘Estamos olhando para esta indústria do jeito errado, vamos fazer diferente’. E foi esse o espírito que ele trouxe quando criou o John Stewart. Desde aquela primeira edição, quando ele chega lá e o Hal diz: ‘Você tem que usar uma máscara, sabe, você é só o meu substituto, você não é nada’, e o John simplesmente não aceita o mundo do jeito que ele é imposto — da mesma forma que o Neal não aceitava —, ele está virando as mesas e dizendo: ‘Não vou usar máscara, eu sei quem eu sou. Sou algo diferente de você e posso ser algo melhor do que você’. E então tudo isso remeteu aos quadrinhos e àqueles criadores originais que tanto me inspiraram.“, explica King.
Para Chris Mundy, que entrou nessa com a bagagem de ter sido produtor de True Detective: Terra Noturna, a inspiração maior veio de clássicos noir e de filmes buddy cop que ele ama. “Conversamos bastante sobre Onde os Fracos Não Têm Vez, justamente por causa do cenário, mas apenas em termos de geografia e senso de pressão. Também conversamos sobre coisas que não são exatamente sombrias, como Fuga à Meia-Noite, que traz aquela dinâmica entre Robert De Niro e Charles Grodin. Eles estão no mesmo barco, mesmo que um esteja sendo escoltado como prisioneiro. As tiradas são sempre engraçadas e, ainda assim, as apostas são sempre reais“, declara.
O showrunner continuou, revelando ter buscado referências inusitadas: “Conversamos também sobre Ghost. Houve momentos em que fomos longe demais. Conversamos sobre comédias românticas porque, de certa forma, a estrutura traz Hal e John começando separados, se apaixonando e se separando de novo. Sabe o que eu quero dizer? Tipo, tivemos bastante tempo livre na sala quando começamos, então fomos bem longe.“
Damon Lindelof, fã declarado dos quadrinhos do Lanterna Verde, compartilha das influências dos colegas de criação, mas sempre viu a série pela ótica de um faroeste das décadas de 1940 ou 1950, do tipo estrelado por John Wayne. “Há esse tipo de ideia arquetípica construída ali dentro, e conceitos sobre masculinidade que acho que tanto Hal quanto John herdaram de seus pais ou da cultura em que foram criados. Nós processamos esse tipo de história mítica através de pais e filhos, e acho que, na maior parte das vezes, os super-heróis passam por isso.“, diz o roteirista.
O roteirista-chefe concluiu: “Nós conversamos muito sobre histórias de pais e filhos. John e o Hal não são exatamente pai e filho. Eles se parecem mais com irmãos, pelo menos é assim que soa às vezes. Mas ambos estão processando essa relação super complicada com seus próprios pais em parceria um com o outro. E então eu acho que houve uma gama enorme em termos de todas essas conversas. Não há anéis, não há alienígenas, não há espaço, não há Guardiões. Aí você adiciona tudo isso por cima e faz com que a ficção científica — as coisas de gênero — sirvam de suporte para essas ideias.“
Pegando o gancho de Lindelof, a atriz Poorna Jagannathan — que interpreta uma personagem bem mais importante do que aparenta à primeira vista — testemunhou que, da sua perspectiva de quem não cresceu lendo quadrinhos e havia se afastado do gênero de super-heróis no cinema e na TV há anos, sentiu-se profundamente atraída pelo drama humano de Lanternas. Ela acredita genuinamente que a série terá sucesso em resgatar uma parcela do público descrente com o subgênero.
“Esta série é muito fiel e deliciosa para quem é fã, mas é também um convite potente para pessoas como eu, que não têm exposição a isso. Um convite para entrar no subgênero porque ela é intensamente relacionável e muito humana.“, declara Jagannathan.
A melhor versão do Hal Jordan

Quando Kyle Chandler foi anunciado como Hal Jordan, uma grande parcela da internet tirou as calças pela cabeça pelo simples fato de o premiado ator ter mais de 60 anos. De certo modo, isso deixou claro desde o início que ele não ficaria tanto tempo no papel. No entanto, deu uma liberdade enorme para que o ator e a equipe criativa gerassem uma versão de Hal Jordan que é a melhor do personagem em qualquer mídia.
Do meu ponto de vista, essa escalação é um milagre do nível de Robert Downey Jr. como Homem de Ferro. O Hal de Kyle carrega uma arrogância presunçosa que combina com a sua versão pré-Crepúsculo Esmeralda, ao mesmo tempo que adiciona o carisma sarcástico da era de Geoff Johns de uma forma que realmente funciona.
Não me leve a mal. Sou um grande fã da fase de Johns com o personagem, mas tenho uma opinião forte sobre como ele é um roteirista melhor em criar conceitos do que em executá-los. Seus textos quase sempre são mais rasos que um pires — e está tudo bem, isso funciona para os quadrinhos. Para a TV, no entanto, este Hal que carrega o peso de uma vida inteira precisava de mais. E Kyle, emulando o que para mim é a versão definitiva desse personagem nos quadrinhos (a de A Nova Fronteira, de Darwyn Cooke), trouxe um tempero com a sua própria personalidade que vai dificultar muito a vida de quem quiser fazer um recast de Hal no futuro.
“Foi uma grande vantagem [interpretar o Hal mais velho com 60 anos], porque há coisas que chegam com a sua idade e que você consegue, num projeto como este, aproveitar. Sabe, é como estar casado há 20 anos e interpretar um marido que tem dois filhos. Há coisas que você sabe e que mais ninguém vai saber. E então isso é muito divertido e, há muito humor em envelhecer que está bastante presente nesta série“, declara Kyle. “É muito importante mostrar a vida de pessoas mais velhas e essa cultura jovem que nós temos por aí.“
Para Hal, o drama de encarar a própria mortalidade é urgente — não porque ele tem medo de morrer (a série até sugere que ele aceitaria partir exercendo sua profissão), mas por compreender que, em algum momento, precisará deixar para trás aquilo que dá sentido à sua vida inteira. “Não há ninguém que vá escapar disso“, declara Mundy. “Há um momento na carreira em que pensamos: ‘Será que chegou a hora de abrir espaço para os próximos?’. À medida que essas histórias se desenvolvem e passam a fazer parte da nossa cultura, se aceitamos a premissa de que [no DCU] as pessoas são super-heróis para pagar as contas, essas questões se tornam reais.“
Carreira solo

Não se engane pelo gancho do final do piloto (tenho minhas próprias teorias de que aquela revelação sofrerá uma reviravolta mais adiante). Esta é uma história inteira sobre Hal e John, mas que termina com Hal passando definitivamente o anel adiante. São oito horas de conteúdo para consolidar Aaron Pierre como o bam-bam-bam da Tropa dos Lanternas Verdes no DCU.
Assim como a escalação de Kyle, a escolha de Aaron Pierre é um verdadeiro milagre. Para ele, é bem mais fácil criar a própria versão para John Stewart, uma vez que as únicas versões anteriores desse personagem que realmente carregam peso são as dos anos 1970 e 1980, além da clássica série animada de Bruce Timm. Na aclamada fase de Geoff Johns, esse Lanterna Verde tão interessante passa a maior parte do tempo funcionando como um mero NPC, o que é uma pena.
Mesmo não tendo sido tão favorecido pelos quadrinhos recentes, John permanece no imaginário popular como uma figura de enorme importância. Veja bem, eu só fui descobrir quem era Hal Jordan quando comecei a ler quadrinhos no final dos anos 2010. Até então, a versão da animação de Bruce Timm sempre foi O LANTERNA VERDE para mim. Esse é um efeito curioso da franquia. Dependendo da década em que você conheceu o herói, seu favorito pode variar entre nomes como Hal, John, Guy ou Kyle Rayner — que era o verdadeiro xodó dos leitores nos anos 1990.
Aaron dá vida a essa primeira versão live-action de John com uma elegância e firmeza ímpares. Mesmo na posição de aprendiz, ele transmite perfeitamente a sensação de ser o cara na sala que está com tudo sob controle — embora não seja indestrutível. A série apresenta uma origem inédita para ele, mas é muito fácil reconhecer traços das versões clássicas, especialmente a do desenho animado de Bruce Timm. Ele parece ter saído direto de Liga da Justiça Sem Limites.
O grande trunfo para o ator, no entanto, é compreender o peso da representatividade que o papel carrega. “Acho que John é alguém que nos permite nos sentir representados. Ele é alguém que nos permite nos sentir ouvidos, compreendidos, entendidos, respeitados, e é um privilégio imenso ter tido a oportunidade de interpretá-lo na primeira versão em live-action.“, declara Pierre.
O ator foi ainda mais fundo, explicando como entende que o personagem está o tempo todo se contendo: “O John é como um mar revolto internamente. Sabe? Externamente ele é um cavalheiro; ele é preciso, exato, intencional, justo. Mas internamente, ele é um mar revolto, ele é um tornado, ele é um vulcão. E eu uso a analogia de ir à casa de alguém e estar tudo impecável, mas você acha aquele único cômodo onde essa pessoa joga tudo dentro de qualquer jeito. É como se o inferno estivesse lá dentro. Eu já tive minha cota de aprendizado para dominar minha mente sóbria e aprender a navegar pelas minhas experiências como alguém que sente as coisas de forma muito intensa e profunda. Então, eu me sinto muito representado pelo John e estou pronto para fazer isso até não aguentar mais, para ser honesto.“, declara.
É interessante que Pierre esteja disposto a interpretar John por vários anos, porque é exatamente isso que está em curso. Ele voltará ao papel em Homem do Amanhã (2027), filme de James Gunn que marcará a estreia do personagem nos cinemas. Além disso, a 2ª temporada de Lanternas já está em desenvolvimento — embora ainda não tenha sido encomendada oficialmente pela HBO.
Havia uma teoria entre os fãs de que o título da série era Lanternas porque ela poderia se tornar uma antologia focada nos diferentes espectros do anel. Esse, no entanto, não parece ser o plano. Sim, a 1ª temporada conta uma história com começo, meio e fim, mas Garret Dillahunt, que interpreta o vilão William Macon, deu a entender fortemente na coletiva que o segundo ano será focado na carreira solo de John Stewart como Lanterna Verde.
“Eu acho que vocês vão ver esse rosto como John Stewart por muitos anos“, declara Dillahunt. “É só que… acho que o Lanterna Verde estava esperando por Aaron Pierre.“
Nada tem resposta, tudo tem resposta e acaba

Nem acredito que finalmente chegamos à estreia de Lanternas. Foram longos meses desde o anúncio do conceito da série, que, por ser mais “pé no chão“, incomodou muita gente. Foi um verdadeiro circo ver a comunidade de quadrinhos do Twitter e do YouTube tentar convencer todo mundo de que Damon Lindelof é um roteirista ruim. Bem, nem vou entrar no mérito da nojeira adolescente que destilam sobre Tom King que, goste-se ou não, é um dos grandes nomes de sua geração nos quadrinhos.
O envolvimento de Lindelof nesta série, para mim, foi uma vitória desde o começo. Não é apenas porque cresci vendo Lost e adorei Watchmen, mas porque ele escreveu uma das séries mais importantes da minha vida, que serve de verdadeira inspiração para tudo o que escrevo. E não é porque esta é uma edição especial de Lanternas que não teremos dica cultural. A de hoje é The Leftovers, a melhor série da HBO.
The Leftovers é uma obra sobre seguir em frente. A fé é uma questão central aqui, e o texto tem a habilidade de nunca deixar claro se o místico é real ou abstrato. Você precisa participar da história decidindo se acredita ou não, e em quê. O grande trunfo, porém, está na forma como a trama estabelece que todo o sentimento de ansiedade — seja por ambição, dor ou frustração — pode ser contornado assim que você percebe que tudo o que tem é o agora e as pessoas ao seu redor. O futuro você não tem, e o que já passou não existe mais. Não se trata de uma visão estilo viva la vida, mas de ligar menos para o entorno e mais para o que nos mantém humanos.
A trama nos apresenta a uma sociedade ferida por um desastre repentino. 2% da população mundial some sem qualquer explicação. Seria o arrebatamento? Eles simplesmente morreram? Ninguém sabe. Com o evento, o mundo se fragmenta, seitas são criadas e o papel da fé é questionado.
No centro de tudo está um casal. Uma mulher que perdeu tudo e está desesperada para acreditar em algo que a mantenha confortável, e um homem quebrado e cético, cujo foco é tentar sobreviver à própria cabeça um dia após o outro.
No final, há uma explicação sobre o porquê de os 2% sumirem e para onde foram. Você, no entanto, nunca vê como tudo aconteceu. Se realmente precisar da explicação, terá que ter fé nela. Se não precisar, todo o desastre ficará para trás e, como um dos personagens principais, você só vai querer continuar vivendo esses pequenos e divinos momentos da vida ao lado de quem ama.
The Leftovers é uma aplicação extrema desse método de Lindelof de focar primariamente nos personagens. Ouvindo-o falar sobre essa característica de Lanternas, fica claro o motivo de ser tão fácil gostar de Hal e John nesta história. Eles são pessoas reais.
Você pode assistir a todas as temporadas de The Leftovers na HBO Max.
Ranking dos episódios de Lanternas até agora

Eu assisti a quatro episódios de Lanternas até agora. O embargo está um pouco confuso para mim, que fui autorizado a publicar apenas a crítica completa do piloto. Mas, como a grande imprensa já está escrevendo análises completas, vou deixar por aqui pelo menos breves impressões de cada um, em um ranking do melhor para o “menos melhor”. Confira:
- Episódio 3
- Um episódio tão impactante quanto o do massacre de Tulsa em Watchmen (inclusive, tem o mesmo diretor). É bem pessoal também, porque lida com uma questão de pressão que, embora não na mesma escala, vivi na pele. Sei o que é ser produto de altas expectativas desde criança. Provavelmente vai sofrer review-bomb da turma do boné vermelho dos EUA e de uma parcela da comunidade de quadrinhos do Twitter, por causa da postura infantil deles em relação a Tom King (ele nem é o roteirista do episódio, mas vai sobrar para ele). O fandom do “visionário” também deve pegar carona nessa onda de negatividade tóxica. Mas, para este que vos escreve, é uma obra-prima.
- Episódio 4
- Em grande parte, é a preparação para a catarse do episódio 5. Este é o episódio mais atmosférico de todos os que já assisti. Há algo de profundamente errado em Rushville. Todo mundo está mentindo para todo mundo, escondendo muita coisa por ali — e isso vale até para Hal e John. Aqui o caldo entorna, e vemos o quão perspicaz Hal Jordan é como detetive. Os Lanternas Verdes não têm medo? Uma ova!
- Episódio 1
- O review está no ar. Episódio gostosinho e muito eficiente em preparar o terreno para a série.
- Episódio 2
- Tem a mesma pegada do primeiro. Como não traz nada de realmente novo, coloco mais abaixo. Algum precisava ficar em último.
Os próximos episódios

A 1ª temporada de Lanternas terá 8 episódios ao todo. Assim como o primeiro, os seguintes serão exibidos aos domingos na HBO e na HBO Max, às 22h (no horário de Brasília). Confira o calendário:
- Episódio 2 – 23 de agosto
- Episódio 3 – 30 de agosto
- Episódio 4 – 6 de setembro
- Episódio 5 – 13 de setembro
- Episódio 6 – 20 de setembro
- Episódio 7 – 27 de setembro
- Episódio 8 – 4 de outubro
Resumo rápido da semana

- Lanternas: 7 HQs para ler antes da estreia da série da DC Studios – Essa lista aqui ainda é importante!
- Lanternas pode adaptar o arco mais infame de Hal Jordan (e está tudo bem) – Eu ainda acho que estão seguindo por esse caminho, embora não de forma tão radical.
- Lanternas: Conheça todos os roteiristas da série da DC Studios – Damon Lindelof é quem mais escreveu para a série. Ele colabora em quatro dos oito episódios.
- Conheça todos os Lanternas Verdes da Terra – São 16 ao todo!
- Lanternas: Revelado o passado de Guy Gardner no DCU – Ele ainda vai demorar até chegar à série.
- Lanternas: Damon Lindelof diz como experiência de Tom King na CIA foi fundamental para a série – O co-criador de Lanternas é um roteirista de quadrinhos multipremiado, mas, antes disso, foi agente da divisão antiterrorismo da CIA e serviu aos EUA na Guerra do Iraque. Essa experiência real de guerra é uma clara influência em sua escrita, e é também o motivo de muitos pseudoleitores pegarem no pé dele. A posição de King quanto à Guerra do Iraque é muito clara em Xerife da Babilônia, uma das últimas grandes obras publicadas pelo antigo selo Vertigo — que, sabe-se lá por quê, nunca foi transformada em série pela HBO.
- Lanternas: Começa a Sala de Roteiristas da 2ª temporada – Chris Mundy segue como showrunner, mas Damon Lindelof e Tom King deixam a equipe para focar em outros projetos. O premiado roteirista de quadrinhos e TV Christopher Cantwell substitui os dois.
Aqui chega ao fim a décima primeira edição da newsletter sem título do O Vício. Antes de ir, certifique-se de seguir o nosso perfil no Google para receber as melhores notícias da cultura pop em primeira mão.






Comentários