Comentários

Estimated reading time: 13 minutos

A newsletter sem título do O Vício chegou à nona edição no dia do Homem-Aranha. Com Um Novo Dia (2026) pegando fogo nos cinemas, o foco vai para o herói com um ranking dos filmes favoritos da franquia e um desabafo sobre o grande problema com a versão do MCU.

Esta é mais uma edição escrita e assinada inteiramente por mim (Ramon Vitor). Vocês continuam dando um apoio fenomenal a esta publicação semanal. Muito obrigado.

Ainda nesta edição: Uma dica cultural de um dos melhores thrillers de todos os tempos e um aviso sobre nosso novo lar para conteúdos rápidos. Aproveite a newsletter:

A fórmula da irresponsabilidade

Crítica de Homem-Aranha: Um Novo Dia
Reprodução/Sony Pictures

Um Novo Dia (2026) teoricamente deveria ser o filme de um Homem-Aranha mais maduro, mas cai nas armadilhas da própria fórmula da franquia no meio do caminho. A mim, especificamente, frustra o fato de este ser o terceiro filme consecutivo em que o herói causa problemas para muita gente porque quer, de forma irresponsável e a qualquer custo, resolver um problema que é só dele.

No novo filme, Peter cria um inibidor mutante universal para conter a própria mutação e, de quebra, entrega a tecnologia de bandeja ao governo, ignorando múltiplos alertas de Bruce Banner e MJ de que ele estava mexendo com forças perigosas. Não seria uma má ideia ter o Homem-Aranha como uma espécie de Oppenheimer dos X-Men e vê-lo carregar essa culpa, caso a premissa não fosse construída sobre uma inconsequência tão repetitiva.

Vejamos: em Longe de Casa (2019), ele entrega a tecnologia Stark nas mãos de um estranho que fala bonito só porque queria curtir uma viagem com a namorada em paz, e isso causa o caos em Londres. Em Sem Volta Para Casa (2021), Peter provoca problemas no espaço-tempo porque queria que todos esquecessem a revelação de sua identidade secreta para poder ir para a faculdade com os amigos (sim, ele também estava pensando neles dessa vez, mas ninguém havia lhe pedido nada).

É verdade que todas essas tramas trazem um arco de redenção em que o Homem-Aranha se sacrifica para ajustar as coisas. O problema é que o drama sempre parte de um delírio egoísta que ignora o diálogo e o bom senso. E o pior: se isso ao menos servisse para o desenvolvimento contínuo do personagem, seria aceitável. No entanto, não serve. Filme após filme, ele repete exatamente o mesmo erro.

O Homem-Aranha não é um herói fundamentalmente egoísta, e certamente a equipe da Marvel Studios não comete esses vacilos de propósito. Parece mais o desleixo de quem produz cinema de forma industrial, aplicando a mesma fórmula repetidas vezes. Chris McKenna e Erik Sommers assinam o roteiro desta franquia há três filmes, o que tem muito a ver com a exigência de escrever rápido do jeito que os estúdios querem.

Repare como a estrutura é sempre a mesma: começa com Peter lidando com o trauma do filme anterior, algo que bagunça sua cabeça durante toda a projeção. Daí surge uma ameaça, ele se alia a um vilão que se passa por amigo, provoca um desastre (às vezes antes mesmo de confiar no vilão, como em Sem Volta Para Casa), a verdadeira face do antagonista é revelada e ele luta para desfazer o estrago que causou, sempre arcando com alguma consequência.

Na zona criativa, cair nessas armadilhas é mais comum do que parece. Tom Holland vai continuar no papel por anos. É importante fazer quem assina esses projetos enxergar esse vício, pois essa irresponsabilidade impulsiva não só destoa dos quadrinhos, como também contradiz a própria versão do personagem no MCU, que já se colocou à frente dos outros para cumprir seu dever heroico mais de uma vez.

Você jamais conseguirá fugir de si mesmo

O Comboio do Medo
Reprodução

Quatro criminosos de diferentes nacionalidades, foragidos no coração da América do Sul, sem nada mais a perder e carregados de culpa, aceitam um frete “suicida” de nitroglicerina para apagar um incêndio no meio da floresta. Eles acham que o risco vale pelo salário alto, que pode fazê-los fugir do passado. O passado, no entanto, sempre dá um jeito de encontrá-los.

Fatalista por natureza, O Comboio do Medo (1977) é tanto um noir quanto um dos melhores suspenses já produzidos. Além disso, é o melhor filme de caminhão de Hollywood.

Há algo aqui que o cinema comercial, e principalmente os thrillers modernos, têm dificuldade de entender, que é a paciência para colocar as cartas na mesa antes do começo do jogo.

Quando a jornada começa para valer, você já sabe exatamente o peso da partida. Demora uma hora para a viagem iniciar. Tempo o suficiente para que os personagens passem a fazer parte do seu ciclo. Para você entender que, assim com um está com o outro, você também está preso com eles. Agora, é preciso sobreviver juntos a essa travessia, que não será nada fácil.

William Friedkin é o mestre da agonia, e aqui ele vai às profundezas da mente humana, partindo da ideia de que a verdadeira justiça não está nos órgãos autoritários, mas do acerto de contas do homem consigo mesmo. Para os personagens, estar vivo e continuar preso à culpa é o mesmo que estar morto. E essa é a grande tragédia: aquele dinheiro nunca resolveria a vida daqueles condenados.

Não é tão fácil achar O Comboio do Medo para assistir, porque o filme foi um grande fracasso comercial e as distribuidoras fazem pouco esforço para mantê-lo vivo. Mas também não é tão difícil, pois a internet tem feito um trabalho excelente para preservar a memória desta obra-prima.

Lar das notícias rápidas

Reprodução/X

Já faz um tempo que a equipe do O Vício vem reformulando nossas redes sociais. Agora, o foco é transformar cada canal em um portal independente, que vai muito além de apenas divulgar os links do site. Se você quer acompanhar notícias e guias direto pelo feed para só depois conferir as matérias completas por aqui, vale a pena nos seguir no X/Twitter, no Instagram e no Threads. Essas plataformas serão o lar oficial do nosso conteúdo rápido e prático.

Ranking dos filmes do Cabeça de Teia

Reprodução/Sony Pictures

O quão bom Homem-Aranha: Um Novo Dia (2026) realmente é? Montei meu próprio ranking de filmes do Cabeça de Teia, e ele provavelmente vai dar o que falar, porque as pessoas estão muito emocionadas com o lançamento recente. Mas eu conheço a minha clientela. Daqui para o final do ano, talvez até discordem, achando que ele merecia uma posição mais baixa. Confira:

  1. Homem-Aranha 2 (2004)
    • O filme de super-herói definitivo, que jamais será alcançado por nenhum outro lançamento do subgênero. A trama fala sobre poderes, responsabilidades e um jovem que acaba de entrar na vida adulta, tendo de lidar com o fato de que a realidade não é como ele sonhou. Afinal, não se pode criar uma máscara para o mundo e outra para si. É a jornada de autodescoberta de Peter, transposta para a tela por um cineasta que, de tanto amar o cinema e a estética dos quadrinhos, criou uma lógica de decupagem que nenhum outro diretor conseguiu replicar até hoje nesse tipo de filme.
  2. Homem-Aranha: Através do Aranhaverso (2023)
    • Uma evolução artística do já fenomenal primeiro filme da franquia, sustentada pela desconstrução do determinismo trágico e pela imposição da empatia individual sobre o mito. Por que todo Homem-Aranha precisa ter uma história trágica? Realmente não há como lutar contra isso?
  3. Homem-Aranha no Aranhaverso (2018)
    • Uma expressão de arte genuína que, apesar de abraçar o multiverso, não se limita à autorreferência e se preocupa em perseguir as nuances do Homem-Aranha em seus mínimos detalhes. Miles, Peter, Gwen… Seja quem estiver por trás da máscara, há um preço e uma responsabilidade em ser o herói, e este filme vai fundo para descobrir qual é.
  4. Homem-Aranha (2002)
    • Tornou-se o grande modelo para filmes de origem, e até hoje as obras do subgênero sugam referências descaradamente de seus momentos icônicos — mas, claro, de forma muito menos talentosa do que Sam Raimi fez na época.
  5. Homem-Aranha 3 (2007)
    • Precisamos fazer justiça a Homem-Aranha 3. É um filme de super-herói que vai fundo na reflexão de que amar é estar disposto a recomeçar todos os dias, apesar de qualquer coisa. E isso não vale apenas para Peter e MJ. Falando especificamente sobre ela, nenhuma personagem feminina foi tão bem escrita em um filme do subgênero quanto a Mary Jane neste aqui. Sim, é verdade que ela é mais uma vez sequestrada e precisa ser salva por Peter e tal, mas não é sobre isso que estou escrevendo. Estou falando de mostrar que aquela mulher não é simplesmente a “garota do Homem-Aranha”. Ela tem os próprios sonhos, comete os próprios erros e possui uma vida que não gira necessariamente em volta do Cabeça de Teia. Em tempo: só a cena dela cantando na Broadway é melhor do que qualquer coisa produzida nos mais de trinta filmes do MCU.
  6. O Espetacular Homem-Aranha (2012)
    • Foi uma reinvenção divertida na época. Tem seu charme e lida com a ação de uma maneira física e autêntica que dá margem para Andrew Garfield fazer a sua bruxaria. Ele é o ator mais talentoso dos três Homens-Aranha.
  7. Homem-Aranha: Um Novo Dia (2026)
  8. Homem-Aranha: De Volta Para Casa (2017)
    • O único dos três filmes de Jon Watts que parece não ser feito inteiramente de plástico. Ele até é, mas disfarça tão bem que fez todo mundo acreditar que a franquia estava em boas mãos. Tem um Michael Keaton excelente como vilão e, além disso, cumpre perfeitamente o papel de trazer, pela primeira vez, uma estética adolescente eficiente para o Homem-Aranha. Uma ótima homenagem ao cinema de John Hughes.
  9. Homem-Aranha: Sem Volta Para Casa (2021)
    • O exemplo máximo do ciclo de validade dos filmes descartáveis do MCU, que, nas redes sociais, passou de “a melhor coisa já feita na história do cinema” a filme chato em poucas semanas. Se os longas anteriores já pareciam ser feitos de plástico, este — produzido durante o isolamento global de 2020 e forçado a abusar de cenários artificiais — é um verdadeiro show de horrores no aspecto visual. Mas a nostalgia funciona. Foi legal reencontrar Andrew e Tobey nos cinemas
  10. O Espetacular Homem-Aranha 2: A Ameaça de Electro (2014)
    • Cheio de boas intenções, mas com ideias péssimas. Visualmente, é muito superior a qualquer um dos filmes de Tom Holland, mas irrita pela forma como trata o público como idiota. Foi produzido em uma época em que a Sony não sabia exatamente o que queria fazer com a franquia, e isso transparece na tela.
  11. Homem-Aranha: Longe de Casa (2019)
    • Pior do que ser ruim, é um filme chato do Homem-Aranha. Se você não se esforçar, nem lembra que ele existe.

Destaques rápidos da semana

X-Men: Reboot terá Samara Weaving como Emma Frost
Reprodução

Aqui chega ao fim a nona edição da newsletter sem título do O Vício. Antes de ir, certifique-se de seguir o nosso perfil no Google para receber as melhores notícias da cultura pop em primeira mão.



Comentários