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Confesso que não estava dando muita bola para IT: Bem-Vindos a Derry quando a série foi anunciada, pois não acreditava ser possível tirar algo interessante do livro de Stephen King depois de adaptá-lo em dois filmes. No entanto, a abordagem dada por Andy, Barbara Muscihetti, Jason Fuchs e Brad Caleb Kane me surpreendeu muito positivamente.
Como escrevi no texto de primeiras impressões, a série é uma ópera do medo muito interessante, pois usa o sentimento como catalisador de todos os seus núcleos. A principal e mais interessante aplicação, contudo, é a do medo como uma arma.

Ao construir sua narrativa sobre o controle militar de uma criatura que manipula as fraquezas psicológicas, IT: Bem-Vindos a Derry faz um comentário social e histórico extremamente agudo. A série rapidamente se move da fantasia para a realidade, nos forçando a encarar como o medo é a tática de guerra mais antiga — e a mais eficiente.
O exército norte-americano quer controlar A Coisa, não por seu instinto assassino, mas pela forma como ela provoca os medos mais profundos de cada indivíduo.
Veja como o núcleo militar da série é cruel: eles não estão atrás de Pennywise para libertar Derry de sua maldição, mas para ter a criatura como uma aliada.
Não é nenhum spoiler dizer que isso vai dar muito errado, mas não deixa de ser interessante o fato da série discutir o medo sob essa ótica narrativa.
Olhe para o contexto global: não tivemos uma Guerra Mundial desde a década de 1940, em grande parte devido ao surgimento de potências nucleares.
Desde então, a estratégia dominante se tornou a Destruição Mútua Assegurada (MAD): basta que uma nação dispare uma dessas armas para que o risco de extinção se torne real. Por isso, os conflitos internacionais mudaram, passando a ser predominantemente psicológicos, com a manipulação do medo entre as nações como principal arma.

O medo sempre foi uma arma poderosa em disputas de interesses. Líderes usam os temores das pessoas para colocá-las umas contra as outras desde sempre. O desconhecido provoca medo, e por isso, para os manipuladores, é mais interessante manter as pessoas ignorantes.
Para perceber isso, basta lembrar de outros elementos mais básicos da trama, como a prisão injusta do projecionista do cinema de Derry, Hank Crogan. O caso é um claro ato de racismo, mas que só é executado porque o chefe de polícia local tem seu conforto ameaçado pelos locais.
Por mais nojento que o policial seja em suas ações, ele também é uma vítima da manipulação: age motivado pelo medo de perder o poder e a estabilidade que a cidade lhe garante.
Seja direta ou indiretamente, o material original de Stephen King é muito feliz em refletir essa ideia do medo como uma arma. A Coisa passa décadas em Derry porque a maior parte das pessoas resolve ignorá-la, e quem teve contato e sobreviveu sofre apagamentos de memória.
Os criadores e showrunners de IT: Bem-Vindos a Derry foram muito felizes em construir a trama da série sobre esse tema essencial do livro, pois essa abordagem não é apenas interessante, como também dialoga perfeitamente com o nosso tempo.

Pessoas de diferentes culturas e credos estão sendo violentamente polarizadas por terem seus medos manipulados, medos esses que são alimentados pela ignorância. Como o diálogo exige um esforço mútuo e racional que poucos estão dispostos a ceder, o que mais ressoa é a gritaria.
IT: Bem-Vindos a Derry demonstra que o maior horror deste universo de histórias não é Pennywise, mas sim a natureza humana que o sustenta. A série usa a criatura para expor a complexa tendência humana de ceder ao conforto egoísta.
Atenção: Este texto é baseado inteiramente na opinião de seu autor e não necessariamente reflete a opinião do site.






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