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Nova produção original da Netflix, “Mudo” está nos planos de Duncan Jones há muitos anos. Ele anunciou esta ideia ainda na época de divulgação de “Lunar”, em 2009, mas antes de executá-la, comprometeu-se com outras duas produções: o interessantíssimo “Contra o Tempo”, estrelado por Jake Gyllenhaal, e “Warcraft: O Primeiro Encontro de Dois Mundos”. Este último, seja lá o que tenha feito com o juízo de Jones, representou o começo de uma decadência no senso de narrativa e criação de personagens do cineasta, processo cujo desenvolvimento torna-se evidente em seu novo trabalho.

Escrito pelo próprio Jones em parceria com Michael Robert Johnson, “Mudo” converte uma simples jornada de salvador em uma história com ares de ficção científica ambientada em uma Berlim futurista. A audácia é protagonista por Leo (Alexander Skarsgård), um barman mudo que se vê desesperado quando sua namorada, Naadirah (Seyneb Saleh), desaparece. Para encontra-la, ele estuda seus últimos passos – e acaba adentrando no perigoso submundo da cidade, aprendendo detalhes escondidos sobre sua amada.

Não são necessários muitos minutos para compreender que a incapacidade do protagonista em produzir falas é uma alegoria para mostrar como ele é distante do resto da sociedade. Tímido, Leo se parece com uma pessoa que expressaria poucas palavras mesmo se fosse capaz de falar. O problema é que Skarsgård, apesar de esforçado para transmitir gestos gentis, não é bem o homem certo para interpretar um personagem assim: seria necessário um intérprete de expressões mais sutis e Alexander é, bem como seus irmãos e pai, dotado de um semblante mais grosseiro (abro espaço para esclarecer que este não é um problema; apenas uma característica). Esperar sutilidade dele é uma inocência, no mínimo.

Aliás, sutilidade é um antônimo para qualquer coisa que “Mudo” seja, já que Duncan Jones parece incapaz de dar um tom sólido à sua obra e, por conta disso, se sente obrigado a “gritar” sentimentos sempre que pretende que o espectador sinta algo. O resultado é um monstro de laboratório no qual o tronco e os membros são momentos cômicos muito estranhos e a cabeça é um dramático romance meloso particularmente prejudicado pela falta de química entre o casal protagonista. Todos estes elementos são, simplesmente, jogados na trama por Jones e perceba, inclusive, que em muitos momentos “Mudo” se parece com dois longas completamente distintos unidos na sala de edição, irregularidade que fica mais berrante no segundo ato.

Com isto posto, digo que é compreensível que os subestimados Paul Rudd e Justin Theroux não saibam exatamente o que fazer com seus personagens, dois excêntricos cirurgiões chamados Cactus e Dick, respectivamente. O primeiro, sem compreender se Cactus é um pai preocupado ou um canalha impulsivo, acaba criando mais uma sátira de sua própria personalidade, vista em dezenas de outros longas muito melhores. Já Theroux, caracterizado da maneira mais esdrúxula possível, encontra-se limitado a uma caricatura tediosa cujo senso de humor é praticamente ofensivo.

E ainda que os maiores problemas de “Mudo” não estejam em seu visual, é, sobretudo, decepcionante como seu universo é concebido com pobreza pelo designer de produção Gavin Bocquet: este mundo se parece com uma ramificação de baixo orçamento de “Blade Runner”, quase como se fosse uma periferia humilde da revolucionária cidade do clássico de Ridley Scott, e nenhum detalhe sequer de sua tecnologia me pareceu surpreendente. Isto é irônico porque este “mais do mesmo” ganhou um retrato bem mais digno na série “Altered Carbon”, também da Netflix. Neste sentido, quem merece congratulações é o diretor de fotografia Gary Shaw que, através de suas lentes, fez tudo parecer mais classudo.

Irregular e concebido sem grande destreza por Duncan Jones, “Mudo” é mais um longa-metragem produzido pela Netflix que chega somente para somar mais um número ao catálogo do serviço de streaming. Uma mistura de ideias sem muito senso de direção, que comprova que o diretor precisará se esforçar um pouco mais caso não queira ser lembrado como “filho de David Bowie”. Ah, e antes que eu me esqueça, “Mudo” contém uma conexão com “Lunar”, o que fica claro por uma participação de Sam Rockwell – presumo que isto não conte como uma grande revelação porque havia sido anunciado há muito tempo. É um detalhe… bacana.



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