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O cinema segue tendo um grande valor cultural, no entanto, grande parte do público segue dando preferência ao streaming, mesmo após o fim da pandemia, quando serviços como Netflix, Prime Video e Disney+ ficaram mais populares.

Ao menos em um estudo da HarrisX, divulgado com exclusividade pelo IndieWire, duas a cada três pessoas, na América do Norte, preferem esperar pelos lançamentos de produções em serviços de streaming.

As competições entre os serviços de streaming e Hollywood continuam. Enquanto ainda temos evidências de frequentadores de cinema leais dados os números de bilheteria, nosso estudo mostra que a cada três pessoas, duas preferem ver os filmes em casa“, disse Alli Brady, vice-presidente da HarrisX. “Apesar de isto causar um burburinho na indústria, também significa que a busca por conteúdo tende a aumentar – quase metade dos consumidores afirma que assiste a filmes em streamings semanalmente, mais do que sete vezes o número de pessoas que o faz indo ao cinema“.

Para a maioria (53%) dos que preferem esperar que os filmes cheguem ao streaming, o preço dos ingressos de cinema é uma das principais motivações.

Uma parte considerável (40%), inclusive, aponta uma preferência pelo “conforto de assistir em casa”.

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É um fato que a indústria do cinema ainda está tentando se adaptar ao modelo de negócios do streaming. Se ainda não é algo extremamente lucrativo para a maioria das empresas, serve, ao menos, como uma biblioteca digital de materiais exibidos originalmente nos cinemas, que já chegam aos serviços com ampla divulgação de marketing e boca-a-boca.

Porém, é também um fato que esse mercado vem criando uma barreira entre cineastas.

Um claro exemplo é a relação extremamente conturbada de David Fincher com membros da indústria.

Há 4 anos, o chefe do Festival de Cannes, Thierry Fremaux falou para o Konbini que, Fincher, um dos maiores cineastas de sua geração, não faz mais parte do cinema desde que se alinhou à Netflix.

Na ocasião, Fremaux frisou que o diretor ainda trabalha em coisas incríveis, mas que não sente mais ele como parte da classe cinematográfica.

Fincher deixou o cinema. Fincher agora trabalha para streamers, onde está dirigindo coisas incríveis. Tentei explicar isso para ele, modestamente, obviamente, que ele não existe mais, pelo menos para nós. Por razões deixadas ao seu gosto, ele quer sua liberdade criativa, não quer brigar com chefes de estúdio, seus filmes tendem a ser muito caros, mas eu adoraria que ele voltasse ao cinema. Ele é um dos grandes,” disse Fremaux.

Como resposta a esse tipo de declaração, Fincher não mediu palavras para dizer ao Le Monde que o streaming é o futuro do cinema.

Sejamos honestos. Trabalhei para a maioria dos grandes estúdios de cinema. Quando você diz a eles: ‘Eu tenho que fazer esses efeitos especiais em 4K’, a primeira resposta deles é: ‘Oh, caramba, por que fazer isso tão caro?’ Recusam-se à mínima despesa. Esse não é o caso da Netflix. Eles nunca brincaram com esse tipo de escolha. Eles adotam um padrão da indústria que faz sentido para os cineastas. A Netflix tem de longe o melhor ‘controle de qualidade’ de toda Hollywood.“, disse Fincher.

O diretor completou: “Você sabe, não vamos salvar o cinema como cultura restringindo os sistemas de distribuição. Para que isso ser possível, o cinema teria que se tornar um lugar de vanguarda, e não esse lugar úmido, fedorento e gorduroso que ainda é, com poucas exceções, economizando em todos os gastos necessários. Adorava certos cinemas, como o Grauman’s Chinese Theater ou o Cinerama Dome, em Los Angeles, mas as condições técnicas lá eram deploráveis. Precisamos superar toda a nostalgia para finalmente fazermos a pergunta certa: quem oferece a representação ideal hoje?

Bem, para tudo existe um meio-termo e todo mundo sairia ganhando se esse tipo de disputa ficasse no passado. Afinal, é verdade que a experiência do cinema dificilmente pode ser replicada em casa, assim como também é verdade que o streaming é muito importante para ampliar a distribuição de obras cinematográficas.

Além disso, é difícil imaginar que puristas acreditem que Fincher não faz mais cinema. O Assassino (2023), mesmo lançado diretamente para a Netflix, está aí para provar o contrário.

Fonte: IndieWire

Ramon Vitor, Editor-Chefe do site, engenheiro civil convertido em jornalista, é um apaixonado por cinema, quadrinhos e pelo poder transformador da comunicação. Com um olhar analítico aprimorado por anos de estudo da indústria cinematográfica, ele mergulha em seus artigos para O Vício desde 2021, transformando sua paixão em conteúdo cativante. Descubra uma perspectiva única sobre o universo do cinema e da TV.


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