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Em meio a mística que o envolve o trabalho de um diretor de cinema, há uma interpretação automática de que esse tipo de profissional é o autor absoluto de um filme. No entanto, nem de forma superficial isso se aproxima da verdade.

Mesmo quando estamos diante de diretores/autores como Quentin Tarantino e Paul Thomas Anderson, há toda uma estrutura de colaboração que envolve assistentes de direção, figurinistas, diretores de fotografia, diretores de arte, supervisores de efeitos visuais e dezenas de outros profissionais, que não podem ser simplesmente ignorados.

Na parte autoral do trabalho, o diretor — em tese — é o responsável por unificar as metas de toda essa equipe, fazendo com que todos criem sob sua visão do que deve ser uma determinada obra.

Portanto, não dá para dizer que esse tipo de profissional é um autor absoluto, uma vez que muito raramente ele executa tudo sozinho.

O Tarantino mesmo já explicou isso quando disse que um diretor não necessariamente precisa saber fazer seu filme, mas sim ter clareza no que quer executar.

Você não precisa saber como se faz um filme,” disse Tarantino em um vídeo para os extras de Cães de Aluguel (1992). “Se você realmente ama cinema com todo seu coração e com paixão suficiente, você fará um bom filme. Você não precisa ir à faculdade, você não precisa saber como as lentes de 40mm ou 50mm funcionam… Nada disso importa“.

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Quentin Tarantino no set de Os Oito Odiados (Reprodução/Everett Collection)

Se você acha que entrar para uma faculdade de cinema vai exclusivamente te fazer diretor, está cometendo um grande engano.

Sim, você pode até se tornar um, mas em um curso de cinema, você vai aprender fundamentalmente sobre cinema como um todo e isso pode te levar para outras áreas, como fotografia, iluminação e som.

E olha que, muitas vezes você é levado para essas áreas mais técnicas não só pela dificuldade que é se inserir no mercado como diretor, mas também por escolher seguir por esse caminho, que exige menos responsabilidade.

Agora podemos falar da outra parte do trabalho de um diretor, que não apenas é a mais importante, como também é a mais desgastante: a gestão!

Um diretor de cinema é um gestor em todos os quesitos, seja de tempo, orçamento, pessoas, riscos, segurança ou processos.

Otimizar o tempo da diária da produção é tão trabalho de um diretor quanto ditar o ritmo de um filme.

Projetar com boa antecedência as filmagens em locações internas e externas para evitar estourar o orçamento, é tão trabalho de um diretor quanto escolher as câmeras usadas em um filme.

Deixar o elenco confortável e confiante, além de resolver problemas dos atores, sejam eles grandes ou pequenos, é tão trabalho de um diretor quanto explicar como os personagens devem se comportar em cena.

[Dirigir um filme] é um trabalho de gestão,” disse Alex Garland (Guerra Civil) ao TheGuardian. “É mais como tentar fazer HS2 (uma ferrovia de alta velocidade que está em construção na Inglaterra), eu suspeito.”

Alex Garland no set de Guerra Civil (Reprodução/A24)

O peso da parte da gestão pode não ser tão sentido em projetos de baixo orçamento, independentes, ou de estúdios mais liberais. Porém, quando se trabalha com muito dinheiro e com grandes corporações, isso fica mais evidente, até porque, em muitos casos, é o que resta para um diretor fazer.

Quando um diretor lida com grandes franquias e estúdios regidos por acionistas, o lado autoral pode se chocar com restrições criativas capazes de condenar um projeto antes mesmo de ele nascer.

Eu saí de um ambiente no qual eu escrevia meus roteiros, e produzia e dirigia meus filmes motivado pela visão que eu tinha sobre eles. Num filme de US$ 120 milhões não é assim…”, contou José Padilha (Tropa de Elite) à Trip TV, quando abordou sua experiência com a produção de RoboCop (2014). “É difícil, é briga, é estresse, você ganha um, mas perde outro, então, foi bastante difícil, mas o filme está lá, não tenho vergonha desse meu filme. É isso aí, é o RoboCop.”

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Joel Kinnaman e José Padilha no set de RoboCop (Reprodução/MGM)

Ao avaliar a situação na qual diretores de cinema trabalham em grandes estúdios, é possível perceber que, assim como qualquer profissional, um diretor é alguém que precisa engolir alguns sapos para pagar suas contas.

Às vezes, para esse tipo de profissional, está tudo bem emprestar sua credibilidade para uma obra que ele não exerce um controle criativo significante, desde que haja um bom pagamento.

A grande questão é o impacto que esse tipo de projeto tem na carreira de um diretor quando as coisas dão errado.

Veja, a Marvel Studios se gabou bastante do fato de ter uma vencedora do Oscar no comando de Eternos (2021). Porém, as coisas deram errado, e, embora a falta de controle criativo de Chloé Zhao tenha sido exposta, isso não evitou de o nome da diretora ganhar conotação negativa entre os consumidores de conteúdo sobre cinema.

Quando o impacto é só a forma como o público passa a enxergar o profissional, às vezes por não entender qual é o verdadeiro trabalho de um diretor, até que não é tão danoso.

Problemão mesmo é quando executivos covardemente jogam toda culpa do fracasso para o diretor, isentando o estúdio de suas responsabilidades.

Isso aconteceu recentemente com Nia DaCosta, que foi jogada na fogueira quando o CEO da Disney, Bob Iger disse em uma conferência de negócios que a As Marvels (2023) foi um grande fracasso por falta de supervisão do estúdio, o que não é verdade.

[As Marvels (2023)] é uma produção de Kevin Feige [Presidente da Marvel], é o filme dele,” disse DaCosta à Vanity Fair.

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Bastidores de filmagens de As Marvels (Reprodução/Marvel)

A reação ao anúncio de que Nia está envolvida com uma das sequências de Extermínio (2002) dá um tom do quão prejudicada ela ficou.

Se você é do time de quem acredita que ela jamais deva comandar um filme outra vez, tente ser razoável, faça um exercício e se questione: qual o peso que o trabalho de Nia DaCosta teve no péssimo resultado de As Marvels (2023)?

Mesmo que ela fosse a principal culpada pelo fracasso do filme, isso realmente seria motivo para ela nunca mais conseguir emprego?

Bem, às vezes acontece de a visão do diretor ser executada e ainda assim não ser a ideal, ou às vezes seu filme é lançado no timming errado, sob a expectativa errada. E isso é normal, todo profissional pode errar, e um erro não deveria decretar o fim de uma carreira.

Damien Chazelle (La La Land), por exemplo, ganhou um Oscar de Melhor Diretor aos 32 anos e emplacou uma sequência incrível de sucessos até fracassar retumbantemente com Babilônia (2022), o que fez ele ser afastado de produções de alto orçamento.

Certamente, em termos financeiros, Babilônia (2022) não funcionou,” disse Chazelle no podcast Talking Pictures, da TCM (Via Variety). “Estou em um estado de espírito meio trepidante, mas não tenho ilusões. Não terei outro orçamento do nível de Babilônia (2022) tão cedo, ou pelo menos não no meu próximo filme.”

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Damien Chazelle no set de Babilônia (Reprodução/Paramount)

Isso é reflexo de um grande ônus da profissão, que, na verdade, existe em todas as outras profissões, que é a forma como as pessoas tendem a criar rótulos para os profissionais.

É muito mais fácil ser rotulado por um erro do que por uma sequência de acertos, e por algum motivo, as pessoas amam rotular negativamente um profissional.

A indústria de Hollywood, então, que vive de imagem e é controlada por pessoas super-poderosas que muitas vezes não sabem o que estão fazendo, está sempre se escorando nesses rótulos.

Veja só, um artigo Hollywood Reporter revelou ontem (24) que existem executivos da indústria que estão contratando diretores com base na aprovação de seus filmes no Rotten Tomatoes.

A porcentagem do Rotten Tomatoes é a primeira coisa que as pessoas olham quando eu ofereço um diretor,” revelou um agente, que preferiu manter-se anônimo. “Isso inevitavelmente afeta a tomada de decisão em torno da contratação de um diretor.”

Se você não entende o problema que esse tipo de simplificação da indústria representa, recomendo que volte e leia tudo que foi escrito até este ponto do artigo novamente.

Que fique claro, nem todo filme de grande orçamento feito sob a bandeira de uma megacorporação limita a criatividade de um diretor. Há casos em que o estúdio confia o suficiente no profissional para não fazer interferências, e isso é uma realidade, inclusive, na Marvel Studios, que já foi citada em tom negativo neste artigo.

O que este artigo quer te fazer pensar daqui para frente é que, essa imagem do diretor como um super-autor é uma grande miragem! Quando você simplifica a discussão sobre os defeitos de um filme falando: “o diretor é ruim”, pode estar caindo na besteira de rotular um profissional sem avaliar o contexto de seu trabalho, que geralmente é muito complexo.

Quanto à pergunta do título, se você ainda não percebeu, todo este artigo serve como resposta. Porém, acredito que valha a pena encerrar com uma definição superficial que se aproxime mais da verdade do que a que existe no imaginário popular.

Sob essa proposta, podemos dizer que um diretor de cinema é o profissional que assume a responsabilidade de manter todas as engrenagens de uma enorme e complexa máquina girando em harmonia, mesmo quando ele não tem controle algum sobre elas.

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