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Me lembro bem de quando anunciaram Quarteto Fantástico. Digo, não me recordo dos rumores iniciais, mas está entre minhas memórias o momento em que os representantes da Fox anunciaram à imprensa que estariam produzindo mais uma versão cinematográfica do amado grupo da Marvel. Parecia uma boa ideia no papel, pelo menos para seus executivos: o estúdio lucrava milhões de dólares com os X-Men, então por que não seriam bem sucedidos com personagens que, teoricamente, são bem mais simples?

Muitas pessoas gostam dos longas anteriores estrelados por Jessica Alba e Chris Evans, mas estes sempre estiveram muito longe de serem plenamente abraçados pelo grande público, como havia acontecido com Homem-Aranha e X-Men, então uma minoria se surpreendeu com a notícia de que eles reformulariam a franquia desde o início, com um novo diretor e um elenco completamente diferente. A calma recepção mudou quando o estúdio anunciou os primeiros nomes do elenco; Michael B. Jordan constava como Tocha Humana e todos se lembram do caos que essa mudança de etnia causou.

Sinceramente, essa escalação jamais me aborreceu muito porque tinha comigo que, no caso de bons resultados, este seria apenas um detalhe pequeno à visão das pessoas; no caso de maus resultados, não seria nenhum grande problema em comparação com as outras falhas. Aliás, Jordan sempre demonstrou muito carisma e talento. Também encontrava – pobre de mim – potencial no diretor Josh Trank simplesmente porque o mesmo dirigira o ótimo Poder Sem Limites e despontara como um nome promissor na indústria.

Parte dessa minha percepção mudou quando a época de divulgação do longa-metragem começou. Desde os vídeos promocionais aos detalhes do enredo que eram revelados, tudo cheirava muito mal. Além disso, relatórios da época das gravações indicavam uma grande bagunça nos bastidores, com o elenco sendo desarmonioso, o estúdio fazendo grandes interferências e o diretor sendo um maluco praticamente sociopata com todos, rumores que acabaram se confirmando não apenas por sugestões de entrevistas de membros da produção, mas também pelo que chegou às telas dos cinemas em 6 de agosto de 2015.

Pois Quarteto Fantástico é uma balbúrdia. Eis uma sinopse honesta: bêbados, os estúpidos Reed Richards, Ben Grimm, Johnny Storm e Victor von Doom decidem embarcar numa viagem a uma dimensão paralela, que eles estudaram por anos mas jamais conseguiram compreender por absoluto. Presumivelmente, o experimento dá muito errado e, ao ter contato com misteriosas substâncias do lugar, eles adquirem super-poderes. Quem também é afetada é a coitada Sue Storm ao tentar, sensatamente, fazer com que eles retornem à Terra.

Se parece com uma comédia besteirol meio amalucada, mas é muito pior. Os monótonos trinta primeiros minutos são mais toleráveis quando comparados com o resto do longa. Existe uma ponta de uma boa interação entre Reed e Ben, que jamais se concretiza por completo, e há breves conceitos relacionados ao Planeta Zero que são minimamente interessantes e poderiam ter sido mais bem aproveitados pelas mãos de um cineasta mais consciente daquilo que está realizando. Depois dessa meia hora, é difícil não rir involuntariamente, colocar as mãos no rosto em desgosto e, eventualmente, dormir.

Falando em diretor, o comando de Trank é, na melhor das hipóteses, caótico. Ele não apenas não conhece nada daquilo que o inspirou, como também está muito pouco ciente de como executar o que o confuso roteiro, escrito por Jeremy Slater, Simon Kinberg e ele próprio, lhe sugere. Daí o porquê da irregularidade da história, carregada demais para entreter e, ao mesmo tempo, ilógica demais para ser levada a sério. É até compreensível que a Fox tenha se intrometido na produção quando percebeu os caminhos absurdos que Trank estava seguindo.

Quanto ao elenco, nenhum deles se destaca – seja pela ruindade e/ou pelo carisma. Apesar de bons atores, Miles Teller e Kate Mara são um casal muito insosso como Reeds e Sue. Jordan não é particularmente magnético como Johnny como Evans era, mas também não comete deslizes – basicamente só faz o seu trabalho em cena. Já o ótimo Jamie Bell se esforça muito para construir um Coisa emotivo e complexo, mas o roteiro não lhe dá nenhuma base. 

Por fim, Quarteto Fantástico ainda consegue o improvável: apresentar uma versão do Dr. Destino ainda mais lastimável do que o antagonista simplista e tolamente megalomaníaco interpretado por Julian McMahon. Criado através de um tenebroso trabalho de computação gráfica, Destino é um indivíduo tosco com motivações obscuras demais para serem compreendidas; também é incompreensível o seu destino (!) na trama. Ele morreu? Conseguiu sobreviver?

Felizmente, jamais iremos saber. Fracasso absoluto de 2015, Quarteto Fantástico será transmitido hoje à noite na Globo, na Tela Quente. Considerando o grande esforço do canal de TV aberta em promover sua programação, não me surpreenderia se o longa conseguisse uma audiência. Se já assistiu, sugiro cuidado ao surfar pelos canais com seu controle. Se ainda não criou coragem para encarar esse pequeno monstro e está curioso, esta é sua grande oportunidade. Veja pelo lado bom: pelo menos a Globo lhe fará o favor de cortar um grande pedaço dessa experiência.

Sou o Fundador do site Ovicio, Overplay e Muramasa. Fui idealizador e Game Designer do jogo Vencedor da DemoNight no BIG Festival 2014, o Jotunheim Project. Escolhido como Jurado do Anime Awards em 2024 e 2025. Amo games, sou fã de God of War, Dragon Quest, Fire Emblem, The Legend of Zelda e Pokémon. Coleciono livros, quadrinhos e guitarras.