
Uma Aventura Extraordinária, Mas Datada

Considerado um dos pais da ficção científica, o francês Jules Verne – normalmente chamado de Júlio Verne no Brasil –, é conhecido principalmente pelos livros da Voyages Extraordinaires, As Viagens Extraordinárias, uma série de livros muito popular que descreve aventuras e jornadas de diversas ordens sempre se apoiando em pesquisas e estudos científicos para embasar os acontecimentos. Destes, sem dúvidas um dos mais conhecidos é Vinte Mil Léguas Submarinas, que descreve a jornada do submarino Nautilus e as descobertas do Professor Pierre Aronnax, um biólogo marinho a bordo do veículo do Capitão Nemo. Publicado em 1871, o livro acabou perdendo a força devido à passagem do tempo, sendo mais interessante em 2016 por ser um clássico de Jules Verne do que por seu próprio conteúdo.
A obra é uma aventura tanto para o leitor quanto para o protagonista, o Professor Aronnax. Logo no início da trama, ele é chamado para a caça de uma criatura maligna estranha que havia sido avistada diversas vezes em mares diferentes e chegado a afundar um navio a vapor com alguma espécie de esporão. Suspeitava-se que era alguma espécie engrandecida de cetáceo – ordem dos mamíferos marinhos –, mas, como Aronnax, seu fiel serviçal Conseil e o pescador Ned Land percebem após caírem ao mar durante uma perseguição, não se tratava de nenhum monstro, mas sim de uma criação humana.
Assim, personagens e leitor descobrem o Nautilus, o submarino mais famoso da literatura. Aronnax e os outros são resgatados pela tripulação do veículo e se veem a mercê do Capitão Nemo, um homem de olhar sábio e por vezes feroz que decidiu abandonar as terras secas e se isolar da humanidade. Apesar de serem bem tratados no submarino, não estão ali como hospedes, mas sim como prisioneiros que não podem retornar às suas próprias nações. Ainda que cativos à vontade de Nemo, podem desfrutar da vida no Nautilus, ter contato com tal fantástica tecnologia e presenciar cenas e visões apenas permitidas ao capitão e seus homens.
É desta forma que, guiados pelas narrações do professor Aronnax, os leitores vão descobrindo, junto com o personagem, as maravilhas tecnológicas do veículo e todo o ambiente fantástico que podem ser as profundezas do mar, bem como pouco a pouco reunindo mais informações do enigma que é o Capitão Nemo.
Os personagens estão constantemente em assombro, sempre presenciando coisas novas durante a sua viagem, e Verne consegue muito bem fazer com que a narrativa transfira os sentimentos dos protagonistas para o leitor. Toda essa nova perspectiva vai se desvelando para Aronnax e através dele suas impressões e ponderações são passadas para quem está com o livro em mãos. E tudo o que é mostrado no livro tem, como já dito, todo um embasamento científico. Decerto, Vinte Mil Léguas Submarinas demandou uma pesquisa imensa, pois Verne conseguiu conceber um submarino muito à frente dos veículos primitivos que eram contemporâneos a sua época. É claro que existem exageros e incongruências, mas ainda assim, consegue passar até mesmo para leitores do século XXI a ideia de uma máquina fantástica que soa verossímil.
Infelizmente, é um dos poucos deslumbres que o leitor moderno consegue compartilhar com os personagens do livro. Na época em que foi escrito, uma viagem submarina cruzando todos os oceanos deve ter parecido extremamente fantástica e exótica, trazendo à tona imagens magníficas de exploração e aventura. Contudo, uma visão de um mundo abaixo-d’água, com toda sua miríade de peixes, corais e mamíferos marinhos, simplesmente não tem o mesmo efeito atualmente. Com a internet e os vários filmes e documentários na televisão aberta, inúmeras passagens descritas no livro – com algumas exceções notáveis – são muito menos empolgantes e mais parecem um catálogo monótono de nomes de animais marinhos.
Claro que ainda existe a questão da condição de prisioneiros que Annorax e seus amigos precisam enfrentar, bem como de seus planos para a fuga, mas isso claramente é deixado em segundo plano em prol das descobertas e aventuras marinhas. No fim das contas é como se a noção de trama estivesse no livro apenas por obrigação.
Quanto à figura do Capitão Nemo, personagem famoso na literatura e até mesmo na cultura popular, é possível vislumbrar suas diversas facetas, do homem sábio, ao vingativo e ao revolucionário. Ainda assim, o que se vê de tal personagem não chega a ser suficiente para justificar a leitura, até porque muito de sua construção só pode ser conhecida com a leitura de “A Ilha Misteriosa”, livro que funciona como uma sequência indireta a Vinte Mil Léguas.
Sem dúvida, Vinte Mil Léguas Submarinas é um livro impressionante, mas apenas os leitores atentos, que conscientemente contextualizem a obra na época em que foi escrita, conseguirão tirar proveito da leitura. Sem todo o impacto que as imagens e viagens abaixo d’água teriam na época em que foi escrito, esta é uma obra de Verne que vale apenas para quem tem interesse em estudar a produção do autor. Entretanto, outras histórias do pai da ficção científica, como “Volta ao Mundo em Oitenta Dias” e “Viagem ao Centro da Terra“ seriam melhor aproveitadas, por ainda terem apelo ao leitor moderno. A história principal do Capitão Nemo e do Nautilus, portanto, é indicada apenas aos que realmente têm curiosidade em conhecer a obra.