
Lançado originalmente em 1996 – 4 anos após o primeiro livro da série Witcher – e em tradução para o português apenas em 2016, Batismo de Fogo é o quinto livro da saga do bruxo Geralt de Rivia. Uma série polonesa de livros de fantasia medieval que acabou se tornando um fenômeno cult internacional após o lançamento de três excelentes jogos. A obra mantém as características que foram sendo estabelecida nos três romances e nas duas antologias anteriores, o que significa que Sapkowski não se faz de rogado em usar estruturas diferenciadas entre cada um dos capítulos do livro. Já bastante confortável com a série, o autor diminui o ritmo da história para mostrar tanto personagens velhos e novos quanto os próprios Reinos do Norte, passando por provações que os forçarão à mudança ou à derrota, como o título do livro indica.
Depois dos acontecimentos de Tempo do Desprezo, tanto Geralt, Ciri e Yennefer acabaram separados e em situações precárias. Com a guerra de Nilfgaard se aquecendo mais uma vez, os Reinos do Norte precisarão encarar mudanças para sobreviver, o que se estende aos habitantes da região e também aos personagens. Em meio à situação caótica onde ninguém sabe o que realmente está acontecendo nos confrontos, tanto Ciri quanto Geralt passam por jornadas pessoais onde precisarão aprender e mudarem a si mesmos ou fracassarem.
É muito competente a forma como Sapkowski coloca o tema do livro, que é claro, a ideia de batismo de fogo. Ao longo dos capítulos, não só os protagonistas já conhecidos como Geralt e Ciri passam por provações seminais, mesmo os coadjuvantes precisam resolver alguma pendência com o passado ou consigo mesmo para que consigam prosseguir em suas jornadas. A ideia de atravessar um limiar está sempre presente, tanto na história quanto na própria atmosfera, que em muitas cenas mostra sobreviventes da guerra à margem da sobrevivência, marcados pelos horrores e precisando sempre ultrapassar apenas mais uma barreira antes de alcançarem a salvação.
No caso de Geralt, sua provação é algo interno e não externo. Não existe nenhum perigo específico iminente ameaçando o seu sucesso além de sua própria mente e seu próprio corpo. Em sua jornada para reencontrar Ciri, ele precisará aprender a deixar de lado o seu lobo solitário interior, aceitar que precisa de ajuda para realizar a empreitada e aceitar se abrir para os seus companheiros de viagem. O processo que a Criança Surpresa passa é semelhante, mas a provação da jovem Ciri envolve mais uma espécie de ritual de passagem. Ela está verdadeiramente distante de seus tutores pela primeira vez, e precisa pôr em prática tudo o que aprendeu com espada e feitiçaria. A necessidade de lutar e matar e experimentar a posição de algoz ao invés de vitima também são realidades que ela precisa enfrentar. Isso além de todo um batismo de fogo envolvendo a própria sexualidade e tentar seguir o seu próprio destino.
Mas o livro não se trata apenas de protagonistas. Velhos coadjuvantes voltam a aparecer e novos personagens são introduzidos. Se os fãs dos jogos da série The Witcher estavam curiosos quanto ao anão Zoltan Chivay, este livro tem a resposta sobre como ele conheceu o bruxo Geralt. Jaskier está de volta, com sua personalidade pomposa e afobada de sempre. Mas nem ele está imune ao tema do livro e em mais de um momento passa por provações seminais para que possa seguir o seu caminho. Dentre os personagens novos, há de se destacar Milva, uma caçadora que abre o livro com um capítulo inteiro para ela, Regis, um barbeiro-cirurgião excêntrico que acaba conquistando aos personagens apesar de seus problemas, e Cahir, um Nilfgaardiano com uma estranha obsessão por Ciri. O trio é bem escrito e tem papeis importantes na trama. Regis acaba ficando um pouco deslocado, incluído quase como que para gerar um deus ex machina, mas agrega muito aos limiares que Geralt precisa ultrapassar em sua jornada. Todos eles tem personalidades muito bem delineadas e possuem ótimos momentos de interação. Acabam ditando mais o ritmo da jornada do livro do que o próprio protagonista.
Essa ideia de jornada, de provação, dita boa parte da estrutura do livro. As sequencias dos capítulos de Geralt são as mais convencionais já apresentadas na obra. É curioso pensar que o modelo atípico de organizar os capítulos e sempre variar a forma como funcionam acabou fazendo com que a maior parte do quinto livro da saga se parecesse com um romance convencional. Isso de forma nenhuma é ruim. Pelo contrário, acaba sendo bastante adequado para o grande tema que Sapkowski estabelece para a obra. Mais do que isso, também serve para escancarar o modus operandi do autor dentro da série. Se fosse necessário ou fosse sua vontade, os livros do bruxo Geralt poderiam ter um estilo todo linear e aventuresco, inteiro numa organização comum a uma obra longa. No entanto, o escritor realmente opta por seguir uma narrativa mista e cheia de peculiaridades, funcionando em camadas temáticas e estilísticas que melhor sirvam para contar determinado segmento da história.
Quanto à trama da obra, contudo, não é muito fácil tecer elogios que se diferenciam muito de Tempo do Desprezo e das outras obras. Como um todo, o livro anterior tem momentos muito mais significativos e emblemáticos, mas Batismo de Fogo não deixa de funcionar dentro da série. Ele é claramente uma continuação do que já havia sido estabelecido, com a história seguindo de forma reconhecível e com a mesma qualidade que os anteriores. Em meio a todas as mudanças de estilo e estrutura dos capítulos, se mantêm todas os diálogos cheios de sarcasmo, ironia e humor negro, além dos acontecimentos que misturam drama, ação, picardia e uma leve dose de absurdismo. A história progride muito bem, até terminar colocando os protagonistas, em especial Ciri, em posições que trazem a promessa de que o próximo livro, A Torre da Andorinha, será o melhor até o momento… além de uma piada irônica com o próprio nome de Geralt.
Batismo de Fogo é uma excelente continuação para a saga do Bruxo Geralt de Rivia. A obra trás todas as características apreciáveis de seus antecessores enquanto mantém os estranhos padrões do autor e apresenta o amadurecimento de seus protagonistas. Os que gostaram da história armada por Sapkowski dificilmente se arrependerão da leitura, e encontraram um livro que apresenta alguns dos melhores momentos da série, introduz personagens carismáticos e traz situações de importância impar para o crescimento de Ciri, a criança surpresa.




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