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Download-Clube-da-Luta-Chuck-Palahniuk-em-ePUB-mobi-PDFO filme lançado em 1999 não teve um reconhecimento imediato. Arrecadou pouca bilheteria nos cinemas, e teve opiniões divergentes em seu lançamento, muitas delas depreciativas em relação à violência e às mensagens contidas na obra. Foi apenas com o DVD que a versão audiovisual de Clube da Luta se tornou um sucesso comercial e de crítica. Atualmente, é difícil imaginar um jovem ou adulto inteirado na cultura pop que não tenha assistido ao filme, ou pelo menos ouvido falar. É também complicado encontrar alguém que o considere como algo menos do que um ótimo título. Portanto, é estranho pensar que, enquanto o filme volta e meia ainda é comentado ou citado, o livro quase nunca receba alguma menção. 

Publicado apenas 3 anos antes do filme, em 1996, por Chuck Palahniuk, Clube da Luta foi o primeiro livro do autor a ganhar as prateleiras. Apesar das dificuldades em encontrar quem publicasse sua obra, em pouco tempo conquistou dois prêmios (O “Pacific Northwest Booksellers Association Award”, e o “Oregon Book Award”) e assinou o contrato para a adaptação cinematográfica muito mais famosa do que a obra original. Muitas vezes considerado como niilista devido as suas obras com temas depressivos, Palahniuk se defende (ou não) considerando a si mesmo um romântico e afirmando que se referem a ele como niilista porque seus trabalhos expressam ideias que os outros não acreditam.

Assim como no filme, a obra original mostra a história de um narrador sem nome (que chamarei de Joe, não sem motivo) que estava conformado com sua vida e com seu trabalho entediante. Tinha um bom emprego, móveis vastos e variados que nunca teriam serventia alguma e trabalhava para uma companhia que o tratava como um robô e fazia pouco caso dos seus produtos, ainda que pudesse causar a morte dos clientes. Atormentado pela insônia, para se sentir melhor, frequentava grupos de apoio para pessoas que eram vítimas de doenças complicadas. Câncer de testículo, parasitas de cérebro, não importava. Ele não tinha nada disso, claro. Mas toda aquela miséria o fazia se sentir melhor, o fazia chorar e, mais importante, o fazia conseguir dormir durante a noite. Houve um problema com uma mulher, a mentirosa Marla, ela não tinha direito de estar naqueles grupos, ela era saudável, (falsa, falsa, falsa) e sua presença vil é um constante lembrete de que ele é igual a ela.

Mas tudo isso muda quando o apartamento de Joe explode quando ele está em uma viagem de trabalho, destruindo todos seus queridos inúteis móveis de classe média e sua morada perfeita de solteiro. Sem onde morar e com quase nenhuma posse, acaba indo procurar um sujeito que havia conhecido a um tempo atrás. Tyler Durden é esse sujeito. Um homem descolado, cheio de ideias revolucionárias, ou simplesmente absurdas, sobre a vida e a morte e que se vira como pode, fazendo diversos trabalhos e sempre escarnecendo da sociedade. Operador de projetores em cinema? Ótima oportunidade para colocar recortes pornô no meio dos filmes. Garçom de restaurantes chiques? Digamos que você não iria querer comer o que ele serve. E quanto a usar gordura de lipoaspiração para vender sabonete para madames? Certamente um golpe de mestre.

Tyler aceita se encontrar com o narrador em um bar. Após algumas cervejas, concorda em deixá-lo ficar em sua casa, mas que ele teria que fazer um favor. Saindo do bar, o pedido é revelado: quero que me dê um soco o mais forte que conseguir.

Esse é o início do clube da luta de Tyler, mas a abertura do livro Clube da Luta de Palahniuk é outra. A obra começa pelo final e, de certa forma, em uma espécie de fim para O clube da luta. Em cima de um prédio empresarial programado para explodir em poucos minutos pelos explosivos caseiros confeccionados pelos macacos espaciais do Projeto Destruição, o livro abre in media res em um flashfoward com a narração:

Tyler me arranja um emprego de garçom, depois o mesmo Tyler está colocando uma arma em minha boca e dizendo que o primeiro passo para a vida eterna é que você tem que morrer. Porém, por muito tempo, Tyler e eu fomos melhores amigos. As pessoas sempre me perguntam se conheço Tyler Durden.

Com o cano da arma encostado no fundo da garganta, Tyler diz:

– Nós não vamos morrer de verdade.

Desde o primeiro parágrafo fica claro como vai ser o estilo da narrativa. Bem pessoal, com um personagem narrador, o livro inteiro segue com as narrações de Joe comentando sobre sua vivência com Tyler, seus encontros com Marla e os resquícios de sua vida. É difícil saber o que realmente está acontecendo. Mas esse é justamente o objetivo de Palahniuk. A narração segue muito bem um estilo de fluxo de consciência. É como se, conscientemente, o autor tivesse escrito a primeira coisa que surgiu em seus pensamentos, sem estruturar as ideias do texto de forma ordenada pela razão, para que pudesse criar o efeito de demonstrar os pensamentos de um personagem confuso e prejudicado por sua própria mente.

Essa sensação de desorientação é auxiliada pela estrutura não linear da história. Ora Joe fala sobre o presente, ora sobre o passado, por vezes alternando os dois entre os parágrafos, lançando frases e pensamentos sobre coisas que aconteceram há muito tempo, ou ainda irão acontecer dentro do encadeamento dos fatos. Tudo é narrado no presente, como se as recordações do narrador, naquele instante, fosse o seu mundo real. A agitação mental constante, pensamentos dispares e palavras surradas pela mente a todo momento deixam claro que Joe é um homem sob pressão sobrecarregado pelas informações e emoções. Seus pensares febris são como a atividade incessante de uma mente atacada pela insônia.

E dentro de todo esse contexto, de toda essa visão confusa do narrador, há Tyler Durden. A paixão platônica de Joe. Mais do que querer estar perto dele, mais do que querer ser como ele, Joe precisa de Tyler. Não há uma relação homossexual entre os dois personagens mas, como é dito por ele mesmo, enquanto Marla o quer, ele quer a Tyler. Ele precisa de Tyler porque as ideias desse personagem sedutor é o que o tira do marasmo. O clube da luta não se trata de violência, se trata de fazer com que homens “aprisionados” pela vida moderna possam se sentir vivos e livres enquanto lutam uns com os outros. É mais do que apanhar ou bater, mas sobre sentir as coisas quando lá fora, na sociedade, todos eles se sentem entorpecidos. Com o tempo, o escopo aumenta, Tyler passa a ser um mentor e líder para os “macacos espaciais”, promovendo ações que buscam primeiro contrariar as convenções, para então atacá-las. Até que tudo vai ficando mais e mais violento ao ponto de que Joe não consegue mais conceber o rumo que as coisas estão tomando e acaba criando a situação complicada que abre o livro.

Apesar da confusão que existe na mente do narrador, o livro não é difícil de se acompanhar ou de se entender. Não há ação no sentido físico, mas a ação mental das ideias efervescentes de Joe prendem os olhos e puxam o leitor para o próximo capítulo. Os que assistiram ao filme e então buscam a fonte talvez sintam algum temor antes de começar a leitura. Pode ser difícil imaginar que o conteúdo do filme em um livro, mesmo sendo a obra original, tenha o mesmo efeito e qualidade do que foi visto nas telas. No entanto, a obra de Chuck Palahniuk não decepciona, mostra uma história ainda mais psicodélica e tão bem narrada quanto poderia. Os fãs do filme acham tudo o que poderiam esperar: uma obra tão boa quanto o audiovisual e com o mesmo feeling. Enquanto aqueles que nunca tiveram contato com o filme vão encontrar um livro com uma história visceral e tão autêntica quanto é possível.                                             


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