Comentários
historiazero

Sinopse:

História Zero, assim como em Reconhecimento de Padrões e Território Fantasma, explora o lado mais sombrio do marketing e o cenário conturbado do pós-11 de setembro e da crise global de 2008.

A nova meta do ambicioso Hubertus Bigend é controlar o fornecimento de uniformes militares nos Estados Unidos e se valer da crescente influência desse estilo no mercado mainstream. Para tanto, ele busca aliciar o criador anônimo de uma obscura e desejada marca de roupas que virou febre entre consumidores do mundo inteiro.

A ex-roqueira e jornalista Hollis Henry está praticamente falida. A contragosto, ela aceita a proposta do bilionário belga para rastrear e identificar o misterioso designer. Nessa missão, Hollis contará com a ajuda de Milgrim, um tradutor ex-viciado em drogas cuja drástica reabilitação fora bancada pelo próprio Bigend. Mas o trabalho de ambos chama a atenção de concorrentes indesejados, dando início a uma delirante perseguição que acaba envolvendo um agente do governo norte-americano, o intrépido namorado de Hollis e até mesmo o ex-baterista de sua antiga banda.

Resenha:

História Zero é o último livro da trilogia Blue Ant do autor William Gibson. A trilogia começa com Reconhecimento de Padrões de 2003, seguido por Território Fantasma de 2007 e, por fim, História Zero, um livro que carrega a tradição de Gibson de aproveitar as intersecções entre a cultura popular e a história.

Sim, eu estou falando de um livro inteiro sobre o submundo da moda… e sim, o livro é muito bom. Gibson está em casa, apresentando futuras tecnologias que se sobrepõem com o mundo atual, um gênero criado por ele, que gerou uma série de imitadores, mas poucos inovadores. Ele tem uma maneira única de combinar tecnologias fictícias (pelo menos eu espero que algumas delas sejam fictícias) com tecnologias existentes de maneira tão perfeita que fica difícil identificar o que é real e o que não é.

Na sua essência, a trilogia Blue Ant é sobre a dificuldade em afirmar a própria identidade em meio a forças concorrentes que procuram apagar essa mesma individualidade. Ao longo da trilogia nos é mostrado como a tecnologia pode ser usada para reestruturar nossas personalidades. Estamos espionando, monitorando, catalogando, analisando, editando, excluindo e salvando tudo com apenas um toque de botão. E as impressões digitais que deixamos sobre o mundo já não nos pertencem, mas são de propriedade de uma consciência pública imparável, invisível e insaciável que reivindica a posse de tudo o que toca.

História Zero é focado em torno de temas apresentados por Gibson nas páginas de Reconhecimento de Padrões, como o que vestimos pode definir o nosso lugar no mundo e sublimar nossas próprias personalidades.

Embora o mundo da moda não agrade a todos, até mesmo o leitor mais desinteressado tem que reconhecer que a moda permeia todos os aspectos da nossa vida e não está relacionada apenas com as nossas roupas. A Moda tem uma linguagem própria: Os carros que conduzimos, os gadgets que compramos, os livros, os quadrinhos e a forma como nos comunicamos são todos concebidos seguindo uma tendência. Esta linguagem transmite status social, riqueza, conhecimento e uma série de outros aspectos sociais tão sutis que a maioria das pessoas não está totalmente ciente.

É por isso que o designer sem nome em História Zero é tão importante. Gibson sugere que seus projetos são tão puros e tão simples que grande parte da mensagem é simplesmente invisível. Seus produtos falam sem subtexto e, assim, o seu valor é imediatamente reconhecível.

A leitura de Gibson requer interpretação. Você nunca está realmente certo de que entendeu o que foi lido. Seu texto é evasivo e intocável. Gibson é ótimo para estimular o leitor intelectualmente, seu trabalho com os personagens é igualmente primoroso: ele cria diversas camadas que deixam o personagem tão complexo e tão grande, que ele consegue alcançar, simultaneamente, aspectos de personalidade que só encontramos na vida real e que só vimos na ficção.

Não é nenhuma coincidência que o único personagem a aparecer em todos os três dos livros é Hubertus Bigend. Bigend desempenha o papel de mestre das marionetes, o seu trabalho é valorizar e explorar a psique humana para que ele possa encontrar formas inovadoras para vender bens materiais. Em muitos aspectos, o caráter de Bigend traduz perfeitamente o capitalismo de livre mercado. Tudo pode ser comprado e vendido, as pessoas são apenas mais uma mercadoria que ele pode manipular. Mas enquanto você pensa que Bigend é apenas monstro capitalista, eu te digo que ele é muito mais. Ele não busca apenas o poder e o dinheiro, mas sim conhecimento e compreensão. É apenas quando seus objetivos são postos em perigo que ele se torna cruel e implacável.

Ele nunca faz o próprio trabalho sujo, em vez disso ele contrata pessoas capazes para fazer o trabalho para ele. Assim temos personagens que ficam na dúvida entre manterem fiéis a si mesmos ou realizar as tarefas ordenadas. Este é o dilema de Henry ao longo do livro. Ela sabe que Bigend não é totalmente ruim. Mas será que vale a pena trabalhar para ele?

Infelizmente, os leitores mais novos terão que enfrentar algumas peculiaridades de Gibson. Alguns podem até achar a estrutura do livro um pouco decepcionante. Boa parte do livro é bem didática, é como ouvir uma palestra de um assunto interessante, pessoas que curtem ação irão estranhar bastante.

Apenas nos capítulos finais do livro que Gibson se lembra que ele precisa fazer mais do que educar os leitores, ele precisa entretê-los também. Não vou contar o que existe, mas adianto que o livro tem um ritmo bastante diferente de tudo que você já leu.

William Gibson não é para todos. Mas você não pode negar que o homem tem um talento para gerar idéias novas e interessantes. Depois de se acostumar com o estilo de escrita de Gibson, a recompensa valerá a pena e te fará esquecer dos trechos mais maçantes de sua prosa.

História Zero é mais do que apenas um exame do mundo da moda, a história tem ambições mais elevadas. O livro tenta criar correlações entre moda, a comunicação e a tecnologia. O livro tem um trabalho editorial impecável, a editora Aleph acerta novamente.

Recomendado para os fãs de ficção e steampunk!

Sou o Fundador do site Ovicio, Overplay e Muramasa. Fui idealizador e Game Designer do jogo Vencedor da DemoNight no BIG Festival 2014, o Jotunheim Project. Escolhido como Jurado do Anime Awards em 2024 e 2025. Amo games, sou fã de God of War, Dragon Quest, Fire Emblem, The Legend of Zelda e Pokémon. Coleciono livros, quadrinhos e guitarras.


Comentários