
Uma Jornada Carregada de Inocência e Fantasia
Escrito ao longo de 5 anos, de 2005 a 2010, Lagoena foi a primeira aventura de Laísa Couto no mundo da literatura. Iniciada em publicações no site Booksérie para só então, quando finalizada, conquistar espaço em uma editora, é muito fácil perceber as semelhanças com obras de Lewis e Tolkien em Lagoena, e a autora não as esconde. Desde o início da obra, até o desfecho da história, o livro tem todo aquele jeitão de “Lá e de Volta Outra Vez”, ou melhor, daquele tipo de história onde crianças precisam sair de seu lugar comum e enfrentar o fantástico. E assim como a fantástica tarefa de Rheita, em busca das Sete Chaves do Portal dos Desejos de Lagoena, a obra acaba passando por erros e acertos, mas tal qual a personagem, demonstrando sinceridade e o desejo (e sucesso!) de trilhar uma história de locais e seres fantásticos.
A história abre com uma cidadezinha muito conto-de-fadas. Pequena, isolada, o tipo de lugar com ares rústicos e campestres que logo evoca o tipo de história que a autora quis contar. E logo o leitor é introduzido à Rheita, uma garotinha cuja marca em forma de ‘S’ em sua mão a liga à lendas antigas da região, às velhas histórias sobre os Guardiões. Marcada pelo destino, a menina acaba descobrindo um segredo por trás do sumiço de seu pai e da identidade do novo ajudante de seu avô. E logo ela e Kiel, menino da idade de Rheita que acaba envolvido em seus problemas, precisam fugir de casa e, de posse de um mapa mágico, viajam até Lagoena, um reino fantástico onde apenas eles poderão reunir as Sete Chaves do Portal dos Desejos e impedir que o antigo Imperador Zhetafar consiga realizar os seus sonhos de imortalidade e poder.
Com uma trama simples, a autora consegue muito bem contar aquele tipo de história bastante arquetípica da criança que vai explorando e descobrindo um mundo fantástico ao mesmo tempo em que lida com acontecimentos do mundo real. Mas, neste ponto, a semelhança com outras obras não fica como um ponto negativo, pois o objetivo de Lagoena parece ser realmente evocar este tipo tão familiar de fábula. O início do livro, que mostra Rheita vivendo sozinha com seu avó, consegue muito bem introduzir aquela ideia da garotinha deslocada, esperta para a idade, que descobre que por trás de sua própria história existe alguma coisa fantástica. Quanto começa a obra, ela ainda não sabe, mas vai acabar descobrindo o mistério do desaparecimento de seu pai e descobrindo que estava bastante certa em não gostar do muito suspeito novo ajudante de seu avó.
Talvez o maior problema deste início é que ele não seja maior. Apesar da importância de se dar seguimento à história, ou melhor, ao verdadeiro início da jornada de Rheita, são estes momentos iniciais os que mais definem a trama e delimitam o rotineiro do fantástico. Além disto, é de uma familiaridade agradável e simpática os capítulos que vão mostrando o relacionamento da garota com seu avô, com sua cidadezinha e com os primeiros moradores do lugar que ela vem a conhecer. Por medo de que descobrissem que ela tinha a marca dos Guardiões, por vários anos Gornef impediu que sua neta saísse sozinha de casa, então, para Rheita, uma breve visita ao relojoeiro da esquina é uma grande aventura. E mesmo neste tipo de situação trivial, a autora consegue passar os sentires e impressões da garota, criando cenas bastante simpáticas e divertidas de ler. Estas sequencias do lugar comum de Rheita, onde pouco a pouco ela vai tocando o fantástico, duram por aproximadamente cinquenta páginas, e tão interessantes que são que poderiam ter outras cinquenta.
Em contrapartida, quando a aventura de Rheita realmente começa, muitos dos pontos positivos do inicio do livro acabam se perdendo. Enquanto antes era possível entrar nos sentimentos da garota, quando ela se une à Kiel o estilo da narrativa muda para se tornar mais impessoal, sem se aproximar muito da percepção de um personagem ou de outro. Apesar disto possibilitar apresentar melhor as ações de ambos os personagens, acaba fazendo com que o leitor não consiga realmente ver através dos olhos das crianças todas as maravilhas do mundo fantástico de Lagoena. A busca pelas sete chaves tem os seus méritos, mas sem a impressões dos jovens protagonistas a obra acaba perdendo muito e a jornada dos dois se torna um tanto quanto apressada.
Não é que Kiel e Rheita não tenham uma boa dinâmica, a interação entre as crianças é divertida e inocente, como dois bons amigos protegendo um ao outro. Tanto o garoto quanto a menina tem personalidades interessantes para a trama e condizentes com a idade e o tipo da história. No entanto, é justamente por isto que os melhores momentos dos dois acontecem quando estão sozinhos, já que são as passagens em que Laisa Couto se aproxima mais de seus jovens personagens.
Essa distância do ponto de vista de Kiel e Rheita faz com que pareça que falta algo à busca dos dois pelas sete chaves. É como se tudo estivesse acontecendo rápido demais, contado e não mostrado – embora não seja exatamente o caso – e a sensação que fica é que se o livro tivesse mais palavras, passaria de uma história divertida para uma obra realmente boa. O mundo de Lagoena, no entanto, é bem desenvolvido e apresentado, ou melhor, apresentado na medida certa. Sendo uma história mais para o lado do fabuloso, teria sido um erro da autora delinear reinos e cidades e nações como outras escritores de fantasia gostam de fazer. Em Lagoena, a simplicidade do mundo colabora muito para deixa-lo mágico e colorido como deveria ser.
Contudo, é bastante perceptível que o final do livro é um tanto quanto apressado. É como se a autora tivesse ficado sem espaço para desenvolver os últimos momentos e acabou precisando apressar as coisas. Mas talvez este nem seja o maior problema das sequencias finais, e sim que o grande vilão Zhetafar e o seu fiel e vilanesco ajudante tem uma participação irrisória durante toda a história, além de serem mencionados sem realmente aparecerem. Os personagens teriam sido muito melhor utilizados se estivessem perseguindo os protagonistas ou tentando atrapalhar seus planos de alguma forma. Então, ainda que o desfecho dos dois tenha sido de fato interessante, não teve muito impacto porque, para a trama, foram quase que completamente irrelevantes. Uma falha considerável, mas que talvez possa ser perdoada dentro de outros aspectos do livro.
Lagoena não é um livro isento de falhas. Mas é uma obra sincera, e que consegue mostrar o seu universo mágico através da simplicidade e da inocência de duas crianças. Apesar de ser a primeira obra de uma trilogia, o seu final fecha muito bem tudo o que se propõe e pode ser perfeitamente lido de forma independente. Apesar das falhas na estrutura quanto ao uso do vilão e da mudança na narrativa quando os protagonistas estão unidos prejudicar a exposição da história, a trama do livro é agradável, e a obra de Laísa Couto pode ser uma boa leitura aos que gostam de fantasia e queiram ler algo simples, mas ainda assim bonito, e com aquele toque de saudosismo por velhas histórias sobre crianças explorando mundos fantásticos.
A edição resenhada foi cedida pela autora da obra
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