Comentários
MeninaTinhaDons

Sinopse:

Cultuado autor de quadrinhos e roteiros da Marvel e da DC Comics, entre eles algumas das mais elogiadas histórias de X-Men e O Quarteto Fantástico, o britânico M. R. Carey apresenta uma trama original e emocionante em sua estreia como romancista com A menina que tinha dons, lançamento do selo Fábrica231. Aclamado pela crítica, o livro se tornou um bestseller imediato na Grã-Bretanha e nos Estados Unidos ao contar a história de Melanie, uma menina superdotada que faz parte de um grupo de crianças portadoras de um vírus que se espalhou pela Terra e que são a única esperança de reverter os efeitos dessa terrível praga sobre a humanidade. Uma comovente história sobre amor, perda e companheirismo encenada num futuro distópico.

Resenha:

Seu nome é Melanie, mas poderia ser chamada de Pandora.

Ela é uma garota muito especial, com a pele pálida e olhos penetrantes. O mundo de Melanie é pequeno, como ela: ela tem sua cela, o corredor, a sala de aula e o banheiro. Ela espera que um dia seja capaz de visitar a grande cidade de Beacon, ou apenas ir lá fora, mas por agora, ela só segue a rotina. Todo dia ela é amarrada em sua cadeira, feita para a aula, depois de volta para sua cela. A senhorita Justineau é a professora favorita de Melanie, e ela faz com que os dias valham a pena – Miss Justineau conta as histórias sobre deuses e lendas gregas, lê poemas e livros de antes do colapso, e gosta de ouvir as opiniões das crianças.

Os dias favoritos de Melanie são os dias com Justineau. Então, um dia tudo muda, o lugar onde Melanie vive é atacado, como seu mito grego favorito – Pandora, a “menina que tinha dons” – Melanie vai mudar o mundo.

Antes que eu mergulhe nesta resenha, devo observar uma coisa muito importante: o livro é sobre a Garota e todos os seus dons, porém, de fato, é um livro distópico com zumbis. A descrição do livro não esclarece este ponto, mas adianto que toda essa descoberta vale a pena. Em grande parte vemos tudo a partir da perspectiva de Melanie (não na primeira pessoa, mas através de seus pensamentos). Não se sabe exatamente o que está acontecendo, ou por que Melanie – que parece uma menina inteligente e imaginativa – vive em uma cela e tem que ser amarrada em uma cadeira por soldados apavorados. Em seguida, passo a passo, Melanie revela fatos inquietantes – como o fato de que ela só come uma vez por semana, e ao contrário das crianças nos contos de fadas que ela leu sobre que comem bolos e chocolates, ela só come larvas vivas.

Já deu para ver que Melanie não é normal, principalmente para uma guria de 10 anos de idade, mas ela não é exatamente o mesmo que os zumbis desse livro. Neste livro, temos um fungo mortal que está destruindo as células cerebrais do mundo, enquanto isso, Melanie mantém um QI com nível genial. O que faz dela uma pessoa valiosa para o resto da humanidade, podendo ser a chave para a cura.

Isso, é claro, levanta todos os tipos de questões éticas, e temos a fonte do conflito no livro. É moralmente aceitável que Melanie e seus companheiros sejam ratos de laboratório? Para o bem de toda a raça humana (ou o que resta dela, 20 anos após a queda apocalíptica da civilização), é normal abrir crânios de crianças? O dilema moral é apresentado sem ser muito didático, através de dois pontos de vista opostos – o do Doutor Caldwell, que dirige a experiência e não tem escrúpulos quando se trata de cortar crânios dos sujeitos e o de Helen Justineau, psicóloga, professora, e profundamente envolvida com o bem-estar de seus alunos. Carey faz um trabalho brilhante trazendo Melanie como uma protagonista simpática, sem cair na armadilha de usar o sentimentalismo pegajoso – você vê, Melanie não sabe que ela não é uma menina normal e ela certamente não tem conhecimento de que ela é um dos monstros também. É a narrativa de Melanie que impulsiona este livro, que faz com que a menina com todos os dons seja tão comovente; filtrar a narrativa através de Melanie (e outros personagens) transforma esta jornada em algo muito mais profundo.

Embora tenhamos as mudanças e as descobertas de Melanie ao longo do livro, uma coisa que permanece constante é a história de amor. Eu estou falando do amor entre uma criança e sua heroína, a senhorita Justineau. É um amor quase que maternal, é a história entre uma criança e um adulto que se preocupa profundamente com ela, e fará de tudo para protegê-la. Esta confiança é o coração do livro, uma das coisas mais interessantes.

Também é notável a forma como Carey trata sobre o apocalipse zumbi – Ele narra desde a origem fúngica da infecção e descreve a doença em belos e incríveis detalhes. A evolução do fungo é apresentada de forma meticulosa e fascinante, é tudo muito bem feito, chega a impressionar.

Em outras palavras: este livro vale todo o hype, galera. Absolutamente recomendado, além de estar na lista dos melhores livros de 2014.

Sou o Fundador do site Ovicio, Overplay e Muramasa. Fui idealizador e Game Designer do jogo Vencedor da DemoNight no BIG Festival 2014, o Jotunheim Project. Escolhido como Jurado do Anime Awards em 2024 e 2025. Amo games, sou fã de God of War, Dragon Quest, Fire Emblem, The Legend of Zelda e Pokémon. Coleciono livros, quadrinhos e guitarras.