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musashi-livrosUma das obras nipônicas mais famosas no globo, Musashi, do jornalista Eiji Yoshikawa, romantiza parte da vida de Miyamoto Musashi, um dos espadachins mais famosos do mundo. Tendo sido publicado originalmente em forma de folhetim no jornal Asahi Shimbun em 1935, o romance apresenta uma jornada tanto marcial quanto espiritual, mostrando o desenvolvimento do guerreiro ao mesmo tempo em que pouco a pouco ilustra o estado do Japão após um de seus períodos de maior conflito. Em muitos aspectos semelhante à Os Três Mosqueteiros, Musashi traz mistura aventura com eventos históricos e ponderações sobre filosofia e religião. Yoshikawa traz uma história de alta qualidade que, apesar de padecer de alguns dos problemas típicos aos folhetins, consegue ser ao mesmo tempo leve e extensa, densa e divertida, muito longe do que normalmente se imagina para uma obra com sua relevância histórica e literária.

A obra começa pouco depois da Batalha de Sekigahara, evento que definiu os rumos do Japão em um de seus períodos mais conturbados. O jovem Shinmen Takezô está saindo do campo de batalha junto a seu amigo Matahachi. Os dois queriam encontrar glória e fama na guerra, mas acabaram no lado derrotado. No entanto, o espírito agressivo e selvagem de Takezô o leva a continuar buscando seu destino através da espada. No entanto, as pessoas com quem vai tendo contato em sua jornada e os desafios que precisa lutar para superar acabam polindo tanto a alma quanto o corpo do rapaz. Ao longo de sua jornada, Takezô é rebatizado de Musashi e vai encontrando o seu caminho como bushi – um guerreiro – desenvolvendo sua técnica de espada ao mesmo tempo em que afia o espírito, percebendo que um combatente que busca a excelência não deve ignorar as artes, o conhecimento e mundo. Ao longo de quase uma década, Musashi vai encontrando e reencontrando vários personagens, desde velhos amigos, inimigos jurados, o monge que lhe colocou no caminho certo, seu nêmeses e até mesmo o amor de sua vida. Vários eventos e várias personalidades que vão compondo o destino do guerreiro até o seu derradeiro duelo com Sasaki Kojiro na Ilha Ganryu.

É certo que Musashi é uma obra que assusta. Oriental, famosa e volumosa, imediatamente passa a impressão de dificuldade, de ser uma leitura pesada, com uma linguagem difícil e temas complicados de se digerir. É uma impressão justa, exteriormente, o primeiro romance de Eiji Yoshikawa realmente pode intimidar leitores brasileiros, passando toda a impressão daquela literatura clássica hermética. A verdade é outra, apesar de sua importância para o cânone e para a própria cultura japonesa, Musashi é uma obra fácil de ler e muito divertida.
Claro que o percurso do bushi é recheado de momentos introspectivos, no qual o personagem pondera sobre a espada e sobre o próprio caminho, mas também é uma obra cheia de duelos e confrontos entre diversos personagens, não só do grande protagonista que é Takezô. O texto é muito fluido e cheio de diálogos e pensamentos diretos do personagem, como se ele conversasse diretamente com o leitor. Muitas cenas duram várias páginas, conforme o autor vai mostrando as conversas e impressões e movimentos dos personagens. Mas tudo passa muito rápido dentro da estrutura de folhetim, onde há uma quebra e uma pausa a cada duas ou três páginas. Talvez alguns leitores até sintam falta de um estilo mais denso e descritivo, principalmente na parte das lutas, coisa que não cairia bem tão bem em uma publicação de folhetim, contudo.

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Mas isto não quer dizer que o livro contém poucas informações sobre o período histórico em que é ambientado. Ao longo de suas páginas Eiji Yoshikawa vai apresentando vários aspectos culturais e sociais sobre o Japão medieval, tanto no que toca as suas instituições e costumes quanto ao próprio pensamento nipônico. A maior parte desta exposição acontece através de diálogos ou ações de personagem intercalados com narrações objetivas sobre alguma questão histórica ou o estado político da época. Muitas vezes isso é tão diluído que pode passar despercebido, principalmente por um leitor menos versado na cultura japonesa. Mas isso não precisa assustar aqueles que não possuem tanto conhecimento sobre o Japão, Musashi nem de longe é proibitivo neste aspecto, com certeza um dos motivos de ser uma das obras mais famosas no ocidente. É claro que as minúcias da obra são muito mais aproveitadas por leitores que já tenham tido um bom contato com a cultura do sol nascente, mas só pelos modos e pensares mais aparentes dos personagens, é possível aprender muito sobre o passado e o presente do povo japonês.

O fato de Musashi estar pautado na realidade não deveria enganar ninguém, contudo. Eiji Yoshikawa se firma no real, usando eventos, pensamentos e personalidades da época, mas o livro é recheado de licenças poéticas e outros exageros literários para compor o personagem que é Musashi. Ao longo do livro, diversos personagens se encontram e desencontram em meio à viagens ou a grandes cidades, quase como se todos vivessem em um mesmo condomínio. É praticamente impossível passar por algumas dezenas de páginas sem que Musashi encontre algum conhecido de longa data ou mesmo passe quase do lado de alguém importante em sua vida sem notar essa pessoa. A depender da análise, isso poderia ser considerado algo forçado e um demérito para o livro, no entanto, dentro do escopo de um folhetim, é algo que se pode relevar, ainda mais por ter ficado tão divertido na forma como Yoshikawa expôs.

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Pode-se dizer o mesmo das capacidades marciais de Musashi e de outros personagens. A obra não tem medo de colocar o protagonista e alguns outros personagens em um nível de competência marcial, intelectual ou espiritual acima do que seria realista, e muitas dos confrontos da obra são exagerados e aventurescos, realmente como uma obra de Capa e Espada à lá Alexandre Dumas. Mesmo deixando de lado todas essas “literaturidades” e “folhetinações”, contudo, não se pode considerar de forma alguma que a obra exprime a Verdadeira história do Musashi histórico. Apesar dos registros sobre o bushi, a maior parte de sua vida pertence ao campo da especulação e Yoshikawa não se importa em alterar datas, eventos ou criar personagens para compor a sua trama.

Engana-se quem pensa que o livro traz apenas foco em Musashi. Eiji Yoshikawa apresenta uma série de personagens que recebem um foco expressivo na narrativa do livro. Cada um deles possui a sua própria história, seus próprios anseios e seus encontros e desencontros durante perambulações pelo Japão. Alguns deles, como Iori, o monge Takuan e Sasaki Kojiro também são históricos, já outros como os Matahachi e sua idosa mãe Osugi – ferrenha inimiga de Musashi – e Joutarô são fictícios. Até mesmo Otsu, que compõe o par romântico do bushi e tem quase tanto destaque na obra quanto ele mesmo, não tem muita procedência histórica. Essa multitude de personagens funciona muito bem para criar uma narrativa vívida, mostrando diferentes vidas e histórias que vão se cruzando e se tocando, cada uma buscando o seu destino num período de grande mudanças do Japão. Talvez os muitos capítulos em que Musashi está ausente aborreçam os leitores que estavam atrás do aspecto mais marcial da obra, no entanto, o jornada e o desenvolvimento do guerreiro filósofo nunca seria tão bem arquitetada sem mostrar as várias pessoas comuns. Além disso, no fim das contas, Musashi é mais sobre o Japão e suas pessoas do que o próprio guerreiro que dá nome à obra.

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Nem tudo merece elogios na obra, é claro. Um dos maiores poréns do romance está no grande rival de Musashi: Sasaki Kojiro. Em sua ânsia por criar um contraponto ao criador do estilo de duas espadas, Yoshikawa apresenta um personagem mimado, arrogante e forçadamente desagradável. É impossível sentir qualquer empatia por Sasaki Kojiro, e em vários momentos ele soa apenas como um sujeito bonachão que deveria receber logo a sua lição, não como um adversário digno do protagonista. Além disso, em certos momentos, a estrutura folhetinesca da obra lhe prejudica, sobretudo no final. Yoshikawa compõe uma rede de relacionamentos e personagens e pequenas e grandes histórias, mas acaba que mau consegue fechá-las, dando a impressão de que faltou algo e que muitos personagens não tiveram o que mereciam.

Problemas à parte, Musashi é uma obra que merece ser lida. E existem várias formas de se aproveitar da experiência. O tamanho do romance, quase duas mil páginas, assusta sim, mas ele é simples, com uma narrativa leve, e ainda assim cheio de camadas para se descobrir. Os que buscam ponderações filosóficas e religiosas poderão encontrar com facilidade estes aspectos, aqueles que estão atrás da cultura e da sociedade japonesa sairão muito satisfeitos com a leitura. E os que buscam apenas uma história interessante com personagens cativantes também se encontrarão em Musashi.

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