
Sinopse
O Doador de Memórias – Lois Lowry
Ganhadora de vários prêmios, Lois Lowry contrói um mundo aparentemente ideal onde não existe dor, desigualdade, guerra nem qualquer tipo de conflito. Por outro lado, também não existe amor, desejo ou alegria genuína. Os habitantes da pequena comunidade, satisfeitos com suas vidas ordenadas, pacatas e estáveis, conhecem apenas o agora – o passado e todas as lembranças do antigo mundo foram apagados de suas mentes. Uma única pessoa é encarregada de ser o guardião dessas memórias, com o objetivo de proteger o povo do sofrimento e, ao mesmo tempo, ter a sabedoria necessária para orientar os dirigentes da sociedade em momentos difíceis. Aos 12 anos, idade em que toda criança é designada à profissão que irá seguir, Jonas recebe a honra de se tornar o próximo guardião. Ele é avisado de que precisará passar por um treinamento difícil, que exigirá coragem, disciplina e muita força, mas não faz idéia de que seu mundo nunca mais será o mesmo. Orientado pelo velho Doador, Jonas descobre pouco a pouco o universo extraordinário que lhe fora roubado. Como uma névoa que vai se dissipando, a terrível realidade por trás daquela utopia começa a se revelar. Premiado com a Medalha John Newbery por sua significativa contribuição à literatura juvenil, este livro tem a rara virtude de contar uma história cheia de suspense, envolver os leitores no drama de seu personagem central e provocar profundas reflexões em pessoas de todas as idades.
Nossa resenha:
Antes de mais nada eu devo parabenizar a editora Arqueiro por publicar este livro no Brasil. Eu já tinha ouvido falar dele, mesmo antes de ser anunciado um filme, que estreia hoje nos cinemas. O livro é bastante popular nas listas internacionais de leitura, sempre tive curiosidade de conhecê-lo. Ele foi publicado em 1993 e é um livro desafiador, já explico o motivo. É interessante que, lá fora, muitas pessoas pedem a inclusão deste livro nas bibliotecas públicas e nas escolas. Sim, ele não é mais um livro de romance bobinho, ele vai muito além, falo sério. Esta é uma ótima obra e eu adianto isso para vocês.
A história começa com Jonas enfrentando a perspectiva de uma cerimônia iminente em sua comunidade que vai colocá-lo em direção à vida adulta. A cerimônia vai anunciar o que ele fará durante sua vida adulta e ele será treinado para isso. Esta decisão baseia-se em anos de observação meticulosa. Durante este período de introspecção, vemos que o mundo de Jonas é algo diferente do que conhecemos. Supomos que a história se passa em um futuro distópico, em que uma sociedade foi estruturada para garantir a paz e a segurança.
Para que isso seja possível, há um sacrifício que nenhum dos membros da Comunidade tem ciência, com a exceção de um membro: O Recebedor de memórias. E na cerimônia, Jonas é escolhido para se tornar o próximo Recebedor. Esta é a posição mais honrada dentro de sua comunidade. Isso transforma o papel atual do Recebedor no Doador. O doador impõe as mãos sobre Jonas e transfere a ele lembranças de um tempo em que o mundo era muito diferente do que ele conhece. O mundo que Jonas vê nas memórias está cheio de cores, alegrias, amor, dor e um grande sofrimento. Mas, pelo menos, neste mundo há sentimentos – algo que a atual Comunidade acredita ter controlado completamente, já que eles confessam todos os seus pensamentos e emoções. Jonas descobre que os sentimentos são mais profundos e complexos e resultam em diferentes experiências, o que é estranho para a mesmice e a rotina da altamente controlada Comunidade.
É emocionante quando Jonas recebe a memória do amor. A memória mostra um lugar na época do Natal e gerações de uma família estão todos reunidos em volta da árvore decorada para trocar presentes. Na Comunidade, os bebês são separados de seus pais biológicos e criado por pais adotivos, e quando saem da casa dos seus pais adotivos, seus pais são realocados para viver em uma comunidade totalmente adulta, antes de viver entre os anciãos. Portanto, falta a unidade familiar na sociedade, uma coisa que Jonas se torna consciente com o recebimento desta memória. É interessante que a autora tenha escolhido o Natal, para muitos é uma época de tradição, de família, atingindo diretamente no coração do leitor. O que torna esta cena ainda mais comovente, visto que Jonas aprende a diferença entre uma sociedade com amor e sem amor. É este conhecimento que o influencia em sua futura decisão.
Gostei das indicações no texto falando sobre clonagem. Considerei que tudo que foi feito foi para controlar a população e sustentar o regime. A ideia da reciclagem de nomes, a menção de geneticistas e várias outras referências me fizeram pensar muito a respeito. A autora dá a entender que existe uma história muito maior ao redor da comunidade. Algo que nos faz e permite imaginar muito.
Quando terminei o livro, parei um pouco e refleti sobre o que li. É interessante ver que um livro de 1993 pode ser tão atual. Ao olhar em volta para o que está acontecendo agora – o sacrifício voluntário de liberdades civis em prol da segurança – vemos que não é apenas uma ficção, é um retrato do que vários países tem adotado, podem não possuir os elementos fantasiosos presentes no livro, mas estão caminhando pelo caminho da mesmice, abandonando a individualidade e a liberdade.
E é disso que o livro trata: o sacrifício da liberdade em prol da mesmice e do controle pacífico. Será que vale a pena abrir mão de nossa humanidade? De nossa liberdade de expressão? De nossos pensamentos e memórias? Este é o dilema enfrentado por Jonas, pois ele precisa entender qual é o bem maior para a humanidade: a mesmice ou a identidade humana.
Este livro desafia nossa consciência social, desafia o próprio conflito que existe dentro de nossa sociedade, e isso de forma global. Você não pode controlar as pessoas, todas são tão diferentes. É a semelhança que permite o controle. É o sacrifício do individualismo que permite o controle. O acesso ao conhecimento e a história deve continuar a ser um privilégio público. A manipulação e o controle de ferramentas que permitem o acesso à história e ao conhecimento, especificamente na forma de livros é um sinal de uma população controlada. Quem controla as nossas informações? Quem escreve os nossos livros de história? É pura a informação que temos ou é manipulada para controlar a população? Este livro é desafiador porque na leitura de uma tarde eu era capaz de formular essas perguntas e respondê-las dentro do meu quadro de referência: a recente história de nosso país, desde a ditadura até hoje.
Por fim: A edição está muito boa, a capa é a mesma do filme. O livro vale a pena. Um ótimo entretenimento com leitura rápida, mas que traz algo a mais: Você refletirá bastante depois. Um dos melhores investimentos de tempo que tive recentemente. Recomendadíssimo!
E abaixo está o trailer do filme, que estreia hoje nos cinemas:




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