Quase um Spin-off
O Dragão Renascido com 48% de Desconto na Amazon
Muitas séries de fantasia costumam considerar o 3 como um número cabalístico. É comum no mundo da literatura fantástica os livros estarem organizados em trilogias, uma herança que certamente acabou vindo de Senhor dos Anéis. O número acaba sendo tão difundido, que mesmo algumas séries com mais de três volumes acabam utilizando a quantidade para marcar fins de “arcos narrativos” ou de conjuntos de história. Pra bem ou para mal, O Dragão Renascido, terceiro livro de Roda do Tempo, série do finado Robert Jordan que foi finalizada com 14 volumes, não se importa com o numeral. A obra continua os eventos iniciados nos livros anteriores mais diminuindo do que aumentando o ritmo, acabando por ser uma espécie de prólogo para os acontecimentos que devem se dar em sua sequência.
De certa forma, a existência deste terceiro livro soa quase desnecessária. Diferente dos volumes anteriores, O Dragão Renascido parece que não avança muito do que importa na história de Roda do Tempo. Não é como se não tivesse nada de importante ou interessante na obra, pelo contrário, mas em se tratando da guerra contra o Tenebroso, o conteúdo deste livro poderia facilmente ter sido incluído em A Grande Caçada, caso o autor tivesse planejado um pouco melhor o seguimento da história. No entanto, mesmo que o terceiro volume da série de fato pareça muito com algo a parte, esta crítica se torna um tanto quanto vazia, já que é justamente este o objetivo de sua existência.
Se nas obras anteriores Rand al’Thor, a reencarnação de Lews Therin, o Dragão, é o personagem mais explorado, chegando ao ponto do desperdício de páginas e à repetição, em o Dragão Renascido ele é apenas o coadjuvante. O que não quer dizer que ele não esteja fazendo coisas importantes para a trama. No entanto, enquanto o objetivo do personagem é alcançar Callanthor, espada cujas profecias afirmam que só será empunhada pelo verdadeiro Dragão, para que se confirme sua identidade, essa jornada dele não é exatamente o foco do livro. Ainda que seja o principal dele.
São os amigos de Rand, assim como ele provenientes de Dois Rios, que são os protagonistas da obra. E esta é a causa de existir do livro. Apesar destes personagens já terem aparecido nos livros anteriores, inclusive ganhando capítulos com seus próprios pontos de vista, com a exceção de Perrin, eles acabaram não sendo muito bem desenvolvidos. E aparentemente, é com o intento de corrigir este problema que O Dragão Renascido foi pensado. E depois de dois livros imensos quase inteiramente sobre as percepções de Rand sobre ele mesmo e sua luta por manter a sua própria identidade, é revigorante para a série se afastar um pouco disso.
O que não quer dizer que não se veja mais do Dragão Renascido na obra. Inclusive, alguns dos momentos mais interessantes sobre Rand são vistos neste livro. Pois a partir da visão dos outros personagens sobre ele, é possível visualizar o quão perto da loucura o rapaz está, coisa que não foi tão bem passada nas obras anteriores, já que Rand sempre acabava ponderando e racionalizando sobre a questão. Na verdade, sob o olhar de Perrin, a impressão que passa é que talvez o Dragão já tenha passado de um ponto em que não pode retornar.
Mas quem oferece os melhores momentos do livro está longe de ser o protagonista apelão de Roda do Tempo. A fonte das passagens mais interessantes está naquele personagem que foi mais negligenciado nos dois livros passados, quase não possuindo destaque além de um de seus feitos em A Grande Caçada. Finalmente curado – ou pelo menos é o que parece – Matrin Cauthon começa a ser tratado como uma parte importante da história, coisa que já deveria ter acontecido, já que ele, junto com Perrin e Rand, é um dos três Ta’veren da região de Dois Rios. Se antes o rapaz parecia apenas um jovem encrenqueiro e quase intragável, aqui a personalidade dele é desenvolvida, e, assim como seus dois companheiros, começa a revelar “capacidades extraordinárias” apropriadas para um protagonista de alta fantasia. Mas o mais interessante mesmo é a desconfiança que Jordan coloca ao personagem. Mesmo insensato e algo impulsivo, Mat é descrito como dono de uma desconfiança quase exacerbada… o que numa história onde todos parecem inocentes e ingênuo, ele seja a praticamente a única pessoa com bom senso. Além do jovem trapaceiro, o povo Aiel ganha bastante destaque, e são importantes para a trama e interessantes de se buscar entender.
No que se trata de “inocência”, contudo, o livro ajuda a solidificar as mudanças neste aspecto que começaram a surgir em A Caçada Selvagem. Embora toda a trama seja bastante pudica, e em geral os personagens continuem um tanto ingênuos, todos eles já tiveram sangue nas mãos à esta altura. Mesmo os que ainda problematizam bastante a morte, já mataram mais de uma vez. Sendo que alguns deles o farão sem remorsos e acharem que a vítima merecia. Após todos os eventos que participaram desde o primeiro volume da série, isto pode ser uma mudança aceitável. O que ainda soa forçado é o desenvolvimento deles.
De alguma forma, os jovens de Dois Rios se tornaram completamente experientes em suas artes de combate. Perrin e Mat conseguem vencer guerreiros plenos e assassinos capazes sem problemas. Enquanto Nynaeve e Egwene tem poder equiparável, ou superior, a Aes Sedais muito mais velhas e treinadas do que elas. Isso não é um grande pecado, já que na alta fantasia os jovens tem o costume de se desenvolverem rápido até demais, mas não deixa de ser forçado. Teria sido mais interessante se cada um dos livros possuíssem um tempo maior entre si, justificando assim o crescimento combativo e mágico de cada um dos adolescentes da série, enquanto pouco a pouco iam envelhecendo e amadurecendo. Não é o caso. E talvez seja melhor assim, ou a série de 14 livros poderia acabar ficando com o dobro ao tentar mostrar um desenvolvimento mais crível.
Apesar de todo o seu jeito de “spin-off”, O Dragão Renascido traz coisas interessantes para a Roda do Tempo, tanto a série quanto o conceito. De forma alguma ele irá mudar para melhor a opinião de alguém que esteja lutando para gostar das obras de Robert Jordan, mas leitores que estão tendo um bom tempo com a série continuarão gostando dela. Mais uma vez o autor cometeu o que parece ser seu maior defeito; ele lança várias linhas de história que se separam e deveriam se unir no final em um momento épico, mas não consegue acertar o timing de juntar tudo o que deveria, com a intensidade que deveria. No entanto, o ponto em que Jordan deixa a história dá a entender que o próximo livro da série será o melhor até então. Depois de um livro inteiro que soa como um prólogo, nada menos do que isso pode ser esperado para a Ascensão das Sombras… Mas também é possível que o autor entregue mais uma história sobre os personagens viajando de um lado para o outro atrás de algo e descobrindo coisas que não haviam sido sequer pressagiadas.
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