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Brandon Sanderson têm sido um dos autores de fantasia mais comentados por aí, considerado como um dos nomes a se ficar atento da geração de autores que surgiu após os anos 2000. Elantris, publicado em 2005 recebeu considerações positivas na época, mas foi Mistborn – O Império final, lançado um ano depois, que acabou marcando o trabalho do autor, sendo uma de suas obras mais conhecidas. Sanderson é muito conhecido pela sua produtividade, pelos seus plot twists e por seus sistemas mágicos – tema que chegou a ser objeto de três artigos seus sobre criação de magia na literatura fantástico – e não é incomum ver os fãs do autor comentarem sobre estas suas características, além de exaltarem os universos criativos de seu livro. Mistborn – O Império Final de fato fala muito sobre esse escritor que se tornou o xodó de vários leitores brasileiros, e o livro faz um trabalho muito bom em certos aspectos de narrativa e principalmente de criação de mundos fantásticos. No entanto, mesmo que o coro elogioso que costuma saudar o autor de fato aponte para verdades, a opinião quanto a obra costuma ignorar os pontos em que Sanderson não consegue brilhar, que caem na mediocridade e impedem O Império Final de ser uma obra realmente impressionante.

Certa vez um herói foi escolhido para salvar o mundo. Ele falhou. Algo aconteceu e o mundo que ele deveria ter libertado sucumbiu diante o seu governo ditatorial e maligno. Seus aliados foram elevados à nobreza, título que os filhos e os filhos e toda linhagem deles também carregariam. Todos os outros se tornaram skaa. Escravos quase sem direitos, trabalhadores braçais vivendo na pobreza, na sujeira e sujeitos aos caprichos da nobreza. Quebrados e passivos, as chances reais de uma grande e bem sucedida revolva são ínfimas, mas nem todos desse povo que vive nas lavouras e nas grandes cidades é tão submisso. Alguns skaa, filhos bastardos e fugidos de algum nobre, geralmente, podem descobrir possuir o dom da Alomância. Os alomânticos nascem com a capacidade de usar um de 8 metais básicos que lhes permitem feitos como aumentar sua força e resistência, detectar o uso de alomância e aplacar ou enraivecer pessoas e multidões.

Muitos dos skaa alomânticos, párias que nunca serão nobres, usam suas habilidades para formar grupos criminosos e fazer riqueza tomando o dinheiro dos nobres em roubos e saques. Mas mesmo suas capacidades ficam abaixo ás de um Nascido das Brumas, que consegue utilizar todos os metais e realizar feitos incríveis. Kelsier é um dos Nascidos das Brumas. Talvez o primeiro skaa nascido nas brumas. E depois de retornar de seu trabalho forçado nas minas, ele está disposto a golpear o Império de uma forma que o Senhor Soberano jamais possa se recuperar. Uma verdadeira rebelião orquestrada por alomânticos poderosos que porá o establishment abaixo. Já Vin a outra protagonista da obra, é uma ladra que vivia marginalizada entre skaa ladrões comuns, sem nem desconfiar de seus poderes. Violência, traição e solidão foi tudo o que conheceu em vida, no entanto quando é encontrada por Kelsier e descobre também ser uma Nascida das Brumas, ela se vê imersa com a primeira fagulha de rebelião, o mundo dos nobres e seus sentimentos conflituosos quanto a confiar ou não em seus novos companheiros.

Não há dúvidas de que Sanderson cria um cenário interessante. O Império Final é cheio de ideias e imagens bem pensadas, que remetem não só a uma estética como a uma problemática vitoriana. A capital do Senhor Soberano, Luthadel, é uma clássica Londres dickensiana, cheia de sujeira, crime e desigualdade. Isso o autor consegue apresentar muito bem, e torna-se nítida a visão de uma cidade escura e deprimida onde chuvas de cinza são uma constante e cujas noites são dominadas por intensas brumas um tanto sobrenaturais que assusta tanto skaa quanto nobres. Sem dúvidas, o vilão criou uma nação terrível, mas ela de forma nenhuma foge à realidade. Apesar do ambiente ser claramente londrino, a condição dos skaa acabam sendo muito mais semelhantes aos mujiques russos – servos e campônios que existiram até a revolução socialista de 1917 – muito explorados nas obras de Nikolai Gogol. Os trabalhos realizados pelos skaa na cidade de Luthadel, no entanto, é numa referência muito clara à Inglaterra pós-revolução industrial.

Isso tudo é lançado de forma bem estratégica, e não é difícil para o leitor criar as imagens que Sanderson propõe. O autor faz um ótimo trabalho em moldar o seu mundo e apresenta-lo durante a história. Mas acaba que o que ele cria são apenas imagens uma maquete bem construída, que à distância esbanja suas características mais visíveis e imagéticas mas que não apresenta tanta profundidade. A relação dos skaa com os nobres é superficial e a relação entre as duas classes resumida a umas pinceladas para lhes dar cor, fomentar reações do leitor, mas de fato pouco explorado. Talvez o momento mais emblemático envolvendo essas questões sociais seja quando Vin, em um momento de fúria, acusa seus amigos alomânticos de não serem skaa de verdade, pois vivem sem preocupações e com toda sorte de regalias que um skaa não tem. A questão, no entanto, é logo colocada de lado e nunca mais mencionada. No entanto, permanece o questionamento mais verdadeiro da obra.

É interessante pensar que há um pouco de conforto na figura do Senhor Soberano. A ideia de um ser sobrenatural supostamente imortal e poderoso possa criar um Império repleto de escravos é muito menos terrível do que a realidade. Na história da humanidade já houveram muitos que viveram – e ainda vivem – como os skaa e não foi necessário a existência de nenhuma espécie de “deus maligno” para que povos inteiros fossem oprimidos. E não é como se este vilão fosse uma metáfora para alguma coisa mais mundana ou uma representação de alguma característica intrínseca do ser humano. Ele é o que é: uma figura fantástica maligna sem tantas nuances apresentadas. A história milenar deste personagem é inclusive narrada durante a obra. Todo capítulo começa com um parágrafo dedicado à história do Senhor Soberano quando ainda era um herói, levantando a questão de como ele teria se tornado quem é. Apesar de ter a sua relevância para a história, o objetivo de Sanderson foi principalmente o de compor uma cenário que contivesse a ideia de um herói O Escolhido que se tornou o grande vilão. No entanto, essa questão em particular acaba não significando muito para a trama e nem para a atmosfera. O próprio Sanderson admite que não tinha certeza se e como isso atingiria o leitor.

Os protagonistas do livro não sofrem tanto quanto o vilão em questão de aprofundamento, embora acabem sim sendo bi-dimensionais. As personalidades de Kelsier e Vin são bastante explicitadas, trabalhadas e re-trabalhadas durante a obra, e em momento nenhum se comete o erro deles saírem de seus próprios “eus”. Contudo, ambos são personagens de “um conflito só”. Kelsier sempre está às voltas com a morte da esposa e seu ódio ferrenho pela nobreza, que parece ser a única coisa que o motiva, enquanto Vin fica eternamente na dicotomia “quem eu sou?”. Durante toda a trama a Vin paranoica e ladra de rua discute internamente com a Vin que confia e que aprende a confiar no luxo. O autor consegue trabalhar essas bases, consegue estabelecer personagens atraentes e interessantes, mas além dos personagens apenas aparentarem alguma profundidade, acaba que em vários momentos parece que Sanderson está martelando repetidamente as mesmas questões. Pelo menos ele faz isso razoavelmente bem.

Quem acaba se dando realmente mau nesta história são os coadjuvantes, o time que Kelsier reúne para fomentar e executar o plano da rebelião. Apesar de terem certo carisma e em dado momento trazerem toda uma sensação de familiaridade, como se realmente fosse um grupo, são desprovidos de proposito e motivação. Com duas notáveis exceções, os coadjuvantes quase não fazem por merecer a sua existência no livro. Fossem substituídos por qualquer outra criação, não faria diferença. Ainda assim, se ruim com eles, pior sem eles. Mesmo sendo vazios e bem apagados, com características bem superficiais, seria difícil imaginar a obra sem a presença de Brisa, Ham, Fantasma e Dockson. É uma pena que tenham sido mau usados, porque, cada um com sua competência criminosa e alomântica, prometiam pelo menos uma cena ao estilo 11 Homens e Um Segredo. Isto nunca acontece, no entanto. E a ideia de uma gangue passageira de criminosos especializados – outra referência à Era Vitoriana, quem assistiu O Primeiro Assalto de Trem saberá – acaba se perdendo.

O forte do autor está em outro campo, não nos personagens. O que se destaca em O Império Final com toda certeza são as sequencias de ação. Não é apenas uma questão de escrever bem as lutas e os movimentos e os golpes. Sanderson consegue colocar toda a criatividade do seu sistema de magias durante as lutas. São momentos realmente emblemáticos os que Kelsier ou Vin usam alomância para puxar e empurrar metal, praticamente voando sobre as noites da cidade enevoada enquanto golpeiam, se escondem, esquivam e fogem de adversários.

As lutas são dinâmicas e cheias de movimento são de fato muito empolgantes, mas poderiam ter sido estragadas caso os personagens fossem aquele tipo de protagonista invencível e que não precisa se preocupar com nada. Felizmente, isso está longe de acontecer em Mistborn. Tanto Vin quanto Kelsier – aliás, ainda mais Kelsier – passam um pouco da ideia de serem “escolhidos”, já que são os únicos skaa nascidos das brumas que se tem notícia, mas isso de forma alguma os torna invencíveis. A todo o momento o livro mostra que eles se arriscam, que eles sangram e precisam se esforçar para conseguir as vitórias. A possibilidade de usar todos os poderes alomânticos de fato traz uma grande vantagem, mas, mais importante que isso, traz várias possibilidades narrativas onde são mostradas diferentes estratégias para sobreviver contra vários inimigos menos capazes ou enfrentando adversários muito mais fortes.

Infelizmente, esse domínio de ritmo e narrativa não se mostra na própria história do livro. Apesar de divertida e interessante, a trama possui alguns problemas no que toca a exposição de seus eventos. Apesar de no inicio Sanderson fomentar a ideia da gangue de ladrões se reunindo para unir as suas habilidades e competências para fomentar uma rebelião que derrube o Império Final, boa parte desta questão é jogada de escanteio e colocada abaixo das experiências pessoais de Vin dentro da alta-sociedade onde ela busca se infiltrar. Todo o desenvolvimento real da rebelião fica relegado a um segundo plano, e o autor apresenta apenas cenas esparsas sobre o que estão fazendo, como estão se saindo e quais problemas estão surgindo. Normalmente tudo isso entreouvido por Vin em alguma reunião, comentado para Kelsier por dos coadjuvantes carismáticos, mas muito mau desenvolvidos, ou, com sorte, apresentados como segmento ou consequência de alguma outra atividade de Kelsier.

Se já é ruim que o autor crie toda uma ideia interessante para depois deixar de escanteio, a forma como os personagens vão perseguindo seus objetivos e aspirações é pior. É como se Vin, Kelsier e o resto da gangue nunca conseguissem realmente ir atrás de seu objetivo, criar o seu próprio caminho. Muitas das oportunidades que eles agarram surgem de forma não-planejada, e não obra de seus próprios esforços. Coisa semelhante acontece com os perigos, desafios que enfrentam. Nunca parecem ser algo que eles próprios colheram, mas advindos meramente do acaso e do azar. Isso pode ser frustrante para um leitor atento e terrível para a história, pois efetivamente a trama não se pauta nas ações dos personagens e nas consequências por eles criadas, mas de passagens de tempo abruptas, narrativa fragmentada e situações desconexas e aleatórias. A ideia da gangue e da rebelião, que são uma das coisas mais impactantes que o autor propõe e leva tempo para construir são deixadas de lado para servir como apoio para as megalomanias de Kelsier e das sofrências de Vin.

Esse mau uso das próprias possibilidades que cria, além da estrutura pouco efetiva, torna-se ainda pior com o estilo extremamente genérico e pouco memorável. Apesar de ter bons momentos, na maior parte do tempo a escrita de Sanderson é um tanto apática e enlatada, entregando apenas o que precisa para ser um livro adequado dentro de seu gênero e público alvo. Não há nenhum defeito real nesse ponto, mas entregar apenas o absolutamente exigido pela “comercialidade” da obra certamente não nada que seja elogiável. O autor tem as suas particularidades e características elogiáveis, então acaba sendo uma pena que se entregue tão fácil no que toca a forma de sua escrita e linguagem.

Ainda assim, em meio à defeitos e qualidades, conforme o final se aproxima, o autor se redime. Ou pelo menos, quase se redime. Uma das melhores cenas de Kelsier certamente está no final do livro e nela o autor mostra que domina os recursos narrativos necessários para criar expectativa no leitor e reviravoltas realmente interessantes. Está tudo lá. Às plenas vistas, mas Sanderson consegue esconder bem até que chegue o momento da revelação. Chega a ser interessante, pois acaba tendo até um caráter metalinguístico.

O plot twist (na verdade, os dois ou três) funciona não porque o autor vai construindo uma revelação inesperada pela dupla personagem-leitor, mas porque ele entende como os leitores pensam e trabalha as informações e acontecimentos tendo em mente que quem lê ao livro sabe que o escritor está tentando fazer, sabe que o escritor quer criar. E quase que pondo em prática a Teoria dos Jogos, Sanderson vai e escreve sua trama sabendo que o leitor sabe que ele vai tentar enganá-lo, cativa-lo e buscar fomentar uma série de emoções. Nesse sentido, Mistborn é uma obra realmente moderna, pois admite que os leitores já aprenderam – por osmose ou por estudo – os clichês e os recursos narrativos e estruturais que aparecem em infinitas histórias. Isso certamente atenua algumas das questões envolvendo o desenvolvimento da obra, mas, dado o tamanho da obra, não chega a desculpar e muito menos justificar as questões apontadas.

Mistborn – O Império Final é um livro competente, e que justifica a atenção que Sanderson recebeu no início de sua carreira. Ele certamente aponta um potencial muito grande para o autor. É provável que suas obras subsequentes sejam muito mais memoráveis e únicas caso ele se permita uma liberdade além dos ditames do puramente comercial. Com muitos defeitos e outros tantos acertos, acaba não estando ao alcance da fama, mas com certeza é uma obra divertida e esforçada, talvez até mesmo sincera. Provavelmente não irá encher os olhos de leitores que buscam por obras – de fantasia ou não – com “algo a mais”, mas até eles podem encontrar uma leitura agradável e prazerosa.



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