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Abraçando o Clichê

Com 14 livros (todos com mais de 600 páginas) e contando com uma obra extra que funciona como prólogo, Roda do Tempo é sem dúvida uma das maiores séries de fantasia do mundo. Escrita ao longo de 28 anos, seu autor, Robert Jordan, não viveu o suficiente para ver – e escrever – o fim da saga. Sofrendo de uma doença cardíaca, Jordan sabia da improbabilidade de terminar o trabalho de sua vida e as anotações que deixou serviram para que Brandon Sanderson (autor de Mistborn e Elantris), apontado pela esposa do falecido autor, pudesse terminar a obra.

Enquanto “A Memory of Light”, último livro da série, saiu em 2013, o primeiro livro de Roda do Tempo, O Olho do Mundo, foi publicado em 1990. Um romance longo, com 800 páginas, que intimida imediatamente tanto por seu tamanho quanto por suas várias continuações, e que pode afastar mesmo os amantes da alta fantasia devido a sua previsibilidade, densidade e aos clichês em profusão. E que, no entanto, para quem consiga relevar estes contratempos, pode se mostrar não só uma leitura agradável, mas trazer algo como uma satisfação saudosista de ler algo que remete às velhas histórias de magia e espadas, ou então a antigos jogos eletrônicos de RPG.

Em O Olho do Mundo, um grupo de jovens do isolado vilarejo de Campo de Emond, num estilo “Jornada do Herói”, descobre que está sendo perseguido pelo Tenebroso, ou Ba’alzamon, uma entidade que busca trazer a destruição ao mundo. Os rapazes – Rand, o protagonista, Mat e Perrin – precisam fugir de sua terra natal e acompanhar Moirane, uma feiticeira Aes Sedai, até o centro de poder de sua ordem, para protegerem seus entes queridos e evitarem um destino, como é de costume nesse tipo de literatura, talvez pior do que a morte.

Durante a atribulada jornada para Tar Valon, que fazem também em companhia de Egwene, Nynaeve e Thom Merrilin, duas conterrâneas e um bardo viajante, os personagens aprendem sobre as velhas lendas do mundo e descobrem os contratempos que as histórias de aventura e viagens não contam. No processo, também aprendem que as coisas não eram tão simples quanto imaginavam e que o girar da Roda do Tempo pode estar para trazer uma nova era em que o destino do mundo estará nas mãos deles. Dessa forma, ecoando a maior parte das etapas do Monomito de Joseph Campbell e muitas obras de fantasia épica, numa trama completamente previsível onde é óbvio que a figura do Dragão, tanto herói quanto desgraça de eras passadas, que está profetizado para renascer, não teria como ser outra pessoa que não Rand al’Thor.

É impossível negar que a ideia geral da trama de O Olho do Mundo cai numa mesmice tão notável que arrisca o desgosto de alguns leitores. Toda essa jornada do jovem que descobre que é mais do que pensava e precisa sair de sua pequena cidade natal para conquistar o mundo já foi contada e recontada à exaustão, passando por mitologias, literatura, cinema e jogos eletrônicos. Ainda assim, a forma como Robert Jordan vai apresentando a história do primeiro livro de Roda do Tempo possui uma inocência, quase uma ingenuidade, que de alguma forma consegue ser muito carismática. Em muitas obras, isso apenas faria com que a história e os personagens soassem infantis e desengonçados, mas não é o que acontece na trama de O Olho do Mundo.

Existem sim alguns momentos que o tom da história escorrega um pouco e se torna um tanto piegas, tendendo para algo mais infantil, ou mesmo forçado. Como a maioria dos personagens são jovens, o livro está constantemente em uma corda bamba, precisando equilibrar o tom para que as coisas não soem demasiado sérias, ou – como normalmente acontece quando Rand interage com Egwene, seu possível par romântico – meio bobas. Mas, em geral, Jordan consegue acertar, lidando com os adolescentes de forma factível e interessante. É verdade que o livro acaba caindo no clichê de mostrar as agruras de uma “aventura” que não era contada nas histórias de heroísmo que os personagens ouviam. Contudo, a dificuldade da jornada e o cansaço e a paranoia crescentes dos jovens de Campo de Emond são muito importantes para que O Olho do Mundo não caia naquele tipo de história de fantasia na qual os personagens podem tudo e as perdas são facilmente esquecidas. No quesito emocional, Rand e seus amigos são muito mais críveis do que os protagonistas da maioria das histórias de fantasia “padrão” de bem contra o mal e jornada do herói.

Talvez a grande diferença seja que Roda do Tempo não é meramente uma cópia inconsciente de outras histórias do gênero, ou então algo que mais parece saído diretamente de uma campanha ruim de RPG, como muitas obras atuais de fantasia épica acabam soando. Apesar do uso extensivo da Jornada do Herói, O Olho do Mundo se esforça para mostrar originalidade, mesmo que dentro de seus clichês. O próprio conceito da Roda do Tempo – onde no passar das eras tudo está fadado a acontecer novamente até que o ciclo seja quebrado – é uma ideia que traz um potencial interessante para a história e funciona como uma justificativa para todo o clichê, pois, no girar da Roda, a história de Rand al’Thor, um jovem camponês que precisa enfrentar um grande mal, é apenas mais uma instância de uma trama que se repete e se repete eternamente.

Porém, se Jordan acerta no ritmo, no tom e na exposição do mundo fantástico que criou para Roda do Tempo, a estrutura do livro não se mostra tão esmerada. Ao longo de suas 800 páginas é perceptível que o romance vai se desgastando. Como a maior parte da obra mostra apenas o ponto de vista de Rand al’Thor, os momentos em que outros personagens começam a ganhar suas cenas parecem estranhos, como se o autor não tivesse se preparado para aquilo e precisasse incluir às pressas a novidade. E falando em preparo, conforme o livro vai se aproximando do final, os acontecimentos vão se passando com mais rapidez e num ritmo completamente diferente do resto da obra. É como se, conforme chegava ao fim de O Olho do Mundo, Jordan tivesse percebido que o livro já estava grande demais e que não poderia mais se estender. O resultado é que o desfecho é bastante insatisfatório e praticamente surge sem aviso, como se a trama desse uma guinada súbita e forçada para se adiantar para um final. A consequência disso é que no romance o que é menos trabalhado é o próprio Olho do Mundo.

O primeiro livro da série Roda do Tempo possui defeitos e qualidades em igual medida, ainda que consiga se manter como uma obra bem escrita. Contudo, mesmo para os amantes da fantasia medieval, não será necessariamente uma leitura interessante, devido a todos os clichês e repetições. Já os que conseguirem dialogar com o tom do livro e relevar, ou mesmo aproveitar, o enredo ingênuo e saudosista, podem ter um bom entretenimento e, caso não se desapontem com o desfecho meeiro da obra, até chegar a ansiar pelas continuações desta série enorme. E falando em sequências, considerando que O Olho do Mundo já apresenta a maioria dos passos da Jornada do Herói, o que o resto da série trará? Começando com personagens jovens, é de se esperar que um dos principais temas de a Roda do Tempo como um todo seja o desenvolvimento e amadurecimento dos protagonistas. Além de, claro, mais lendas das eras passadas que a Roda do Tempo deixou para trás.



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