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Um Grande Prólogo

O Poder da Espada (The Blade Itself) foi o romance de estreia de Joe Abercrombie tanto no Brasil quanto na literatura. Sendo o primeiro da trilogia A Primeira Lei, já finalizada e publicada no país pela Editora Arqueiro, serve como entrada tanto para a história quanto para o mundo de fantasia medieval criado por Abercrombie. O Poder da Espada recebeu comentários positivos nos Estados Unidos, o que garantiu além da publicação da Trilogia, quatro outros livros passados no mesmo mundo, ainda não publicados em solo brasileiro.

O livro começa com um fim. Pelo menos um fim para o guerreiro Logen Nove-Dedos. Emboscado por um grupo de criaturas conhecidas como shankas, acaba caindo de um penhasco. Mas logo se estabelece que Logen é um sobrevivente, alguém que fará de tudo para continuar no seu caminho e, como dizem nas terras dele, não voltar a lama. Acreditando que seus amigos foram mortos pelas criaturas, ele parte, rumo ao sul.

E é nas terras ao sul, muito ao sul, onde Logen nunca esperava chegar, que fica a União. Um bastião da modernidade, terra civilizada, científica e de inúmeras conquistas bélicas e arquitetônicas. Cheia de burocracia, corrupção, desigualdade e disputa entre os vários poderes. A União já foi um lugar glorioso, formada por diversos reinos que foram unidos sob a mesma bandeira por um rei de outrora, sob os sábios conselhos de Bayaz, o Primeiro dos Magos, aprendiz direto do Grande Juvens e a figura que, dizem as lendas, derrotou o lendário Kanedias, o Mestre Artificie, cujas obras arquitetônicas inigualáveis perduram até os dias atuais.

Mas esses dias já passaram há muito tempo. E as histórias sobre essa criação parecem apenas lendas e alegorias. Arrogantes e presunçosos, os nobres da União mal percebem que o tempo da glória já passou. O Rei é apenas um demente, seu filho mais velho não vale muito mais. É o Conselho Interno que realmente governa, mas seus membros veladamente lutam por poder, apenas o Chanceler Feekt consegue mantê-los trabalhando em conjunto e equilibrar as forças do governo. Mas Feekt já é muito velho. Pode morrer a qualquer instante.

Jezal é completamente filho da União. Nobre de nascença, primeiro filho, bonito, galante, orgulhoso e desleixado, busca viver uma vida fácil. Conquistar glória no exército para então pular para um posto mais calmo e cheio de mordomias era uma opção. Mas com a iminência do Campeonato, seu objetivo se torna vencê-lo na presença do Rei, ganhar fama de forma mais rápida, alguma posição de destaque no governo e então viver a boa vida. Quanto à Glokta, ele já venceu o campeonato. Doze anos atrás. Foi o maior espadachim que o reino já viu, adorado e amado por todos. Mas isso parece ter pertencido a outra vida, capturado e torturado durante as guerras contra Ghurkul, ele é apenas uma sombra do que era. Deformado, coxo e amargo, se arrasta pelos corredores da inquisição, sentindo dores atrozes enquanto se dedica a trabalhar no mesmo tipo de coisa que ele sofreu. E Glokta é muito bom em extrair informações. Por que ele faz isso? Não sabe. Mas é a única coisa em que ele pode ser útil.

Desde o início, O Poder da Espada deixa claro que é um livro centrado nos personagens. E devido a essa característica, tanto os protagonistas quanto alguns secundários são muito bem desenvolvidos. Jezal, Glokta e Logen não são personagens fáceis de se gostar, e dificilmente conseguiriam passar uma sensação de identificação para um leitor. No entanto, suas personalidades são críveis e bem trabalhadas, com os motivos de serem quem são ficando à mostra no decorrer de suas histórias e os indícios de mudanças futuras já despontando no livro. Dos três, talvez apenas Jezal soe um pouco artificial. Seus arroubos de orgulho e narcisismo as vezes parecem infantis e exagerados demais. E os motivos para que este personagem comece a se tornar mais responsável não convencem muito.

Este tipo de estrutura centrada nos personagens pode trazer vários benefícios para um romance, sobretudo quando está aliada a uma história ou ambientação comum que é mostrada pouco a pouco por diferentes pontos de vista. No entanto, isso não é tão bem executado em O Poder da Espada. Os personagens parecem desconexos entre si, como se cada um pertencesse a um mundo diferente. Glokta e Jezal vivem na mesma cidade, mas é quase como se fossem de países diferentes, pois as coisas que estão passando – mesmo que revelem problemas existentes no reino inteiro – não chegam a afetar de forma alguma o outro. Salvo alguns rápidos momentos em que os personagens contracenam, mas sempre sob a perspectiva de apenas um deles, é como se os capítulos de cada um dos protagonistas fizesse parte de um livro diferente. Ao final de O Poder da Espada esta questão melhora um pouco, quando os pontos de vista vão se misturando no mesmo capítulo e os personagens estão envolvidos em situações semelhantes. Mas várias páginas se passam antes que isso seja alcançado.

Isto acontece porque a história principal não recebeu a atenção que precisava. A sinopse indica que os protagonistas serão afetados de alguma forma pela presença de Bayaz, o primeiro dos magos. No entanto, dentro do livro, isto acontece apenas após mais de metade de suas páginas terem sido vencidas e ainda assim não fica claro o que de fato está acontecendo. Qual o conflito do livro, afinal? O leitor se pergunta. O que, de fato, conta esta história? Estas perguntas são apenas respondidas perto do fim de O Poder da Espada. É verdade que pouco a pouco, conforme o cenário vai sendo apresentado, pequeníssimas informações sobre a ambientação e o passado da União, bem como a situação de guerra que ameaça envolver a tudo, vão sendo reveladas. Mas isto não é o suficiente. A relação dos personagens com os acontecimentos e, de fato, porque eles são protagonistas da história só fica mais clara nas últimas páginas do livro, quando se têm a impressão de que, 450 páginas atrasada, a história vai começar.

O Poder da Espada é um livro bem escrito. Começa com ação, mas é mais para chamar atenção do leitor do que estabelecer o tom e o ritmo que irão reger a trama. Joe Abercombrie é especialmente competente em descrever as cenas das lutas em que os personagens se envolvem. Seu trabalho com alguns dos protagonistas é admirável, mas os secundários, que em muitas obras são mais adorados do que os principais, não chamam muita atenção. Principalmente as personagens femininas, que se mostram estereotipadas e bidimensionais, não sendo bem desenvolvidas ou, pior, sendo mal utilizadas.

Não existe muito a se falar sobre o mundo da trilogia A Primeira Lei. A magia que existe na ambientação e tem um papel importante na história da União, no entanto, o fenômeno aparece muito pouco no livro e não é possível conhecer seu funcionamento ou suas limitações. Como muitas obras de fantasia medieval, existe muito pouca medievalidade. Aos menos no que toca a União. As formas arquitetônicas e vestimentas são pouco descritas, mas do que é dito sobre o assunto. somado ao funcionamento da sociedade, do governo e das instituições do lugar, a União estaria mais na idade moderna do que na baixa idade média. O que não é estranho ao gênero da fantasia medieval.

O livro de estreia de Abercrombie não acrescenta muito ao seu gênero. No entanto, consegue trabalhar de forma mais ou menos original com os clichês mais óbvios e apresenta personagens interessantes. É uma obra leve, embora um tanto arrastada. Uma leitura simples e agradável para os que gostam de fantasia medieval e que pode agradar os que se embrenharam no gênero devido à fama de Guerra dos Tronos. Mas lê-lo com muitas expectativas pode resultar em decepção. Talvez o segundo livro da trilogia, Antes da Forca, tenha uma desenvoltura melhor, já que começa com a trama já engatilhada.



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