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Terceiro volume da saga do Bruxo Geralt de Rivia, série de fantasia polonesa que se tornou um fenômeno cult nos países da Europa Oriental para então conquistar o mundo através do seu jogo eletrônico, O Sangue dos Elfos difere de seus predecessores por ser um romance, não uma coletânea de contos. A mudança do gênero não passa despercebida, sendo notáveis as diferenças de estilo entre as obras anteriores e essa que acaba sendo o real início da saga. Infelizmente, se os dois livros de contos de Sapkowski foram magistrais, o mesmo não se repete com O Sangue dos Elfos, onde o autor parece estar experimentando um formato de romance ao mesmo tempo em que não abandona o estilo do conto. Essa perda de ímpeto, no entanto, não deveria preocupar os leitores, pois, apesar de defeitos não encontrados nas obras passadas, o livro não deixa de ser uma boa obra para os fãs de Geralt e abre oportunidades para uma ótima história.

Um ano se passou desde os eventos do último conto de Espada do Destino e, até onde vão os rumores, o bruxo Geralt está desaparecido ou morto e ele pode ter estado ou não com uma garotinha, logo após a invasão de Nilfgaard. A guerra chegou a uma trégua incerta. O Império de Nilfgaard foi detido a muito custo na batalha de Sodden, mas novas violências parecem irromper a qualquer momento. Os Esquilos – rebeldes não humanos – parecem estar sendo patrocinados pelos pretensos invasores e fazem sangrar os reinos do norte. Em meio a todo esse clima de guerra fria, um homem procura por Geralt e, mais especificamente por Ciri, indo atrás de amigos conhecidos do bruxo para buscar por informações. Rience, é o seu nome, um feiticeiro medíocre, mas que, como constata Yennefer – a “amiga” de Geralt – está sendo ajudado por alguém extremamente poderoso.

O resumo da obra decerto soa como algo vindo de um romance comum, no entanto, este não é exatamente o caso de Sangue dos Elfos. Apesar der ser declaradamente um romance, Sapkowski praticamente constrói a sua história como se cada capítulo fosse um conto em separado, em um estilo que lembra muito as suas antologias. Uma boa aposta do autor, já que ele consegue escrever contos e noveletas muito eficientes. Apesar de pouco convencional, nada mais justo do que aplicar esta competência a uma obra mais longa e com uma história mais encadeada.

Em geral, o autor conseguiu manter a qualidade de seus escritos, e, mesmo usando esta estrutura incomum, a conjunto da obra realmente tem todo o aspecto de um romance. As passagens de tempo entre um capítulo e outro são sim, consideráveis, além das mudanças constantes de pontos de vista, que compreendem Jaskier, Ciri, Geralt e – para o deleite dos fãs dos jogos digitais da série – Triss Merigold em sua primeira aparição na saga.

No entanto, não se pode negar que, apesar dos esforços e da competência do autor, os capítulos-contos de Sangue dos Elfos acabam não sendo tão bons quanto os contos-contos que ele já havia escrito. A maior parte do que impressiona nos contos do autor ainda pode ser encontrado no primeiro romance da saga. Os temas delicados, a ambientação tanto cruel quanto fantástica, as discussões que acabam pendendo para o filosófico, os diálogos inspirados, todos estão na obra. Contudo nas duas antologias, Sapkowski tinha a liberdade de contar histórias tão dispares quanto possível e se valer de temas e climas completamente diferentes para construir suas histórias. Isso trazia uma variedade muito interessante, tornando cada conto realmente único e fantástico. Coisa que acaba por não ser repetir no romance, que com seus capítulos-conto, precisa, em geral, se manter sempre nos mesmos temas e climas da saga como um todo.

O autor também parece possuir alguma dificuldade inicial em encadear as narrativas e fechar a obra enquanto romance. Existem algumas passagens que soam muito como um “entre-cenas” para conectar uma parte a outra que não parecem muito bem construídas. Em matéria de história, também é necessário atentar que, enquanto livro único, O Sangue dos Elfos fracassa feio em criar uma história só dele, praticamente não resolvendo nenhuma das questões que estabelece e terminando num ponto qualquer, que mau parece realmente o fim de uma obra concisa.

É fácil perceber que o autor está experimentando o modelo que decidiu para sua saga e ainda está se acostumando com as diferenças que isto traz à seu estilo e ritmo. No entanto, isso não afeta a maior parte das qualidades de Sapkowski. Os personagens são muito bem construídos e a obra demonstra que Geralt não é o único que o autor consegue escrever bem. Não é tão fácil fazer de uma criança um personagem agradável e crível ao mesmo tempo. Mas Ciri acaba sendo o melhor que o livro tem a oferecer, se comportando de fato como alguém da sua idade, ao mesmo tempo em que o seu desenvolvimento, seu treinamento e sua história são interessantes e instigantes.

Talvez isso acabe irritando os mais fanáticos pelo bruxo Geralt, mas acaba que o livro é mais sobre Ciri e a situação política dos reinos do norte do que sobre o famoso Witcher. É claro que o lobo branco tem grande importância na trama e sempre terá um papel de destaque, mas os capítulos em que ele figura como protagonista são a minoria e alguns deles sequer contam com a sua presença. Também é preciso ter em mente que ação não é o forte da obra de Sapkowski. Apesar de existir algumas sequencias de luta e confronto, se resumem a um máximo de uma por capítulo, com alguns deles sequer possuindo estes instantes de confronto.

No fim das contas, O Sangue dos Elfos acaba sendo algo como uma joia não lapidada. É fácil de ver as suas qualidades e o que o autor buscava ao construí-lo, mas é como se o estilo e a estrutura ainda não tivessem alcançado o seu ponto primordial. Os que foram conquistados pelas aventuras de Geralt nas coletâneas anteriores dificilmente terão uma experiência ruim. Apesar dos defeitos, para os veteranos é muito fácil de gostar da história, e dos personagens, além de ver o mundo de Sapkowski sendo construído, delineado e povoado de uma forma que os contos não conseguiam. Em contrapartida, quem resolver ignorar as obras anteriores, seguindo um mau costume de se dar pouco crédito para contos, pode ter uma dificuldade muito grande em apreciar a leitura, mesmo já tendo contato com os jogos da saga. Aliás, talvez principalmente se já o tiver feito. A falta de ação, o foco em Ciri e a estrutura estranha poderão facilmente fazer os fãs digitais torcerem o nariz. Existe um “volume 3” na capa do livro por um motivo e não é uma boa ideia ignorá-lo.

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