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Obra mais conhecida do escritor polonês Stanislaw Lem, Solaris lida tanto com aspectos da ficção-científica alheios ao homem quanto com os que exploram o seu interior. Adaptada três vezes para o cinema, tendo inclusive ganhado o Grand Prix de Cannes em 1972 com o filme dirigido por Tarkovsky, a obra faz por merecer o sucesso e a atenção. Solaris consegue ser muito bem sucedida em suas premissas, trazendo tanto toques de terror quando da exploração científica dos mistérios do cosmos e da própria humanidade. Com uma obra curta, mas impecável, Stanislaw Lem, filósofo, físico e escritor, mostra que não é só da língua inglesa que vive a ficção científica e entra com facilidade em qualquer lista de clássicos do gênero.
O livro gira em torno do personagem Kris Kelvin e das pesquisas científicas realizadas no planeta Solaris. Distante da Terra, mas por várias décadas o centro das atenções da humanidade, descobriu-se que o lugar possui apenas uma forma de vida, o imenso oceano, tido como consciente, que abrange todo o planeta. A estação de trabalho que ainda reside no lugar tem como meta estabelecer contato com essa estranha vida alienígena. No entanto, quando Kelvin chega ao seu posto para participar das pesquisas já em andamento, descobre que algo está muito errado na estação. Dos três cientistas que lá residiam, um suicidou-se e os outros dois parecem estar à beira da insanidade. A busca por respostas é a reação natural para o cientista, e apenas se intensifica quando ele mesmo começa a ser afetado por estranhas experiências e alucinações. Enquanto fazem experiências com o oceano, os cientistas também são testados e analisados por ele.
A história é apresentada em primeira pessoa, através do olhar de Kris Kelvin. Não há nada de muito especial na forma como Lem trabalha a linguagem, mas o modo como ele vai narrando as impressões e experimentos de Kelvin são suficientes para mostrar o seu domínio da escrita e do desenvolvimento do personagem no ambiente claustrofóbico da estação.
O foco da história não é o terror, mas a comunicação. O mote principal da obra é uma ideia de que as diferenças entre o ser humano e formas de vida alienígenas podem ser tão profundas que conceitos básicos para a civilização terrestre não poderiam ser apreendidos e interpretados. Não tem como haver comunicação, de fato, quando signos, ideias, e fenômenos são completamente diferentes, quando, aliás, até mesmo os próprios significados destes termos não teriam como ser transmitidos.
Ainda assim, o terror tem uma presença muito forte. E o autor realmente soube como trabalhá-lo. Todo o suspense e mistério de quando Kelvin chega na estação em Solaris são construídos com maestria, conseguindo criar tensão e inquietação conforme ele vai estudando os seus colegas, as redondezas e, enfim, a si mesmo. Apesar de não ter nenhuma ligação direta com jogos, o modelo de história construído por Lem antecipa em várias décadas um estilo que seria usado no gênero do Survivor Horror (surgido com Resident Evil 1 e inspirado em Alone in the Dark 1), onde o protagonista é jogado numa situação aterrorizante e perigosa, e descobre o que está acontecendo através de documentos, registros e conversas com coadjuvantes traumatizados.
Não há nada que aponte para uma inspiração real em Lovecraft. Ainda assim, existem temas parecidos. O autor dos Mitos de Cthulhu já falava sobre entidades alienígenas incompreensíveis para os humanos e muito maiores do que toda a humanidade. Lem, no entanto, trata o assunto com um olhar mais científico e menos voltado para o horror. Se em Lovecraft o terror é o objetivo, em Lem é uma consequência, mas que tem todo um pé na ideia de horror cósmico. O Chamado de Cthulhu foi uma das principais inspirações para os jogos de Survivor Horror, mas, curiosamente, Solaris acaba tendo características muito mais próximas desses jogos. Ideias de investigação que surgiram nos RPGs de mesa a partir de extrapolações das obras de Lovecraft – e que mais tarde influenciaram jogos digitais como Alone in the Dark e Resident Evil – são mostradas com naturalidade em Solaris.
O maior trunfo de Lem, contudo, é completamente voltado para a Ciência. Ou melhor, para a criação da Ciência. Não falo aqui especulação, pois não é disso que se trata. Claro que o livro é uma obra essencialmente especulativa, mas é a forma como o autor constrói o conhecimento científico em seu livro que salta aos olhos.
Os estudos do planeta Solaris possuem toda uma história, que vai sendo explicitada com bastante ênfase no livro, a partir de recordações ou de leituras do protagonista. Lem construiu toda uma evolução dos estudos da Solarística, desenvolvendo-os como se fossem um campo de estudo real, com fases de glória, pioneiros, hipóteses, teorias, refutações, nomes importantes, até chegar na atualidade, onde há apenas uma estação com 4 cientistas no planeta. São comentados também os desenvolvimentos técnicos que foram necessários para se estabelecer pontos de observação seguros e a forma como se deram as interações entre o homem e o oceano vivo.
Esses segmentos do livro não estão distribuídos a conta-gotas, mas vêm em um grande fluxo de informações que leva muitas páginas, coisa que, nas tradições atuais da ficção especulativa, não é tão apreciável. Talvez leitores com menos gosto para uma ficção-científica mais antiga torçam o nariz, considerando que é uma má prática ou que se trata de um material muito chato e cansativo. No entanto, isso seria fruto de inexperiência ou pouca paciência para lidar com a obra, pois nesse ponto reside uma das características mais fantásticas que Solaris tem para oferecer. Além de, claro, a própria interação do homem com o planeta.
Não é à toa que Kelvin é um psicólogo. Sua formação é imprescindível para a história e a forma como é tratada a relação dos personagens uns com os outros e, é claro, com o oceano. Kelvin sabe analisar as suas próprias percepções, escavar o próprio eu em busca de respostas. Respostas não necessariamente respondidas, mas parte de uma jornada importante para a obra. Em sua busca por tentar entender o oceano, o personagem precisa literalmente entender a si mesmo e aos próprios processos mentais, tentando alcançar uma espécie de comunicação completamente impossível.
De fato, é bem por provável que a relação entre humanos e formas de vida alienígenas seja impossível. Porém, indo ainda mais longe, como discute o artigo Comunicação: condição ou impossibilidade humana, baseado em ideias de Deleuze e Guattari, talvez o ato mesmo de se comunicar, não importando o receptor, seja algo impossível para o ser humano.