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“Governador Tarkin. Eu já esperava encontrá-lo segurando Vader pela coleira.”

Não é só o caçador de recompensas Boba Fett que vive de uma fama injustificada, já que nos filmes pouco vemos do personagem em ação para que tenha alcançado tamanha legião de fãs. Existe um outro obscuro personagem, que apesar de ter participado de apenas um filme é sempre lembrado, muito disso por ter sido eternizado no cinema pela atuação do grandioso – e são poucos atores que podem ser chamados assim – Peter Cushing. Estou falando do Grand Moff Wilhuff Tarkin.

Para quem quem não lembra, o personagem aparece em Episódio IV – Uma Nova Esperança, sob o título de Grand Moff, o único abaixo do próprio Imperador, e responsável pela Estrela da Morte, a destrutiva estação de batalha do Império Galático. Apesar de só aparecer nesse filme, a figura fria e imponente de Tarkin deixou a sua marca, principalmente por ficar claro no filme que o Grand Moff era o único a quem Darth Vader respeitava e até mesmo obedecia. Ao contrário do que muita gente pensa, Vader não era um dos cabeças do Império, e muito menos o braço direito do Imperador. Tal atribuição caía sobre Tarkin, o estrategista a quem tivemos tão pouco acesso e que foi retirado de cena tão bruscamente, quando Luke Skywalker destrói a Estrela da Morte no mesmo filme, e vemos que o arrogante Tarkin, que se recusa a bater em retirada, explode junto com a estação tal qual um capitão afundando com o seu navio.

Desde então, pouco soubemos sobre o personagem e suas origens, até que o escritor James Luceno decidiu escrever o livro Tarkin, um dos primeiros do novo cânone sob o controle da Disney, e que conta como foi o período em que o então apenas Moff supervisionava a construção da Estrela da Morte, enquanto revisita um pouco de seu passado, montando um quebra-cabeças que vai nos revelando a vida desse misterioso e sub-aproveitado líder político. Apesar de não contar com uma narrativa em primeira pessoa, a narrativa de Luceno é eficaz em conseguir nos colocar dentro da mente de Tarkin, trazendo para as páginas uma perfeita caracterização do frio personagem apresentado em Uma Nova Esperança. O posicionamento de Tarkin a respeito de si mesmo e de seus subordinados, bem como seus questionamentos pessoais, são tão críveis que se o leitor se esforçar um pouco quase consegue escutar e ver o próprio Peter Cushing falando.

Na trama, acompanhamos Tarkin sendo convocado às pressas pelo Imperador em Coruscant e tendo que deixar de lado temporariamente a construção da Estrela da Morte, tudo para investigar – ao lado do próprio Darth Vader – uma possível organização de rebeldes contra o Império. Os dois acabam descobrindo que o problema é bem maior do que pensavam, quando a própria nave de Moff Tarkin – a incrível Pico da Carniça – é roubada pelos rebeldes, iniciando uma caçada que toma boa parte do livro. Sem dúvida uma das coisas mais interessantes da história vem dessa parceria entre Tarkin e Vader, onde Luceno pontua muito bem como era o relacionamento dos dois, algo que havia sido apenas arranhado no Episódio IV. Quem assistiu a série animada The Clone Wars sabe que Tarkin tem uma participação em alguns episódios, onde conhece Anakin Skywalker e os dois chegam à conclusão que possuem ideias semelhantes e um ponto de vista em comum, e aqui o autor se aproveita disso para trabalhar a dinâmica da dupla. É curioso quando percebemos que ninguém no Império sabia a real identidade de Vader, com alguns até mesmo achando que ele poderia ser alguma espécie de ciborgue, enquanto que Tarkin alimenta as suas suspeitas e tem quase certeza de aquele é sim Anakin Skywalker, o interessante Jedi que ele conhecera outrora.

Mas é claro, além da trama principal do livro que gira em torno da busca pelos ousados rebeldes que roubaram sua preciosa nave, algo extremamente interessante é quando conhecemos o passado de Wilhuff Tarkin. Afinal, quem iria imaginar que esse político influente dentro do Império teria sido um jovem guerreiro no planeta Eriadu, lutando por sua sobrevivência em testes mortais impostos por sua própria família? A juventude do jovem Tarkin é contada por meio das lembranças do próprio Moff, que orgulha-se dos testes no inóspito Pico da Carniça, por terem moldado seu caráter e o terem preparado para uma visão de mundo onde tudo é um campo de batalha. Além de sua infância, acompanhamos também como o jovem Tarkin ingressou no exército da República, e o surgimento de sua amizade com Palpatine quando este ainda era apenas um Senador em Naboo.

Talvez o único problema do livro seja o tom extremamente político utilizado por Luceno. Tom este que se faz necessário em uma história que trata de um dos maiores líderes políticos do universo de Star Wars, mas ainda assim em alguns momentos acaba tornando a leitura monótona e um tanto tediosa. São termos técnicos demais, debates intermináveis e diversas siglas diferentes caracterizando as diferentes células do governo do Imperador. Um outro problema, mas esse bem mais pessoal, é apresentar os supostos rebeldes como na verdade dissidentes do próprio Império, descontentes com os rumos tomados após o final das Guerras Clônicas. Perde-se uma boa oportunidade de já introduzir o surgimento da Aliança Rebelde, apenas para inserir imperiais insatisfeitos que não influenciam em nada dentro do cânone. Mas como disse, isso já é uma crítica pessoal.

De uma forma geral, Tarkin é um ótimo livro para quem quer saber mais a respeito desse icônico personagem que foi tão pouco aproveitado no cinema, e apesar de não ser um dos melhores livros de Star Wars, vale a pena para entender um pouco mais do pano de fundo da criação da Estrela da Morte e do funcionamento do Império nos seus primeiros dias após a queda da República. 



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