
Em 2012, após um período de oito anos, os gauleses irredutíveis da pequena aldeia na Armórica voltaram às páginas dos quadrinhos, e dessa vez, pela primeira vez em 54 anos pelas mãos de outros autores que não os seus criadores originais. Asterix entre os Pictos foi o primeiro álbum de Asterix que não contou com seu co-criador Albert Uderzo, desenhista original da série, que vinha trabalhando também nos roteiros desde a morte do amigo René Goscinny, falecido em 1977. Foram oito álbuns sob a tutela de Uderzo, e que dividem as opiniões dos fãs. Os escolhidos para a tarefa de suceder o autor original foram o roteirista roteirista Jean-Yves Ferri e o desenhista Didier Conrad. E o que tivemos foi um álbum bastante divertido, mas que parecia ainda de certa forma tímido e com medo de onde estava pisando.
Esse ano tivemos o lançamento do segundo álbum da nova equipe criativa, Asterix e o Papiro de César, que acaba de chegar às livrarias e comic shops, e o que percebe-se é uma considerável melhora desde o anterior – que já acho bem divertido – onde fica bem claro que os autores se sentiram com mais liberdade para contar sua história e brincar à vontade com esses personagens. Ao contrário do álbum anterior, onde Asterix e Obelix viajam a outro país e com isso não temos a interação com os outros habitantes do vilarejo, aqui boa parte da trama se passa dentro da aldeia, e a nostalgia é grande quando presenciamos momentos icônicos como as discussões entre Ordenalfabetix e Automatix, as ilusões de grandeza de Veteranix, e até mesmo as tentativas de canções do bardo Chatotorix. Momentos marcantes durante os 56 anos de Asterix, e que fizeram com que nos apaixonássemos por esses gauleses loucos que resistem bravamente ao avanço de Roma.
Algo interessante em O Papiro de César, é que Jean-Yves Ferri se arriscou um pouco naquilo que Goscinny fazia tão bem: tratar política de forma satírica e com humor, pincelar acontecimentos históricos, e trabalhar com temas a
tuais. Na trama, o Imperador Júlio César está prestes a publicar o seu manuscrito intitulado “Comentários sobre as guerras contras os gauleses”, mas seu conselheiro Bônus Promocionus sugere a César que um certo capítulo seja retirado antes do lançamento do livro. Um capítulo que fala justamente das derrotas que Roma vem sofrendo para a nossa velha aldeia de gauleses irredutíveis da Armórica.
O papiro que leva o capítulo em questão é então retirado dos manuscritos e todas as suas cópias são confiscadas, bem como os escribas (pessoas que na antiguidade dominavam a escrita) presos. Um desses escribas no entanto, chamado Wikilikis, revela-se como um grande idealista, recusando-se a permitir que um capítulo da história do povo gaulês seja censurado. O escriba foge levando um cópia do papiro, que entrega ao “mensageiro de notícias” – o equivalente ao nosso jornalista de hoje – Superpolemix, um ativista gaulês perseguido por Roma devido à suas notícias, e que deseja sacudir o Império com tamanho furo.
Do nome do escriba – uma alusão à rede Wikileaks do ativista australiano Julian Assange – aos vazamentos de informações do governo, passando até pela ética jornalística, Ferri mantém a história bastante atual, ao mesmo tempo que trabalha o bom e velho humor e espírito aventureiro dos personagens, afinal Asterix e Obelix precisam sair em uma viagem atrás de um Druida capaz de memorizar o papiro antes que este caia novamente nas mãos dos romanos, que tentam a todo modo impedir que sua perda chegue ao conhecimento de César. A comunicação se faz presente a todo momento na história, com os romanos utilizando até mesmo uma complexa e bem estruturada rede de mensagens por pombos-correio. Uma alusão ao Twitter? Talvez.
De uma forma geral, Asterix e o Papiro de César diverte e nos faz matar a saudade desses queridos gauleses. Ainda que as histórias de Ferri não se igualem às mais espirituosas da época áurea de René Goscinny, o autor consegue pelo menos manter um nível acima dos últimos álbuns que haviam sido escritos por Uderzo.
Obviamente, não posso deixar de citar aqui também a excelente arte do desenhista Didier Conrad. É incrível como o artista consegue emular com perfeição o traço característico de Uderzo, fazendo com que a diferença seja praticamente imperceptível, algo que torna a imersão da leitura ainda mais completa. Provavelmente Conrad estudou bastante os métodos de Uderzo e seus desenhos nos álbuns anteriores, pois o que vemos aqui não é apenas um traço semelhante, mas toda uma narrativa e enquadramento incrivelmente fiéis ao original.
Após a leitura de O Papiro de César, o que sobra é a uma ótima sensação de que Asterix e sua aldeia de gauleses irredutíveis estão em ótimas mãos pelos próximos anos. E que venham mais aventuras!





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