
A trama mostra o crescimento de uma garota chamada Samantha. Uma menina que poderia ser normal, talvez apenas um tanto estranha ou mórbida para a idade, mas cuja a vida é atormentada por seus pesadelos. Quando dorme, Samantha se transporta para uma realidade onírica macabra muito bem desenvolvida pelos autores, principalmente no quesito artístico. Lá, ela acaba sendo perseguida por criaturas monstruosas, condição que precisa enfrentar por toda a sua juventude. No entanto, conforme vai crescendo, a jovem começa a perceber suas próprias capacidades em tal mundo hostil, a natureza do lugar e nas causas de seu infortúnio.
Beladona é tudo menos piegas. A HQ mostra uma história cruel e até mesmo grotesca enquanto mostra Samantha tentando entender o mundo dos sonhos e como ela se relaciona a ele. É possível encontrar alguns temas como autoestima, abuso, e aceitar a si mesmo, coisa que a garota o faz e é importante para a trama, mas nem de longe eles são utilizados para passar alguma mensagem sentimental, ficando apenas como recursos narrativos.
O foco da obra é realmente Samantha. Locações e personagens giram ao redor dela e são desenvolvidos apenas o suficiente para caracterizar a protagonista e dar seguimento à trama. Por um lado, isso faz com que o leitor possa se importar com a garota, que apesar de sofrer mudanças radicais no decorrer da história, ainda pode evocar empatia e expectativas em relação a um tão feliz quanto for possível. Passando de criança à adolescente e então até o início da vida adulta, a personalidade de Beladona é bem fundamentada e desenvolvida com sucesso na HQ, no entanto, isso ocorre apenas com ela. Os outros personagens acabam sendo bastante vazios e úteis apenas para ajudar a delinear a garota, não tendo vida por si só.
Este desenvolvimento pouco aprofundando de certos personagens não passa despercebido. Coadjuvantes vem e vão e causam seu efeito apenas em Samantha, mas de forma alguma no leitor. Isto acontece até mesmo com o grande vilão da história, que apesar de se basear numa ideia criativa – e bastante perturbadora – não chega a causar muita emoção quando é revelado. No entanto, o problema não parece ser vir de falhas no roteiro, falta de qualidade ou inexperiência dos autores. O culpado provavelmente é o tamanho da história.
Uma trama como a de Beladona se beneficiaria de uma quantidade maior de páginas. Tivesse o dobro do tamanho, seria possível se aprofundar ainda mais no desenvolvimento de Samantha e também dar vida, complexidade e sentimento aos coadjuvantes que, em geral, recebem um tratamento bem rasteiro. Contudo, isso traria uma série de questões para os autores. Fosse maior e mais desenvolvida, Beladona teria muitos problemas para ser viabilizada. Não apenas em uma questão de financiamento coletivo, que certamente precisaria de muito mais recursos, mas no próprio preço final, que dada a tiragem “indie” que a revista teria, acabaria sendo proibitivo para o consumidor final. A decisão do tamanho da obra, portanto, se torna bastante justificável.
Se o roteiro possui o seus poréns, a arte de Beladona merece apenas parabéns. De início, a arte de Denis Mello pode parecer um pouco difícil de engolir, à primeira vista, seus traços e o estilo sujo e desproporcional que utiliza podem parecer estranhos, até mesmo feios. Contudo, conforme o leitor vai avançando na obra e se acostumando com a estética de Beladona, tudo parece de alguma forma se encaixar. É possível que muita gente tenha dificuldades com a arte, mas uma vez que o leitor se deixe levar, aceite ela como está sendo apresentada, arte e roteiro passam a se apoiar de forma bastante satisfatória.
De certa forma emulando a percepção que Samantha tem dos mundos em que vive, a realidade desperta chama muito pouco atenção, parecendo feia e fora de lugar quando comparada com o universo onírico. Nessas passagens do mundo dos sonhos, Denis Mello apresenta panoramas belos e terríveis, com as cores certas para se criar uma atmosfera apropriada para se criaturas uma atmosfera única para estas partes da história.
Beladona não é uma história perfeita. E mesmo que possam existir boas razões para algumas coisas da HQ que poderiam ter se apresentado de uma forma mais interessante ou mais apreciável à primeira vista, leitor nenhum tem a obrigação de perdoar pequenos pecados quando pensa sobre como vai gastar o seu dinheiro. No entanto, a obra de Ana Recalde e Denis Mello possui uma identidade própria, qualidades apreciáveis e uma história interessante, tudo na medida o suficiente para que se valha a pena investir e prestigiar autores brasileiros independentes. Quanto a qualidade física da edição, não há dúvidas da qualidade do material, que apesar de não ter capa dura, supera muitas revistas voltadas para livrarias que são lançadas por editoras maiores.
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